Um dos cruzamentos mais famosos e movimentados do Centro de Porto Alegre é conhecido popularmente como a Esquina Democrática. Mas esse não é único nome do ponto de que liga a Rua dos Andradas da Praia com a Avenida Borges de Medeiros. Menos presente, mas com uma história igualmente rica e importante para cidade, é a alcunha de Esquina do Zaire.
O nome remete ao país anteriormente conhecido como Zaire, mas hoje denominado República Democrática do Congo.
Em 1974, a Seleção Brasileira então tri campeã mundial entrou em campo com a obrigação da vitória diante do Zaire para garantir vaga para a próxima fase da Copa do Mundo, disputada na Alemanha. O placar de 3 a 0 para a seleção canarinho contou com o um gol do colorado Valdomiro, e acabou classificando o Brasil.
Porém, o confronto mexeu com o sentimento de outra torcida na capital gaúcha: o de torcedores negros da época, como lembra o antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Júnior. A grande questão do momento era: como assim um cidadão politizado negro vai torcer para o Brasil e não para um país da África?
Apesar do questionamento pertinente, a resposta não era difícil em um momento em que, em solo brasileiro, a identidade negra estava sendo calcada em um modo de ser sob influência africana, norte-americana e caribenha. Era o momento dos Panteras Negras, do reggae e dos grandes astros do basquete.
A partida não só mobilizou discussões de representatividade, como cunhou a expressão “do Zaire” aplicado a locais e também ao jornal feito por negros e para negros na época, o Folhetim do Zaire. Já o Beco do Mijo, como era chamada a Travessa Acelino de Carvalho, virou Beco do Zaire. Em campo, o sentimento foi amargo, uma vitória de 3 a 0 dos brasileiros sobre os africanos. Mas isso obviamente não apagou o sentimento de orgulho da escolha.
Em meio à efervescência do movimento negro em Porto Alegre, Iosvaldyr transitava em locais para identificar os modos de expressão do ser negro em uma sociedade pública, urbana e negra. A tese de mestrado, que defendeu na UFRGS, fruto desta investigação, ele chamou de “Relógios da Noite: Territórios Negros Urbanos, Identidade Negra e a Sociabilidade Pública em Porto Alegre (1970 a 1990)”.
Iosvaldyr descobriu que aquela ocupação urbana da Esquina do Zaire era muito mais diversificada do que pensava, com subgrupos sociais, o que tornava ainda mais rica aquela troca em espaço público. Alguns destes grupos eram representantes da capoeira; reggae, soul musica, suingue (swing); funk, charme e hip hop, estudantes negros; adolescentes e jovens, negros acadêmicos, com significativa ascensão social e econômica e conhecidos como os "Negros da Masson", integrantes do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR), Movimento Negro Unificado (MNU); integrantes de organizações político-partidárias; salões de beleza black, além de outros coletivos culturais e políticos negros; negros provenientes do mundo social do trabalho na área central da capital gaúcha; negros que vinham de vilas e periferias; e cidadãos da capital gaúcha e do entorno da Grande Porto Alegre.
A movimentação na esquina ocorria a partir das 18h, principalmente às sextas-feiras, depois que os trabalhadores se liberaram do expediente. Em meio aos bares e lanchonetes que existiam no entorno, os grupos ficavam sabendo das festas, dos ensaios de carnavais, das notícias que lhe interessavam; aquilo que afirmavam não ver nos jornais tradicionais da época. E claro, a Esquina do Zaire era também espaço para os encontros românticos e flertes.
“Os negros ocupavam vários bares da Andrade Neves, na Riachuelo, então tinha esse elemento de situalidade. Você ia de um bar ao outro e os amigos te informavam sobre o que estava acontecendo”, lembra.
Redescobrir a Cidade
Esse cenário ainda se estendeu ao início dos anos 90. Uma reportagem publicada no Jornal Experiência da Famecos (PUCRS), em dezembro de 1990, assinada por Leonora Joris, leva o título de “Modismo negro agita a esquina no fim da tarde”. No curto texto, ela narra uma notável concentração de negros na Esquina Democrática, que vinha ocorrendo há alguns anos. “À primeira vista, parece um movimento organizado”, escreve, acrescentando que “não passa de um ponto de encontro da negritude porto-alegrense”. Os encontros naquele ano já ocorriam apenas na última sexta-feira de cada mês. Conforme narra Leonara, “são animados com a música colocada por Mano Délcio, conhecido como DJ da juventude negra. Além do ‘reggae’, o ‘funk’ e o ‘rap’ embalam a massa black”.
Não demorou muito para aquele espaço de sociabilidade e apresentações artísticas sofrer repressão policial. “Isso começou a incomodar o comércio - que eram lojas remanescentes da grande elite. Houve algum incidente e a Brigada Militar resolveu colocar um posto permanente, que era uma vigilância ostensiva aos negros”, conta o pesquisador. Muitos negros resolveram então abandonar aquele ponto.
Folhetim do Zaire
Criado em 10 de setembro de 1982, pelo Mourency Moura Teixeira, o Folhetim do Zaire era um pequeno jornal impresso, associado à imprensa carnavalesca. Ele era distribuído quinzenalmente na Esquina do Zaire e outros pontos do entorno. Com uma tiragem pequena e gratuita, já que não contava com financiamento, apenas com colaboração, o folhetim circulava de mãos em mãos até chegar no maior número de leitores.
Também integravam a pequena ‘redação’ os colaboradores Paulo Ricardo Moraes, Carlos Medina, Paulo Neves, Jorge Ramos, Bira Campos e Valdemar de Moura Lima.
“Eles pegaram o laço do jornal Tição e reivindicavam a história do negro pela visão da militância negra. É como se tu precisasse dar a interpretação do negro, e não mais ser pensado pela intelectualidade eurocêntrica, com muitos equívocos”, lembra Iosvaldyr Carvalho.
“Eles pegavam situações que ocorriam, como casos de racismo, e davam a interpretação deles. Também tinham os assuntos da cultura do carnaval, da visão do mundo do negro, das festas, dos locais de salão de beleza.”
Os recursos eram pessoais e, por isso, limitados. O folhetim era feito a mão, passava pelo mimeógrafo e depois em fotocópias, que conseguiam em instituições públicas. A circulação cessou quando o idealizador Mourenzy deixou Porto Alegre.