Desde a enchente histórica que devastou o Rio Grande do Sul em 2024, a família da Giovanna Rodriguez, 9 anos, vive um lento, mas significativo recomeço. Ela, o pai, Alberto Luis Rodriguez, 59, os irmãos e a mãe, Deise dos Santos Rodriguez, 53, perderam a casa quando a água tomou conta do bairro Sarandi, na zona Norte de Porto Alegre, naquela noite de 3 de maio. Dois meses depois, conseguiram voltar para a moradia, mas foi apenas no último dia 6 de agosto que uma etapa importante dessa reconstrução foi concluída: a reforma do telhado.
A inundação não tomou apenas o singelo patrimônio material dos Rodriguez – mais que móveis, roupas, eletrodomésticos e documentos, a revolta do clima arrancou da Giovanna a forma preferida dela se comunicar com o mundo: os livros.
Diante de dificuldades oferecidas pelo autismo e por graves complicações motoras e cognitivas desde o nascimento, o lar, na avenida 21 de Abril, era referência indispensável para o desenvolvimento da Gio, junto de um acervo literário e de fantoches reunidos com dedicação e esforço pela mãe, que é pedagoga, durante sete anos.
“A forma dela compreender o mundo externo é o contato com texturas, imagens, formas e histórias”, explica Deise.
O drama familiar foi contado pelo Correio do Povo nos dias que seguiram a tragédia. E a comoção dos leitores não tardou. A partir das publicações, dezenas de pessoas se mobilizaram para ajudar a reconstruir o que a enchente destruiu.
Chegaram doações de roupas, móveis e utensílios. Mas foi a entrega dos livros — cuidadosamente selecionados para substituir os que Giovanna perdeu — que trouxe lágrimas aos olhos da menina e esperança ao coração da mãe.
“A imagem que ficou era de um vazio molhado, frio, sem cor e sem rumo. Foi a partir da matéria do jornal que recuperamos a força para continuar”, recorda.
Além disso, doações em dinheiro permitiram à família comprar uma nova geladeira, um fogão e, o mais importante: as telhas que faltavam para cobrir a casa. Antes, no entanto, foi preciso reforçar a estrutura das paredes, que ficaram comprometidas pela umidade. Graças ao trabalho voluntário de uma arquiteta que avaliou imóveis atingidos pela inundação no bairro, a obra foi executada com segurança, mas foram longos meses convivendo com goteiras e rachaduras no telhado antigo.
"Não adiantava colocar a cobertura se tudo embaixo estava fraco. Tivemos que esperar a casa secar por dentro, arrumar rachaduras, arrancar rebocos, fazer vigas e colunas de reforço para garantir que não caíssem com o peso das novas madeiras e telhas".
Aos poucos, o lar está sendo reconstruído. Passados 15 meses da noite que mudou os dias da família, muitas das paredes ainda precisam de revestimento, assim como não há forro na maioria dos cômodos. A passos lentos, mas andando, mesmo que vida permaneça exigindo superação diária da família Rodriguez.
“A gente ainda tem medo quando o céu escurece. Tem dias em que a gente lembra do que perdeu, mas a gente também lembra de quem ajudou. Isso dá força”
Deise Rodriguez
Giovanna segue enfrentando problemas de saúde decorrentes da enchente e a exposição ao frio e à umidade foi rotina no último ano. Apesar disso, a menina não perdeu a vontade de aprender. Frequenta a escola e faz todos os tratamentos regularmente. “Ela é meu orgulho”, exalta a mãe, que também não desiste de lutar.
Há vida e resistência habitando a casa novamente: a morada simples, mas limpa e acolhedora está cheia de felicidade, com flores na janela, mesa posta para reunir a família, e, claro, livros espalhados pela casa.
Assim segue a nova etapa dos Rodriguez, simbolizados nesta menina que, apesar das limitações físicas, encontra nas histórias narradas pela voz e pelo amor materno um meio de poderoso de aprendizado e desenvolvimento. “Eu digo que a minha filha lê e aprende com o coração”, afirma a resiliente Deise, que a cada sorriso lembra que a solidariedade pode, sim, transformar destinos.
Histórias
Deise é pedagoga por formação, como se orgulha em destacar, e diarista por necessidade. O motivo, exalta, é nobre: tempo para dedicar ao cuidado da filha caçula, “a Gio”. São dela e da filha aquelas recordações tomadas pela água.
A menina nasceu prematura e logo diagnosticada com Síndrome de West, que ocasiona constantes crises epilépticas. Aos 15 dias de vida, foi detectada a meningite bacteriana, que ocasionou hidrocefalia; por consequência, ela tem o lado direito do corpo imobilizado.
“Com um dia de vida, a Giovanna teve que operar, pois o intestino foi perfurado ainda dentro do meu útero. Ela saiu da cirurgia com uma bolsa de colostomia e permaneceu com ela por três meses”, recorda Deise.
As consequências para Gio são permanentes. Ela apresenta atraso global do desenvolvimento e recentemente demonstrou características que se enquadram no espectro autista. “É uma verdadeira guerreira, em 10 dias, passou por cinco cirurgias cerebrais. Aos seis meses teve que fazer uma operação de emergência, colocou uma válvula de drenagem na cabeça, por causa da hidrocefalia, é o que a mantém viva até hoje”, diz.