*Colaborou Larissa Mamouna
Realizada na quarta-feira, 11, na sede da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em Brasília (DF), a reunião para tratar de dificuldades enfrentadas por orizicultores gaúchos poderá marcar uma nova etapa no relacionamento entre a estatal e entidades de representação do setor, como a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz). Considerando manifestações do presidente da Conab, Edegar Pretto, e da Federarroz, Alexandre Velho, houve acordo para superar desavenças que caracterizam a relação entre as instituições desde, pelo menos, a enchente de 2024.
“Também conversamos sobre isso na reunião. Chegamos a um entendimento, com o setor, de que não podemos trabalhar de outra forma que não seja contemplando a questão econômica”, afirmou Pretto, no encerramento do encontro. E acrescentou: “Não vamos olhar para o passado, não. O governo tem responsabilidade. Queremos o equilíbrio”, disse o presidente da Conab. Para Velho, o canal de diálogo foi aberto. “Isso é importante. Temos que trazer um entendimento para todos os elos da cadeia”, expressou o líder da Federarroz.
Pretto salientou ainda o resultado da pauta principal da agenda. Os arrozeiros buscam o apoio do Executivo federal diante da constante queda de preços da saca do cereal. De acordo com os produtores, os valores praticados pelo mercado são insuficientes para cobrir custos da lavoura. “A reunião foi muito bem, foi muito boa. Tivemos a oportunidade de dizer ao setor que o governo é parceiro”, avaliou, animado, o presidente da estatal.
Para auxiliar os orizicultores, a Conab pretende adquirir o excedente da safra gaúcha, garantindo renda aos produtores e readequando oferta e demanda. “Reconhecemos que tem uma oferta maior no mercado, que tem uma dificuldade para exportar porque tem uma oferta também aquecida no mercado internacional. Conseguimos baixar o preço nos supermercados e, agora, queremos também garantir a renda do produtor”, assegurou Pretto.
Ainda que permaneça indefinido o mecanismo e o valor para a aquisição do grão, os dirigentes das entidades comemoraram a decisão. “O governo ficou de estudar internamente. Entendeu e manifestou que não tem interesse que os produtores se endividem e que diminuam a área (de plantio)”, disse Velho.
Seu sucessor no comando da Federarroz a partir de julho, Denis Nunes, declarou satisfação: “Achamos que era de bom tom conversar com o governo para encontrar uma saída. Fomos bem recebidos”.
A cordialidade e compreensão do momento contrasta com outros episódios ocorridos desde a enchente de 2024. O clima de animosidade marcou o diálogo ou a falta de diálogo entre as partes desde cerca de uma semana depois da tragédia climática, quando o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, em reunião com a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), revelou a intenção da União de importar até um milhão de toneladas de arroz. Fávaro alegou que o Estado, responsável por 70% do arroz produzido no Brasil, não teria condições de abastecer o país. Com a aquisição do cereal no exterior, operação que seria realizada pela Conab, o ministério garantiria o fornecimento aos supermercados e combateria eventual especulação de preços.
O plano provocou forte reação e críticas dos agricultores gaúchos, que discordavam da avaliação de que haveria desabastecimento – como, de fato, não houve. Além disso, os leilões para compra do grão geraram suspeitas de corrupção, determinaram a demissão do então secretário de Política Agrícola do Mapa, Neri Geller, e terminaram cancelados pelo Palácio do Planalto, que desistiu da importação em julho.
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Superada a crise da importação, a Conab anunciou a compra de até 500 mil toneladas de arroz, por meio de contratos de opção, para formação de estoque público. A Federarroz, no entanto, contestou o preço oferecido, que estava, nos cálculos da entidade, abaixo do custo de produção. Com participação reduzida de agricultores do RS, a estatal obteve apenas 18,34% do volume pretendido. Em meados de dezembro, antes do encerramento dos leilões, a Federarroz publicou uma nota reprovando o tratamento do governo dispensado à orizicultura.
“O setor do arroz não conseguiu fazer uma leitura da situação. Deixou escapar uma oportunidade. Mobilizamos R$ 1 bilhão para os contratos de opção. No Rio Grande do Sul, o valor que contratamos para agosto foi R$ 87,62. Agora, o preço (do mercado) caiu abaixo de R$ 70”, avaliou Pretto.
Em janeiro, uma nota de Federarroz e Farsul voltou a criticar duramente a atuação da Conab, contestando projeções para a área da lavoura de arroz no RS. A Conab indicava 988 mil hectares. Para a Federarroz, a área seria 60 mil hectares menor, 928 mil hectares. De acordo com a Emater/RS-Ascar, o plantio cobriu 970.914 hectares. A nota afirmava que a Conab distribuía “informações que se alinham aos interesses ideológicos, mas que divergem da realidade observada”.