Rural

Crédito e seguro mais distantes dos agricultores

Diagnóstico da Fetag/RS lista estes e outros gargalos para a agricultura e a pecuária familiares gaúchas ao longo do ano

Diagnóstico da agricultura familiar em 2025 e projeção para o próximo ano foram apresentados pela diretoria da Fetag/RS
Diagnóstico da agricultura familiar em 2025 e projeção para o próximo ano foram apresentados pela diretoria da Fetag/RS Foto : Camila dos Santos / Fetag/RS / Divulgação / CP

A agricultura gaúcha, cada vez mais atingida por problemas climáticos, tem a cada safra redução na área de lavouras protegidas pelo fundamental mecanismo de proteção do seguro rural. Neste ano-safra 2025/2026, apenas 10% das lavouras estão cobertas pelo Programa de Seguro Rural ou pelo Proagro.

Esta constatação e outras avaliações sobre a agricultura e pecuária do Rio Grande do Sul foram apresentadas nesta terça-feira, 2, pela diretoria da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag/RS) no tradicional encontro com a imprensa para avaliar o ano que se encerra e projetar o período seguinte.

Os principais problemas e desafios da agropecuária gaúcha ocorrem, sobretudo, em razão dos problemas climáticos, como as estiagens recorrentes e a enchente de maio de 2024, assim como por muitas cotações inferiores aos custos de produção. E o provável fenômeno La Niña acena com a possibilidade de chuvas aquém do necessário nas próximas semanas nas lavouras do Estado.

“Não foi um ano fácil. Foi um ano de dificuldades para o Rio Grande do Sul. Mais um”, resumiu o presidente da entidade, Carlos Joel da Silva. “Com problemas de enchentes, de seca que estamos acostumados ao longo de cinco anos, mas que neste ano trouxe muitas dificuldades”, acrescentou. “Mas que vencemos todos juntos até agora e entendemos que precisamos ser fortes para que possamos vencer estes desafios e o Estado voltar a crescer, principalmente o nosso setor”.

Seguro em menos área

Segundo informações apresentadas pela entidade, a área coberta pelo Proagro caiu de 17% a 19% em 2023 para 8,8% neste ano, ou para 1,1 milhão de hectares (metade da área de 2020), visto uma série de restrições aos agricultores no acesso ao crédito.

Já o seguro rural saiu de 20% do total das plantações na safra 2020/21 para apenas 1,88% em 2025, ou 237 mil hectares – eram 2,530 milhões de hectares em 2020. “Noventa por cento da área não tem cobertura. É um dado que nos preocupa muito”, avaliou Kaliton Prestes, secretário-executivo da entidade.

Crédito restrito

Outro dos problemas abordados e foi a diminuição de acesso ao crédito pelos agricultores e pecuaristas familiares via Pronaf. Entre julho a novembro de 2024 e o mesmo período deste ano houve redução de 112.324 contratos para 79.682 para agricultores, ou queda de 29,1%, e para pecuaristas familiares, de 27.757 para 23.277, ou -16,2%.

No ano passado o crédito financiou um total de 1,008 milhão de hectares, contra 712 mil em 2025, ou quase 300 mil hectares a menos (-29,42%). O endividamento que atingiu uma parte considerável dos agricultores após a estiagens explica a dificuldade de acesso a linhas para custeio. “As famílias estão procurando menos crédito”, resumiu Prestes.

As cotações dos produtos agrícolas abaixo dos custos de produção ou dos preços mínimos também foram mencionadas como outro dos principais problemas. A exemplo, a saca de trigo está cotada num valor 27% inferior ao preço mínimo estabelecido pela Conab.

No caso do arroz os preços acumulam quedas de 40% em um ano, com as cotações da saca entre R$ 54,85 e R$ 58,40, enquanto os custos de produção estão estimados pelo Cepea entre R$ 87,88 e R$ 93,19.

E no leite o setor vivencia uma situação drástica, com preços ao produtor em quedas mensais sucessivas, inclusive com a danosa importação de leite em pó dos países do Mercosul e com as indústrias importadoras recebendo incentivos fiscais.

A Fetag/RS ainda listou outros gargalos que atravancam o desenvolvimento dos agricultores familiares. Como a regularização fundiária pendente que atinge, segundo estimativa da entidade, 84 mil propriedades com alguma pendência de documentos.

E, assim, 65% dos proprietários nesta situação, ou quase 55 mil, ficam sem acesso a crédito, enquanto apenas 14% conseguem trabalhar de forma normal. Entre as principais razões para as pendências estão o alto custo para regularização, pois são exigidos até levantamentos topográficos e georreferenciamento da área, e a burocracia cartorial, além de conflitos familiares.

Venda direta

Em meio às crises de algumas atividades agrícolas e pecuárias, muitos agricultores familiares têm na comercialização de produtos industrializados artesanalmente uma fonte de renda. Segundo estimativa da Fetag, um total 15 mil famílias agricultoras e pecuaristas promovem a venda direta dos chamados “produtos coloniais”, o que movimenta entre R$ 300 milhões e R$ 450 milhões por ano.

No entanto, diferentes legislações e exigências sanitárias desproporcionais aos produtores, além de burocracia excessiva e altos custos de formalização, dificultam em muito a ampliação desta alternativa de agregação de renda.

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