Em um movimento estratégico no cenário de preços baixos e pouca liquidez da orizicultura gaúcha, a Cooperativa Palmares, de Palmares do Sul, abriu mão de beneficiar o grão e apostou na exportação do produto em casca. A operação garantiu faturamento para produtores do Litoral Norte do Rio Grande do Sul. O embarque foi realizado com a colaboração de uma corretora especializada em arroz. No total, 70 mil sacos foram enviados para países da América Central.
“Era o pior momento do mercado”, afirmou o presidente José Mathias Bins Martins, referindo-se ao período em que ocorreu o negócio.
No dia 18 de junho, a saca de 50 quilos foi cotada a R$ 65,21, 35,41% a menos do que os R$ 100,62 praticados no final de janeiro, conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
“Neste ano, quando vimos que a safra seria maior, uma das estratégias da cooperativa foi a de vender o máximo possível de fardos para melhorar a liquidez do produtor. Pior que preço ruim é preço ruim sem liquidez”, disse o presidente da cooperativa.
Martins soma experiência de 40 anos no setor. A queda nos preços não afeta somente os gaúchos, mas produtores de todo o Brasil. Sendo a principal unidade federativa para a oferta do grão, respondendo por 70% do arroz brasileiro, o Rio Grande do Sul concentra também o maior número de orizicultores afetados pela variação da cotação. Boa parte deles foi bater à porta da Palmares em busca de ajuda no momento de dificuldade.
Conforme Martins, o movimento exportador não foi inédito na trajetória de 60 anos da Cooperativa Palmares, mas, ainda assim, incomum. A atuação da Palmares consiste em receber o cereal de associados, secar, armazenar e beneficiar.
“Hoje trabalhamos com em torno de 1,5 milhão de fardos de arroz por ano”, explicou, destacando que uma das marcas comercializadas do produto foi reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) com certificação de Denominação de Origem desde agosto de 2010. A distinção está respaldada pelas condições climáticas da região, de 25ºC em média, e que, conforme Martins, são ideais para a formação do grão inteiro, o aspecto vítreo, e o grau de translucidez, além do sabor.
O presidente da cooperativa salientou o cenário do mercado de arroz em 2025 para explicar a motivação dos embarques. “Primeiro foi a nossa necessidade, pois estávamos com estoque de passagem maior (de arroz armazenado). E, como uma cooperativa de produtores associados, temos a necessidade de ‘enxugar’ um pouco o mercado”, explicou.
“Sorte ou não, a partir desse movimento das exportações, o mercado parou de cair e até teve uma leve reação, que pode estar atrelada a outros fatores”, complementou Martins.
Conforme Martins, a Cooperativa Palmares costuma comprar e vender, mensalmente, entre 110 mil e 120 mil sacos do cereal. Com o negócio da exportação, foi possível adquirir mais 70 mil sacos dos seus 170 associados, melhorando a liquidez dos agricultores. O dirigente ressalta que, em geral, o pequeno produtor tem dificuldade para exportar justamente por oferecer pequenas quantidades – entre 500 sacos e dois mil sacos, por exemplo. “Então a cooperativa facilitou a operação para esse produtor menor. Atualmente, o importador está muito na mão do médio e do grande produtor”, explicou.
Conquistar mercados
No dia 15 de julho, durante, coletiva de imprensa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em Porto Alegre, para apresentação de medidas para enfrentar a crise da depressão de preços na orizicultura gaúcha, o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes, destacou a importância das exportações justamente para reduzir os estoques excessivos no Brasil. Naquela ocasião, com a Conab prometendo investir R$ 150 milhões para adquirir 110 mil toneladas do grão, Denis afirmou que a Federarroz tem atuado para conquistar mercados.
O dirigente destacou a qualidade do arroz oriundo das lavouras do Estado, mas apontou dificuldades para expandir os negócios no exterior e para enfrentar concorrência. “Temos certos entraves em toda a nossa produção para concorrer com os nossos parceiros do Mercosul. Temos necessidade que o Ministério da Agricultura seja mais eficiente na fiscalização das embalagens, na tipificação do arroz. Isso é importante para a cadeia produtiva”, disse Nunes.
Sublinhando que a lavoura arrozeira é caracterizada pela participação de muitos produtores que são arrendatários de terras, Nunes realçou que os orizicultores têm de estar atentos para oportunidades de venda, como a oferta do grão em casca.
“Este é o momento no qual as exportações de arroz em casca estão muito fortes, estão tentando comprar e nós precisamos dar fluxo, atender os nossos clientes do exterior. Isso é muito importante, porque não basta só ganhar mercado. Temos que consolidar e manter os nossos clientes atendidos”, acrescentou Denis Nunes.
O presidente da Federarroz destacou que outras cooperativas realizam exportação de arroz em casca, em Uruguaiana e Alegrete, por exemplo, mas que foi peculiar a iniciativa da Palmares pelo fato de o empreendimento atuar no beneficiamento do grão. “A cooperativa está abrindo mão de matéria-prima, vendendo para o exterior, para remunerar melhor os seus associados”, afirmou.
Nunes acrescenta que algumas cooperativas conseguem fazer contratos a termo, de entrega futura, acertando o preço antes da colheita. “O que é algo até inédito nas negociações do arroz em casca”, sublinhou. Sobre os embarques do cereal em casca, o presidente da Federarroz citou dados do Brasil do Sumário Executivo do Arroz do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), recordando que, entre janeiro e junho do ano passado, foram enviadas para o exterior 556,4 mil toneladas. Nos primeiros seis meses deste ano houve um avanço para 613,3 mil toneladas.