Celebrado em 3 de junho, Dia Internacional do Sommelier, o profissional que durante muitos anos foi associado exclusivamente ao serviço do vinho vive hoje um dos momentos mais relevantes da sua história no Brasil. Impulsionada pelo amadurecimento do mercado, pela cultura do vinho e pela sofisticação da gastronomia e da hospitalidade, a sommellerie amplia seu espaço e assume funções cada vez mais estratégicas.
O cenário ganha ainda mais força diante das perspectivas abertas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia, firmado em maio de 2026, que aproxima mercados e amplia oportunidades de circulação de produtos e serviços entre 31 países. Nesse contexto, cresce a demanda por profissionais preparados para atuar não apenas em restaurantes, mas também em hotéis, importadoras, varejo especializado, enoturismo, gestão de adegas e desenvolvimento de experiências.
Para a Associação Brasileira de Sommeliers – RS (ABS-RS), referência nacional em formação profissional, o futuro aponta para um mercado que valoriza cada vez mais especialistas capazes de unir repertório técnico, visão de serviço e sensibilidade para transformar uma taça em experiência.
A evolução do papel do sommelier
Essa evolução acompanha uma mudança importante no comportamento do consumidor. Hoje, beber vinho é apenas parte da experiência — compreender origem, estilo, harmonização, temperatura, serviço e contexto tornou-se um diferencial valorizado. O sommelier atua justamente nesse encontro entre técnica e emoção. É o profissional que traduz o trabalho do produtor, interpreta terroirs, conduz escolhas e cria memórias à mesa. Não por acaso, concursos e certificações ganharam relevância como forma de reconhecer excelência.
Um dos exemplos mais representativos desse momento é Gustavo Buske, eleito Melhor Sommelier do Rio Grande do Sul em 2026, conquistando o título pela terceira vez, após as vitórias de 2022 e 2023. Atual head sommelier do Grupo Casa Hotéis e gerente de alimentos e bebidas da Casa da Montanha, Buske representa uma geração que entende que conhecimento técnico precisa caminhar ao lado do serviço. Em entrevistas após a conquista, destacou que o estudo contínuo é parte essencial da profissão — uma área onde nunca se chega ao ponto final do aprendizado.
A sommellerie na hotelaria e gastronomia
Esse olhar especializado aparece de forma clara na hotelaria contemporânea. A Coleção Casa Hotéis, que reúne empreendimentos reconhecidos da Serra Gaúcha e dos Campos de Cima da Serra, transformou gastronomia e serviço em pilares centrais da experiência de hospedagem. Mais do que uma carta extensa, o vinho passa a ser elemento central da experiência e da identidade.
Restaurantes como o Alma RS, comandado pelo chef Vladmir Paiva, mostram como vinho e cozinha deixaram de ocupar espaços separados para criar experiências integradas e conectadas ao território. Estive hospedada no Parador Cambará do Sul e também no Wood Hotel e pude perceber na prática esse cuidado — desde a curadoria dos rótulos até a forma como o serviço acompanha o ritmo do hóspede e valoriza produtores e estilos que dialogam com cada momento da estadia.
É um exemplo de como a presença de um sommelier qualificado deixou de ser um diferencial para se tornar parte estratégica de negócios que apostam em excelência, hospitalidade e memória afetiva.
Formação e capacitação profissional
Para quem deseja ingressar nesse mercado ou aprofundar conhecimentos, a formação especializada tornou-se um passo decisivo. A ABS-RS chega em 2026 à marca de sua 25ª turma de formação profissional e já colocou no mercado quase 1,5 mil profissionais certificados, mantendo ainda vínculo internacional como membro exclusivo no Brasil da Association de la Sommellerie Internationale (ASI), entidade sediada na França e presente em 62 países.
As próximas turmas do curso Sommelier Profissional começam em 24 de junho, na modalidade online, e em 10 de julho, na modalidade presencial, em Bento Gonçalves. A formação contempla degustações orientadas, técnicas de serviço, harmonização, mise en place, visitas técnicas e contato com rótulos de diversas regiões do mundo — incluindo aproximadamente 80 rótulos ao longo do curso.
Em um setor que cresce e se profissionaliza rapidamente, investir em conhecimento deixou de ser um diferencial para se tornar um requisito. Informações completas sobre inscrições, professores e programação estão disponíveis no site da ABS-RS.
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Cinco vinhos recomendados por Gustavo Buske
- Vita Eterna Orange de Noir Brut — Pinto Bandeira, Brasil: Produzido pela Vinícola Vita Eterna, em Pinto Bandeira, este espumante rompe padrões ao unir Pinot Noir vinificada como branco com maceração nas cascas de Chardonnay, resultando em um raro estilo Orange de Noir. Elaborado pelo método tradicional e com maturação sur lie, entrega borbulhas finas e elegantes. Na taça aparece com tom âmbar e reflexos alaranjados; no nariz surgem tangerina, damasco seco, nuances de maçã assada e discretas especiarias. Em boca é texturizado, mineral, gastronômico e com final persistente. Um espumante para quem busca sair do óbvio e descobrir uma nova linguagem para as borbulhas brasileiras.
- Era dos Ventos Merlot 2020 — Serra Gaúcha, Brasil: Um vinho que traduz autenticidade e intervenção mínima. Produzido pela Era dos Ventos, projeto reconhecido pelo olhar artesanal e pela valorização da identidade gaúcha, este Merlot nasce de colheita manual, fermentação espontânea e amadurecimento em barricas de uso anterior, preservando pureza e transparência da fruta. Apresenta aromas de frutas vermelhas maduras, ervas secas e leve toque terroso. Em boca tem corpo médio, textura delicada e um conjunto equilibrado que convida ao segundo gole. É daqueles vinhos que não tentam impressionar pelo excesso — conquistam pela autenticidade.
- Amitié Oak Barrel Viognier — Serra Gaúcha, Brasil: Entre os brancos nacionais que chamam atenção atualmente, este rótulo mostra como a Viognier pode alcançar sofisticação e precisão no Brasil. Com passagem por barrica e reconhecido com medalha de ouro no Decanter com 95 pontos, apresenta aromas marcantes de pêssego maduro, flores brancas e nuances amanteigadas integradas ao conjunto. Em boca, textura envolvente e acidez firme sustentam elegância e profundidade. Um branco de perfil gastronômico, capaz de acompanhar desde peixes mais estruturados até preparações cremosas. Um dos vinhos que reforçam o momento especial vivido pelos brancos nacionais.
- Luciano Ercolino Taurasi “Marziacanale” DOCG 2016 — Campania, Itália: Se existe um vinho que representa potência com refinamento, é este Taurasi elaborado com Aglianico em solos de origem vulcânica no sul da Itália. A safra 2016 entrega maturidade e profundidade sem perder energia. O nariz revela café torrado, tabaco, frutas negras maduras e especiarias. Em boca aparecem taninos sedosos, acidez vibrante e um final extremamente longo. É um daqueles vinhos que lembram por que a Campania produz alguns dos tintos mais longevos e fascinantes da Itália.
- Barolo Enzo Boglietti Riserva 2004 — Piemonte, Itália: Fechando a seleção, um vinho para guardar na memória. Elaborado em Serralunga d"Alba, um dos terroirs mais emblemáticos do Barolo, este Riserva nasce de fermentação espontânea, sem filtração e com sete anos de amadurecimento antes de chegar ao mercado. A Nebbiolo aqui aparece em seu auge de complexidade: trufas, flores secas, ervas finas e mineralidade profunda compõem um conjunto elegante e hipnotizante. Em boca impressiona pela precisão, textura e persistência. Um vinho que confirma algo que os grandes sommeliers sabem bem: algumas garrafas não apenas acompanham momentos — elas se tornam o momento.
