Cidades

Dia do Encontro: Quando o afeto aproxima histórias e destinos

Iniciativa foi promovida pela Coordenadoria da Infância e Juventude

Dia do Encontro: a iniciativa aproximou habilitados à adoção de crianças e adolescentes
Dia do Encontro: a iniciativa aproximou habilitados à adoção de crianças e adolescentes Foto : Juliano Verardi / TJRS / CP

Em um ambiente tomado por afeto, esperança e expectativa, a 8ª edição do Dia do Encontro foi realizado no sábado, em Porto Alegre, e reuniu histórias capazes de tocar corações e transformar destinos. Crianças e adolescentes que aguardam adoção tiveram a oportunidade de conviver com habilitados à adoção, em uma tarde marcada pela descontração e pela construção de novos vínculos familiares.

A iniciativa foi promovida pela Coordenadoria da Infância e Juventude do Rio Grande do Sul (CIJRS), com o objetivo de aproximar interessados em adotar crianças e adolescentes aptos a integrar uma nova família. Participaram pessoas previamente inscritas e habilitadas com cadastro ativo no Sistema Nacional de Adoção (SNA), oriundas do Rio Grande do Sul e de outros estados do país.

A ação reuniu 127 pretendentes e 149 crianças e adolescentes provenientes de instituições de acolhimento e de famílias acolhedoras de diversas comarcas do Estado. A iniciativa voltou-se especialmente àquelas crianças e adolescentes que, historicamente, enfrentam maiores dificuldades para adoção – seja pela idade, por integrarem grupos de irmãos ou por demandarem cuidados de saúde específicos. Ao longo da programação, o ambiente foi marcado pela descontração, pelo carinho e pela troca de experiências, em uma iniciativa que busca ampliar as possibilidades de adoção e fortalecer o direito à convivência familiar e comunitária.

O corregedor-geral da Justiça do RS, desembargador Ricardo Pippi Schmidt, destacou a relevância humana e social da iniciativa ao acompanhar as atividades da 8ª edição. “Para o Judiciário, que trabalha diariamente com conflitos, presenciar encontros como este é algo fundamental. Ver famílias encontrando crianças e adolescentes, proporcionando afeto, acolhimento e a possibilidade de um novo começo, é talvez uma das coisas mais importantes que podemos fazer. Crianças se sentirem queridas e famílias buscarem amor e afeto é tudo o que precisamos no mundo de hoje. Esse tipo de iniciativa representa justamente a busca por uma Justiça mais humana”, afirmou.

Brincadeiras e dinâmicas

Com carisma e entusiasmo, voluntários da ONG Viver de Rir conduziram as recreações, desempenhando papel fundamental na criação de um ambiente acolhedor e leve. As brincadeiras e dinâmicas favoreceram os primeiros contatos e tornaram o encontro ainda mais especial. Entre os habilitados à adoção presentes na atividade, estavam a técnica de Segurança do Trabalho Aline Pinto, 45 anos, e o vendedor André Antunes Pinto, 49, que vivenciaram um momento carregado de emoção e significado.

Pais da pequena Manu, hoje com 7 anos, adotada aos 4 anos, eles participam pela primeira vez do evento promovido pela CIJRS. Ao falar sobre a experiência, Aline não conseguiu conter as lágrimas. Entre sorrisos e emoção, destacou que o reencontro com o universo da adoção foi diferente de tudo o que já havia vivido quando adotou sua primeira filha. “A primeira vez foi de forma mais tradicional. Na fila, esperando e a chegada. Hoje, estamos com o coração mais aberto. Olhar nos olhinhos mexeu demais com a gente”, relatou.

Encantamento, sensibilidade e intuição

Ao final do evento, a emoção ganhou contornos ainda mais profundos. Aline descreveu um verdadeiro turbilhão de sentimentos, entre encantamento, sensibilidade e intuição. Em meio às interações, uma criança chamou sua atenção de forma especial. Antes de qualquer explicação, algo simplesmente se manifestou. Depois, veio a descoberta que tornou o momento ainda mais simbólico: a menina que despertou essa conexão tinha o mesmo nome de sua mãe, já falecida. Para Aline, foi como se o afeto atravessasse o tempo e se fizesse presente naquele encontro.

“Está tudo muito confuso, é muita emoção. A aproximação foi maravilhosa. O coração bateu mais forte. Tenho certeza que minha mãe está nos guiando. E, sendo sincera, a vontade é de levar todos. A gente tem ciência dessas emoções, só não esperava tanto, preciso me acalmar”, disse, chorando.

A pretendente à adoção Martina Antoniase de Biase, 38 anos, estilista e moradora de Carazinho, participou pela primeira vez do Dia do Encontro ao lado do marido, Jonathan Basso. Ela contou que a participação no evento aconteceu de forma inesperada, mas que a experiência foi marcada pela emoção e pela conexão criada com as crianças e adolescentes presentes. “ Acho que todas as crianças que estão aqui são lindas, maravilhosas e merecem um destino lindo”, afirmou.

Realização de sonhos

Martina interagiu com uma menina de 13 anos, e a acolheu com longos e afetuosos abraços ao perceber que ela também chorava pela emoção da possibilidade de ter uma família. Para a pretendente, o Dia do Encontro revelou-se um espaço de realização de sonhos, como o de construir uma família. O coordenador da CIJRS, juiz-corregedor Charles Maciel Bittencourt, falou com emoção sobre o significado do evento para crianças, adolescentes e pretendentes habilitados à adoção.

Segundo ele, o encontro representa muito mais do que uma aproximação formal: é a oportunidade de despertar vínculos afetivos capazes de transformar vidas. O magistrado destacou ainda o cuidado na organização das atividades, planejadas para promover interação, acolhimento e respeito entre os participantes. “Hoje é um dia mágico. A gente percebe no olhar dos pretendentes, muitos vão às lágrimas".

Ao lembrar das histórias acompanhadas pelo Judiciário, Bittencourt ressaltou a importância social do projeto e os resultados já alcançados pelas edições anteriores. “Nós já tivemos 44 famílias formadas a partir do Dia do Encontro, além de 14 guardas em andamento e outras aproximações em construção. Podemos chegar a cerca de 60 famílias resultantes desse projeto. Esta é a nossa esperança: que hoje surjam novos laços, novas famílias e novas histórias de vida”, concluiu.

Causa da adoção

Já o juiz de Direito Fábio Vieira Heerdt, do 2º Juizado Regional da Infância e da Juventude da Comarca de Porto Alegre, também destacou a relevância do encontro em Porto Alegre e a emoção de ver a mobilização em torno da causa da adoção. “A gente acredita muito nos milagres da química do ser humano. Cada criança e adolescente é um milagre e tem o direito de viver em família, como determina a lei”, afirmou. O magistrado ressaltou ainda a alegria de acompanhar, semanalmente, a realidade dos abrigos e de presenciar as crianças e adolescentes participando do evento “animados, felizes e cheios de expectativa”, ao lado de pretendentes vindos inclusive de outras cidades e estados.

Histórias como a do casal Lauro Albani Kremer e Maria Evoneti da Silva ajudam a traduzir o verdadeiro significado do Dia do Encontro: um espaço onde o afeto rompe distâncias, expectativas são transformadas e a adoção deixa de ser apenas um processo formal para se tornar, muitas vezes, um acontecimento inesperado e profundamente humano.

Dois anos depois de terem encontrado a filha durante a 6ª edição do Dia do Encontro, os agricultores Lauro e Maria, retornaram ao evento levando na bagagem a experiência transformadora da adoção e a certeza de que encontros podem mudar destinos. Vindos de Montenegro, o casal voltou a participar da iniciativa promovida pela CIJRS com o coração novamente aberto para a possibilidade de ampliar a família.

Adoção de forma inesperada

Foi justamente durante uma edição anterior do evento que eles conheceram Mariana, então com 14 anos, hoje integrada à rotina e à história da família. A adoção aconteceu de forma inesperada. Segundo o casal, o perfil inicialmente pretendido era de crianças com idades entre dois e seis anos. No entanto, o encontro com a adolescente mudou completamente os planos e mostrou que a conexão afetiva pode ultrapassar expectativas e perfis idealizados. “Foi uma mágica”, resumiram, ao recordar o momento em que conheceram Mariana.

O casal elogiou o evento justamente pela possibilidade de aproximação direta com crianças e adolescentes de diferentes regiões do Estado. “O diferencial é que aqui tem crianças de todo o Rio Grande do Sul. A nossa filha veio do norte do Estado e, se não fosse o Dia do Encontro, a gente provavelmente nunca teria se conhecido”, relataram.

Mais do que a expectativa por uma nova adoção, o casal ressaltou o valor humano da iniciativa. Para eles, o principal é proporcionar momentos de acolhimento e felicidade às crianças participantes. “É importante essa interação. Independentemente de acontecer uma conexão imediata, é um momento para fazer essas crianças felizes e mostrar que elas são vistas e acolhidas”, destacaram.

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