Fórum de Energias Renováveis

Rio Grande do Sul na vanguarda do Brasil em energia limpa

Participantes do 5º Fórum das Energias Renováveis apontam que para se desenvolver sem abrir mão do olhar social, RS precisa superar desafios burocráticos, atrair investimentos e promover a descarbonização como política de Estado

Abertura do 5º Fórum de Energias Renováveis
Abertura do 5º Fórum de Energias Renováveis Foto : Camila Cunha / CP Memória

Por Felipe Faleiro, Vitória Miranda e Rodrigo Thiel

Com 85% da potência instalada a partir de fontes renováveis, o Rio Grande do Sul está na vanguarda econômica do Brasil no segmento limpo. “Sem energia não há futuro”, resumiu a presidente da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs) e prefeita de Nonoai, Adriane Perin, na última terça-feira, durante o 5º Fórum das Energias Renováveis, em Porto Alegre.

O evento, promovido pelo Correio do Povo e Sindicato das Indústrias de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), reunindo mais de 20 painelistas de empresas e do governo do Estado no Teatro do CIEE-RS, trouxe visões convergentes para uma necessidade mais atual do que nunca.

Para os participantes, se o Rio Grande do Sul quer se desenvolver plenamente, atraindo tecnologia de ponta, sem abrir mão do olhar social, precisa superar desafios burocráticos, atrair investimentos consistentes e promover a descarbonização como política de Estado.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), a capacidade instalada de geração de energia elétrica no Rio Grande do Sul subiu de 5.354 megawatts (MW) em 2008 para 8.662 MW em 2022, aumento de 61,7% no período, ao passo que todas as formas de geração estão presentes no território gaúcho em algum grau.

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As fontes renováveis dominam de longe a geração elétrica no Rio Grande do Sul. Quanto às instalações, as hídricas detêm 38% no RS, seguida pela solar fotovoltaica (27%), eólica (17%), térmica fóssil (15%) e térmica biomassa (3%). Os dados são da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema).

5º Fórum de Energias Renováveis ocorreu no Teatro do CIEE-RS | Foto: Mauro Schaefer

Projetos de energia renovável há tempos têm destaque no Rio Grande do Sul, com potencial ainda nas biomassas e hidrogênio verde. Segunda unidade da federação em número de instalações fotovoltaicas, quinto em capacidade instalada de eólicas e líder na produção de biodiesel, com 6% do que é produzido no mundo, o Estado tem condições de liderar a transição energética no Brasil, salientaram os palestrantes do 5º Fórum de Energias Renováveis.

“A transição energética justa é um desafio que exige uma ação coordenada, responsabilidade social e visão de longo prazo. É um tema que transcende o setor elétrico. Este futuro é urgente e promissor, é o que nos mobiliza. Um caminho a ser construído por lideranças públicas, empresariais, técnicas e acadêmicas”, disse a presidente do Sindienergia-RS, Daniela Cardeal, durante a abertura. Inclusive, para muitos participantes, a transição de energias já não abarca mais todas as possibilidades.

Desta maneira, o fórum reforçou o conceito de adição energética, em defesa da ampliação da potência elétrica de fontes renováveis na matriz já existente. Para isso, o gás natural é apontado pelos especialistas como uma fonte de transição importante, que traz reforço de segurança ao sistema e terá prioridade frente às matérias-primas fósseis mais poluentes.

Com a iminência da chegada do maior data center da região sul do país, a Scala AI City, a ser construído em Eldorado do Sul, na região Metropolitana, com foco em projetos relacionados com inteligência artificial, a demanda de energia será ampliada, requerendo projetos de geração e transmissão ainda mais robustos do que os atualmente existentes.

As enchentes de maio de 2024 trouxeram uma atenção de todo o planeta para o Rio Grande do Sul, que, agora, busca devolver este olhar com resiliência e possibilidade de projetos financeiros para o segmento a longo prazo, disseram os palestrantes. Ainda durante o fórum, empresas também puderam apresentar ações desenvolvidas dentro do conceito de energias renováveis, a exemplo da Corsan, que tem a meta de atingir 100% de autossustentabilidade energética por meio de fontes renováveis até o final deste ano.

A empresa de saneamento de capital misto também busca reduzir em 15% seu consumo total de energia elétrica, número este considerado “ousado”, disse a diretora de Meio Ambiente e Sustentabilidade da companhia, Liliani Cafruni. A depender do otimismo e das falas dos participantes durante o evento, a união de necessidade e oportunidade pode gerar ventos de bons negócios para o Estado.

O evento, promovido pelo Correio do Povo e Sindienergia-RS, reuniu mais de 20 painelistas de empresas e do governo do Estado | Foto: Mauro Schaefer

Fontes e tecnologias promissoras no RS

HIDROGÊNIO VERDE (H2V)

O hidrogênio verde é uma das apostas do Estado. O elemento é obtido a partir da eletrólise da água, com equipamentos movidos à eletricidade proveniente de fontes renováveis, o que torna o produto “verde”. O H2V pode ser aplicado em diversos processos industriais, mas, no RS, o uso mais promissor é no setor agrário, para a fabricação de fertilizantes ou “amônia verde”. A nova tecnologia vai permitir economia na importação deste insumo e contribuirá com a descarbonização do setor.

Em 2022, um estudo de potencial de mercado da consultoria McKinsey apontou que a nova indústria de H2V pode gerar até 41 mil empregos e ter uma injeção no PIB estadual de R$ 62 bilhões até 2040. O estudo diz ainda que o RS poderia atender à demanda nacional e regional.

Em junho, o governo do Estado e a Agência de Fomento do RS (Badesul) abriram o primeiro leilão de H2V. Com inscrições de 16 de junho a 16 de julho deste ano, o edital dá prioridade para empresas gaúchas ou associadas que possuam maturidade tecnológica. A subvenção por projeto é de até R$ 30 milhões com contrapartida mínima do investidor de 30%. O aporte total no programa é de R$ 102,4 milhões.

No início de junho, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) liberou a licença prévia para um empreendimento com capacidade de produzir até 181,8 ton/mês de amônia e até 225,4 ton/mês de hidróxido de amônio. Com área total de 20 mil m² e construção prevista de 1.350 m².

EÓLICAS ONSHORE E OFFSHORE

As eólicas têm grande potencial de expansão nos próximos anos. No setor onshore (na terra), o RS tem vantagens por estar mais próximo do centro de carga do país (Sudeste), com menores custos de transmissão, e por apresentar margem segura de pelo menos 102,8 GW de adição energética, segundo o Atlas Eólico do RS.

“A grande competição hoje das eólicas do Brasil fica no potencial de Nordeste e Sul. O Nordeste tem está com a indústria local, tem hoje os principais players consolidados, os grandes investidores de energia, e criou um ambiente de negócios que a gente vem trabalhando há bastante tempo para retomar no RS”, afirmou o diretor de Eólicas do Sindienergia-RS, Guilherme Sari.

No paralelo, uma nova indústria de eólicas, dessa vez offshore (no mar), se organiza. O setor ainda tem regulações pendentes por parte dos agentes nacionais para a realização dos primeiros leilões de áreas. Mas 15 empresas, com 30 projetos ao todo, já protocolaram pedidos de licenciamento junto ao Ibama para empreendimentos no RS.

Um dos projetos offshore previstos para o Estado é o Aura Sul Wind, da empresa japonesa JB Energy, ligada a um consórcio internacional de empresas, entidades e governos, que prototipou um piloto de torre eólica offshore com base flutuante junto ao porto de Rio Grande – RS, um empreendimento inédito na América do Sul.

HIDRELÉTRICAS REVERSÍVEIS

As hidrelétricas reversíveis voltaram ao cenário do planejamento energético brasileiro após terem sido descontinuadas nas últimas décadas. A vantagem deste modelo é que ele conta com um ou mais reservatórios superiores, que funcionam como reservas de energia, podendo ser acionados nos momentos de pico, geralmente ao final do dia, quando o consumo aumenta e os parques solares não funcionam ou quando os ventos estiverem fracos.

No país, existem apenas quatro usinas deste tipo atualmente, mas o governo federal pretende incluir o modelo nos novos leilões de reserva de geração, em adição aos projetos de expansão das usinas hídricas normais. Segundo Roberto Zuch, diretor de Hídricas do Sindienergia-RS, aqui no Estado uma usina deste tipo precisaria ser construída do zero, porque não há viabilidade técnica de aproveitar estruturas já existentes.

“A gente tem no Rio Grande do Sul locais viáveis de se fazer esse tipo de usina, obviamente que vai ter que ser feito todo um licenciamento ambiental. Vai ter que ser criado um regramento, um termo de referência. Mas, tendo o ambiente regulatório, é um modelo que, teoricamente, vai resolver um problema que hoje é muito caro, que é a questão do pico de demanda”, explicou Zuch.

POTENCIAL EM BIOENERGIAS

As bioenergias compõem a fonte renovável com maior espaço de crescimento no RS. paço de crescimento no RS. Com apenas 3% de representação na matriz elétrica estadual, o setor conta com projetos licenciados importantes que somam cerca de 50 MW em unidades de biogás e biometano, incluindo plantas industriais que transformam resíduos agroindustriais em energia renovável e fertilizantes orgânicos.

O Estado já é líder em produção de biodiesel e tem potencial para crescer a produção de álcool/etanol, com seis plantas instaladas no RS e cinco projetos em estruturação, segundo a agência Invest RS.

A Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos S/A (CRVR), por exemplo, gera 12.5 MW a partir dos resíduos dos aterros sanitários do Estado e vai inaugurar em julho uma planta de biometano, considerado um combustível do futuro, com capacidade de 66.000 m³ por dia. A projeção de investimentos futuros em bioenergéticos no Rio Grande do Sul é de R$ 3 bi, aponta o Invest RS.

SOLAR EM ASCENSÃO

A energia solar é a fonte que mais cresceu nos últimos cinco anos no Rio Grande do Sul. O crescimento reflete a flexibilidade da fonte, mais modular e barata em relação às demais. Em 2024, cresceu 55% em relação a 2023, alcançando um total de 47.843 GW, ultrapassando a energia eólica e assumindo o segundo lugar em potência instalada no Estado. O modal também incentiva o uso de tecnologias como baterias e carros elétricos.

Mas, segundo Frederico Boschin, diretor de Solar do Sindienergia-RS, é o momento de pensar uma maior integração entre as fontes, “porque o excesso da geração solar tem indicado alguns problemas no setor, não só no Brasil mas no mundo”. “Ela precisa ser compatibilizada com o setor elétrico que já está em andamento. Esse talvez seja o grande desafio da energia solar hoje no Brasil”, apontou.

DESAFIOS PARA A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Apesar do potencial geográfico e da estrutura do RS para seguir caminhando em direção à transição energética, alguns desafios são impostos ao setor. Um deles é a rede de transmissão de energia. Comparada com outros estados do Brasil, a situação no RS é favorável, mas se faz necessário investimento em ampliação e qualificação para permitir a expansão da geração de energia através de fontes renováveis.

De acordo com o diretor de Atração de Investimentos e Promoção Comercial da Invest RS, Fabrício Forest, o RS conta com 101 linhas de transmissão de rede, sendo 85 de 230 quilovolts (kV) e 16 de 525 kV, totalizando 11 mil quilômetros. Além disso, novos leilões previstos para 2025 projetam aumento da capacidade em aproximadamente 3 mil quilômetros.

Para o vice-diretor de Transmissão do Sindienergia-RS, Marcos Daruy, o Rio Grande do Sul está em uma situação confortável no setor se comparado com outras unidades da federação. “E isso nos dá uma oportunidade estratégica em busca de protagonismo no setor. Enquanto no Nordeste acontecem esses cortes (curtailment), nós funcionamos como um reforço no sistema”, apontou.

Daruy salienta ainda que o desafio da transição energética passa pelo investimento e por vencer limitações tecnológicas na transmissão. Para ele, um sistema adequado evita desperdício de energia renovável. Um exemplo disso acontece na China, segundo Daruy, onde mais de 30 mil quilômetros de linhas de ultra alta voltagem foram construídas, com um índice de aproveitamento da energia renovável de até 97%.

“Eles conseguem otimizar o uso dessa energia a partir da implementação de um sistema robusto. Ou seja, essa realidade não é exclusiva nossa e mostra que os investimentos em transmissão são parte do caminho que a gente deve trilhar. A transmissão é um dos principais gargalos da expansão. E o investimento deve seguir não pensando apenas na segurança em termos de resiliência climática, mas também na expansão do potencial das fontes renováveis que temos no RS”, acrescentou.

Além disso, também serão necessários investimentos em logística e infraestrutura. Um dos alentos para o setor em termos de transmissão é a previsão de um leilão de dois lotes nas regiões Norte e Vale do Sinos, lotes 2 e 3 respectivamente. De acordo com o diretor de Energia da Sema, Rodrigo Huguenin, o leilão prevê o investimento de cerca de R$ 1,03 bilhão para capacitar a rede.

“Isso mostra maior investimento dentro do Estado e maior capilaridade da rede. Vai impactar em desenvolvimento social, econômico e energético. Não vai resolver completamente a demanda da ampliação da geração, mas estamos olhando no horizonte para que possamos adaptar a nossa rede de transmissão para o futuro, prevendo novos projetos”, citou.

Outro desafio que precisará ser superado é o da dificuldade na obtenção de crédito com condições favoráveis para atrair e fomentar investimentos. Para o diretor-presidente do Badesul, Claudio Gastal, os instrumentos de fomento de crédito para a transformação energética são pequenos perante a demanda.

“Hoje, isso ainda é um elo fraco quando falamos em financiamento de projetos”, salientou.

Por isso, Gastal entende que tão importante quanto ter o recurso para financiamentos é, no momento, ter exemplos de sucesso para inspirar e “ajudar a máquina a rodar”. Ele ainda destacou a importância do governo federal em participar destas discussões sobre investimentos em energias renováveis. “O nó é este: tem demanda, tem projetos bons, mas não se consegue recurso viável para fazer frente à necessidade”, completou.

Nesta mesma linha, o superintendente da Agência RS do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Paulo Raffin, ressaltou as dificuldades em encontrar fundos investidores com condições favoráveis para financiamentos na área. Segundo ele, atualmente uma das melhores linhas é proveniente de investidores europeus, com juros menores, mas que esbarra na variação cambial.

“Esse é um debate extremamente importante, pois se trata de pensar o futuro. Acabamos de assinar um acordo com agência de investimento internacional para este tema. O grande gargalo é angariar esses recursos”, afirmou o superintendente.

“Não se discute o desenvolvimento econômico de um estado sem tratar da transição energética. Tão importante quanto trazer novos empreendimentos e fomentar as nossas empresas é captar recursos para financiar projetos”, finalizou Fernando Estima, diretor de Hidrogênio Verde do Sindienergia-RS.

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