Eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes e para poder se preparar para eles, muitos municípios estão investindo em pesquisas mais aprofundadas sobre o tema. Nesta semana, Pedro Osório e Cerrito, no Sul do Estado, receberam o mapeamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). As duas cidades são banhadas pelo Rio Piratini, que em caso de enchentes já tirou centenas de pessoas de casa.
O projeto começou em março de 2023. “Naquele ano tivemos o primeiro aporte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs) de R$ 80 mil. Em junho do ano passado, o aporte foi de R$ 1,5 milhão. Com este valor podemos adquirir os equipamentos para realizar o levantamento nas duas cidades”, lembra a coordenadora da equipe de campo do projeto, Diuliana Leandro. Ela conta que o mapeamento foi ampliado para parte urbana das cidades e a planície de inundação do rio, dois quilômetros acima e dois abaixo da área urbana. Para a pesquisa é utilizada a tecnologia LiDAR. Com isto é possível fazer uma previsão sobre o que ocorrerá na área urbana, em torno de 18 horas antes, quando o rio sobre 10 metros, por exemplo.
O objetivo principal da iniciativa é conseguir entender como é o terreno, áreas mais baixas, mais altas e com isto ter a possibilidade de entender o comportamento da água do rio sobre esta área. “Depois, tendo a informação, podemos utilizá-la dentro de um sistema que estamos desenvolvendo para modelagem e alerta de eventos hidro meteorológicos. Para isto funcionar precisamos de informação no terreno, junto com isso carregamos no sistema dados meteorológicos, como velocidade do vento e quantidade de chuva, além dos níveis dos cursos de água e vazão (velocidade que a água escoa)”, explica.
Diuliana confirma que com isto é possível antecipar os cenários. “Antecipamos as áreas que serão inundadas na área urbana ou não. Vamos conseguir ter a percepção de até onde o rio chegará em algumas horas e para bacias menores em oito horas. É importante saber, pois permite que em uma área vulnerável as pessoas saibam se precisam ou não se deslocar”, observa.
Núcleo Integrado de Previsão
O Núcleo Integrado de Previsão (NIP) da UFPel é composto por pesquisadores de várias áreas, como hidrologia, meteorologia, modelagem matemática e mapeamento. O NIP surgiu oficialmente em 2024, mas anteriormente todos tinham pesquisas em áreas específicas. “Dentro do grupo, o professor Samuel Bescow tem estudos na região há mais de 10 anos, que estavam voltados à questão hídrica das bacias e precisavam avançar”, lembra.
Após a experiência da Sala de Situação, criada na enchente de 2024, foi possível dar andamento dentro do sistema de previsão para riscos hidrológicos. Como já era conhecido o comportamento hidrológico da bacia, foi possível fazer o processo de desenvolvimento do sistema de forma mais rápida. Para isto foi necessário o conhecimento de dados históricos, além disso Pedro Osório e Cerrito são municípios de pequeno porte, e os pesquisadores possuem como um dos objetivos melhorar a capacidade de resiliência a eventos extremos de municípios assim.
“Em muitos casos estas cidades não tem um recurso humano técnico para isto e nem aporte financeiro para evoluir neste sentido, mesmo que o Estado ajude, não se consegue avançar significativamente dentro desta temática”, relata.
Para Diuliana, quando é possível avançar com relação a este entendimento do que ocorre e como estes municípios sofrem com as inundações, quem são as populações atingidas pelos eventos consegue melhorar diversas outras atividades e perspectivas da cidade. “O produto que entregamos é do território como um todo, quando mais se conhece é mais fácil, por exemplo fazer um plano diretor. Quanto mais se tem informação destes eventos, que cada vez são mais frequentes e intensos, temos a capacidade de mostrar para o empreendedor, que investir na cidade é seguro e que a administração pública busca soluções para minimizar os efeitos dos eventos climáticos”, relata.
Outras cidades
Diuliana revela ainda que o projeto também busca atender as bacias dos rios Jaguarão e Camaquã. “Temos realizado atividades voltadas para as áreas urbanas de Cristal e Jaguarão. Temos também conversas avançadas em São Lourenço do Sul, onde, temos atendido com o conhecimento hidrológico da bacia do rio São Lourenço e tratativas com Capão do Leão da mesma temática, além do Chuí”, enumera.
A próxima etapa do projeto é fazer o mapeamento batimétrico dentro da calha do rio Piratini. “Com isto vamos entender o comportamento do fundo do rio e possibilitar integrar os dados com o levantamento LiDAR e com isto o sistema de previsão avançará mais uma etapa. A nossa meta é que possamos avançar por toda a zona Sul com este sistema” finaliza.