No século XX, o Centro foi a principal referência para quem curtia o Carnaval em Porto Alegre. E toda a cidade se mobilizava para ver os desfiles. Foram várias as ruas e avenidas pelas quais desfilaram blocos, tribos, cordões e escolas de samba. Demétrio Ribeiro, Rua da Praia, João Alfredo, Borges de Medeiros, João Pessoa, Loureiro da Silva, Augusto de Carvalho.
Mas para muita gente, os desfiles que marcaram mesmo a memória foram os da avenida Borges. Ao longo da década de 1960, as agremiações desciam a Borges e faziam tremer o edifício Sulacap, como descreve Dilermando Torres, no Correio do Povo de 18 de fevereiro de 1969.
A concentração era nas imediações da Riachuelo. Os desfiles seguiam pela avenida pela faixa da direita em direção ao Mercado Público. Não havia arquibancadas metálicas na época. Os espaços destinados ao público e aos jurados eram construídos em madeira, com estruturas de caibro 8x8 cm e tábuas de uma polegada para o assento. Além das arquibancadas, o público trazia suas cadeiras e se postava ao longo da avenida. A descrição é de Eugênio Silva Alencar, o Mestre Paraquedas, personagem que brinca o leitor com suas histórias mais adiante nesta reportagem.
Os desfiles deixaram de ser realizados na Borges de Medeiros em 1969. Em 2005, como forma de resgate daqueles tempos nostálgicos, foi criada a Descida da Borges, evento que marca a abertura do carnaval de Porto Alegre, com a entrega da chave da cidade pelo prefeito ao Rei Momo.
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O período dos desfiles da Borges coincide com um momento de transformação no carnaval de Porto Alegre. É o tempo do surgimento das escolas de samba, que trazem um novo formato de desfile, que segue até os dias atuais.
A história das festividades carnavalescas na Capital passa por diversos momentos distintos ao longo do tempo, desde os primórdios, com o Entrudo, trazido pelos açorianos e proibido na década de 1830; passando pelos desfiles de sociedades, como Esmeraldas, Venezianos e Floresta Aurora, ainda no século XIX; os blocos humorísticos, como Tira o Dedo do Pudim, Tô com a Vela e Passa Fome e Anda Gordo, a partir dos anos 1920. Nos anos 1940, surgem as tribos carnavalescas - das quais apenas Os Comanches permanecem em atividade.
Outra mudança é a centralização da festa. No início da década de 1960, o Carnaval tinha um perfil mais de bairro, com cerca de 15 coretos espalhados pela cidade e organizados por moradores e comerciantes locais. No Jardim Botânico, na Anita Garibaldi, na Vicente da Fontoura, próximo à avenida Protásio Alves, além do carnaval da rua Santana, organizado por Maria Bravo, um dos mais duradouros coretos de bairro. Em 1967, havia apenas cinco, incluindo o oficial. Tribos e blocos perdem espaço.
Um marco histórico é a estreia da Academia de Samba Praiana, em 1961. Criada no ano anterior, é considerada a primeira por muitos escola de samba da capital - o Bambas da Orgia foi fundado em 1940, mas originalmente tinha um perfil mais semelhante ao dos blocos. Em seu primeiro desfile, a Praiana trouxe para a avenida um desfile repleto de inovações, e levou o título.
A “cariocalização” do carnaval
Esse processo de mudança, iniciado na década de 1960, é definido como “cariocalização” do carnaval porto alegrense, pela historiadora e pesquisadora de carnaval Helena Cattani. A aproximação do jeito de se fazer carnaval com o formato que surgia no Rio de Janeiro é o tema de sua dissertação de mestrado, apresentada em 2014, na Ufrgs.
“O desfile que a gente conhece hoje, com alas organizadas, bateria, carros alegóricos e um único samba com tema enredo é algo que surge no Rio de Janeiro, com Fernando Pamplona, no Acadêmicos do Salgueiro. Aí que começa a mudar no Rio e um pouco depois isso reflete em Porto Alegre”, explica Helena.
Falecido em 2013, Pamplona é considerado o “pai de todos os carnavalescos” e fez sua estreia na avenida em 1960, com o tema enredo “Quilombo dos Palmares”, que deu o primeiro título do Salgueiro - divido com outras quatro agremiações.
“Existe um trânsito grande entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro, principalmente por questões militares. Muitos militares, principalmente de baixa patente, eram de famílias que participavam do carnaval, iam para o Rio de Janeiro e esse fluxo possibilitava a troca de informações.”
Ainda que o carnaval da Borges tenha durado apenas uma década – de 1960 a 1969, de acordo com o levantamento da pesquisadora –, tornou-se um dos períodos mais nostálgicos da festa. “As pessoas têm muita nostalgia do carnaval da Borges, principalmente as mais velhas. No fim das entrevistas do Muamba [Helena apresenta o programa Muamba, na Rádio da Universidade], perguntamos ‘qual teu sonho em relação ao carnaval?’ As pessoas acima de 50 anos sempre respondem: ‘voltar para o centro’.”
GALERIA: Redescobrir a cidade - Carnaval a Borges - Museu Joaquim Felizardo
1962: o carnaval da inimizade
Logo nos primeiros anos, o carnaval da Borges viveu uma situação inusitada. Desde 1955, os coretos eram patrocinados pela Refrigerante Sul-Riograndense, distribuidora da Pepsi-Cola no estado. Com mais estrutura e investimento, transporte e ajuda de custo para as agremiações, os chamados carnavais da Pepsi-Cola, eram comandados pelo diretor-presidente da empresa, Heitor Pires, conhecido como Comendador.
Em 1961, a prefeitura criou o Comtur (Conselho Municipal de Turismo) que passaria a organizar as festividades carnavalescas. Em 1962, houve um desacerto entre as partes. A prefeitura convocou o desfile oficial para a Borges de Medeiros. O Comendador bateu de frente e chamou as agremiações para outro desfile, na avenida Eduardo - atual Presidente Roosevelt.
O nome dado ao evento soa irônico: Carnaval da Amizade Pepsi-Cola. O que transcorreu foi uma série de desentendimentos entre patrocinador e prefeitura.
Na Borges, cerca de 40 mil pessoas esperavam a passagem das agremiações. Mas o desfile quase não saiu. “A maior parte da população está na Borges esperando as escolas, mas as escolas, por terem recebido essa verba do patrocinador, estão em outro coreto, na avenida Eduardo. As pessoas ficam revoltadas”, afirma Helena.
Após o desfile, a troca de farpas seguiu via imprensa. No dia 6 de março, Pires publicou anúncio de meia página no Correio do Povo, criticando o Comtur, que teria tentado “pelos meios mais escusos, boicotar o trabalho das comissões organizadoras”. Na mesma edição, o jornal lamentava que “choque de interesses liquidou o carnaval”. Os incidentes incluíram até mesmo tentativa de agressão contra funcionários do patrocinador.
“Enquanto se registravam essas escaramuças, as partes litigantes continuavam anunciando festividades de rua , para as próximas horas, em pontos distintos de P. Alegre, ou seja, no centro e na Avenida Presidente Roosevelt”, sentenciou a matéria.
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O samba também sobe do Sul pro Rio
Mestre Paraquedas foi parte desse processo de transformação. No fim dos anos 1950, mudou-se de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, onde serviu ao Exército como paraquedista durante 12 anos - daí a alcunha.
“Eu observei muito o Carnaval carioca, desfilei, trabalhei no Carnaval. E trouxe muito pra cá, em matéria de alegoria, de desfile. Lapidou o conhecimento que eu tinha”, descreve.
Nascido e criado no berço do carnaval gaúcho, Paraquedas, hoje com 87 anos, estreou na avenida aos sete. Seu pai fundou a tribo Os Bororós. Sua mãe, as Iracemas. Ele participou da criação dos Comanches, Praiana, Academia Samba Puro, Realeza entre outras agremiações. Atua em diversas frentes: compõe, desenha, faz cenários e alegorias. É clínico geral de carnaval, como ele mesmo define.
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Em uma noite de plantão no quartel, no Rio, escutou ao longe a batucada de uma bateria e abordou o tenente para saber de onde vinha o som. O quartel ficava entre um rancho chamado Unidos da Vila Valqueire e a quadra da Portela. Conheceu primeiro o rancho. Mas foi na azul e branca de Oswaldo Cruz que teve um importante contato com as escolas de samba cariocas.
“Não saí mais de lá. Quando vi aqueles bonecos mexendo a cabeça, batendo asa, eu disse ‘eu tenho que ver como isso é feito.’ E aqui ainda não tinha esse tipo de alegoria. Eu tentei isso anos depois no Samba Puro”, recorda Paraquedas.
O sambista ressalta que a relação de influência entre os dois carnavais é uma via de mão dupla.
“O Mestre Papai, João Gomes, foi um dos mestres de bateria aqui em Porto Alegre que revolucionou as escolas de samba com o ritmo que ele fazia. Era cuiqueiro dos bons. Não sabia ler, nem escrever, mas dominava uma bateria como ninguém. E ele tinha um ritmo diferente, um ritmo quebrado que ainda hoje é característico na Samba Puro. E foi o pessoal do Rio de Janeiro, que vinha a Porto Alegre, que levou esse ritmo para lá.”
Na despedida, a cidade chorou
Em 1969, pela última vez, o Carnaval oficial de Porto Alegre desceu a Borges. A partir de 1970, o desfile passou para a rua João Alfredo, próximo à Borges. Na despedida, choveu forte, como se a própria cidade chorasse, frustrando o espetáculo.
“No último dia do último ano em que a avenida Borges de Medeiros seria o palco do Carnaval oficial da cidade, choveu. E, portanto, não houve carnaval”, noticiou o CP em 20 de fevereiro de 1969.