A Coreia do Sul, país pouco expressivo como destino dos produtos do agronegócio brasileiro, poderá se tornar um mercado de maior relevância após acordos fechados ou encaminhados pela missão oficial brasileira que esteve no país nos últimos dias. O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, anunciou entre uma série de acordos bilaterais de cooperação, a etapa final para a exportação de ovos, assim como a previsão de auditorias para uva e carne bovina.
Além disso, está prevista a ampliação do número de estados a serem avaliados para enviar carne suína. Neste contexto, a agropecuária gaúcha poderá ser beneficiada com esse mercado, que em janeiro levou do Brasil apenas farelo de soja (43 milhões de dólares) e celulose (29 milhões de dólares).
Carne suína
No mês passado, o Rio Grande do Sul aumentou seus embarques de carne suína em 34,4% ante o mesmo período de 2025, o que o manteve em segundo lugar entre os estados exportadores, atrás de Santa Catarina. “A Coreia do Sul é um mercado potencial para suinocultura gaúcha e brasileira. Ela é um país importador, tem uma condição favorável nesse sentido. A questão é que a Coreia do Sul tem tarifas elevadas para poder se exportar para lá, principalmente a carne suína”, avalia Valdecir Folador, presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs).
O dirigente considera importante as ações governamentais para conquistar novos mercados e assim diversificar os destinos. “Quanto maior o número de clientes que tivermos em nível mundial, maior também se torna a segurança do setor para as exportações”, justifica. No ano passado, o Brasil bateu recordes em volume e em receita nos embarques da carne suína, 1,510 milhão de toneladas (11,6% a mais) e 3,619 bilhões de dólares (+19,3%), com destaque a um novo mercado na liderança entre os destinos, as Filipinas, com 54,5% ante o ano anterior, ou 392,9 mil toneladas.
Carne bovina
Quanto à carne bovina, o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor Júlio Barcellos, informa que o país asiático importa, por ano, 500 mil toneladas de carne bovina, de apenas quatro fornecedores: Estados Unidos (fatia de 50%), Austrália (30%), Nova Zelândia e Canadá, ambos com 20% cada. Segundo ele, o país oferece uma boa remuneração ao produto e tem exigências e interesses semelhantes ao vizinho Japão. “Como o Brasil, especialmente o Sul, já vem se habilitando para exportar para o Japão, é possível que nessa mesma direção, o Brasil esteja habilitado para a Coreia do Sul”, avalia.
No entanto, será necessário gerar um produto adequado aos critérios locais, como a conformidade da carcaça, além de aspectos sanitários, algo que não seria difícil de ser gerado pelas plantas frigoríficas brasileiras e gaúchas. “Assim como o Japão, a Coreia do Sul tem um perfil de consumo de carne bovina cujas carcaças precisam ser mais pesadas que as atuais produzidas no Brasil e, especialmente, no Rio Grande Sul, e com um grau de acabamento, deposição de gordura, bastante mais elevado”, esclarece. “Nada que não possa ser atendido, mas que, no curto prazo, ainda precisaria passar por um ajuste do sistema de produção brasileiro, especificamente no RS”, acrescenta.
Conforme o professor, esse perfil de carcaça somente será alcançado em sua conformidade a partir de uma passagem dos animais por uma terminação em confinamento, um manejo de gado não usual na pecuária gaúcha. “Temos (no RS) uma dificuldade histórica da participação do milho (na alimentação do gado confinado), porque é todo absorvido pela avicultura e suinocultura. Mas nada que não possa ser contornado e, no futuro, com algumas plantas de etanol (instaladas no Estado), teremos resíduos de destilaria de alta qualidade, seja a partir do trigo e até mesmo do arroz, no futuro do milho, talvez. Então é uma notícia positiva, especialmente para o Sul do Brasil”, entende.
Ovos
O governo sul-coreano confirmou o recebimento da documentação necessária para a abertura do mercado de ovos brasileiros, e a emissão do certificado deve ocorrer nos próximos dias. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), destaca que “os esforços se concentraram no aprimoramento de mecanismos que ampliem a previsibilidade regulatória e reconheçam os avanços sanitários conquistados pelo Brasil ao longo de décadas”. Os embarques de ovos têm grande relevância para o Rio Grande do Sul. Em 2024 foi o principal estado, ainda que no ano passado, visto o foco de influenza aviária de Montenegro, que levou à suspensão de alguns mercados, caiu para a quarta colocação em volume e para a segunda em receita - 5.587 toneladas (-11%) e 21,852 milhões de dólares (+28,4%).
Frutas
O Rio Grande do Sul não tem tradição em exportar uva, apesar de produzir 90% da fruta brasileira – que é transformada em vinho, espumante e suco, além de, como in natura, ser consumida no mercado doméstico. O Vale do Francisco, na Região Nordeste, é a região maior exportadora, com destaque a Pernambuco, que no ano passado embarcou 42 mil toneladas e 110 milhões de dólares do total de 168 milhões exportados pelo Brasil, resultado de 62 mil toneladas. O Rio Grande do Sul se constituiu em apenas o oitavo maior em vendas externas, com 66 mil dólares e 28 toneladas. A Holanda foi o principal destino da uva brasileira, com 66 milhões de dólares em compras, seguida do Reino Unido, com 39 milhões. As informações são da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas).
