Rural

De Lyon a Alpestre, o intercâmbio no campo

Delegação formada por 21 alunos e dois professores franceses visitou o município do Norte do Rio Grande do Sul

Escola de Ensino Médio da Casa Familiar Rural Regional de Alpestre, dedicada a Pedagogia da Alternância, recebeu, em março de 2025, grupo de estudantes franceses provenientes de Saint Romain de Popey
Escola de Ensino Médio da Casa Familiar Rural Regional de Alpestre, dedicada a Pedagogia da Alternância, recebeu, em março de 2025, grupo de estudantes franceses provenientes de Saint Romain de Popey Foto : Escola de Ensino Médio da Casa Familiar Rural Regional de Alpestre / Divulgação / CP

Por uma semana, um grupo de 21 alunos e dois professores franceses realizaram uma visita técnica à Escola de Ensino Médio da Casa Familiar Rural Regional de Alpestre. Provenientes da região de Lyon, a delegação conheceu o extremo Norte do Rio Grande do Sul, trocou experiências e apresentou aos estudantes gaúchos, na prática, os conceitos do curso em agroequipamentos, nível médio, que realizam no país europeu. A formação contempla desde procedimentos básicos de soldagem à manutenção de tratores modernos.

Professor na MFR Saint Romain de Popey e responsável pelo grupo estrangeiro, Olivier Talon explica que foram visitadas diferentes propriedades na região de Alpestre.

“O pessoal aqui é muito apaixonado pelo que faz”, observou Olivier Talon, que visita o Brasil pela terceira vez.

A entrevista com o professor foi traduzida por José Carlos de Jesus, português que acompanha o grupo no Brasil e acumula experiência de 30 anos de trabalho em uma Casa Familiar Rural na França.

Talon conta que já esteve no Paraná, com alunos, por duas vezes e que, na região de Lyon, onde está inserida a escola que leciona, a vocação produtiva agropecuária é diversificada. Os destaques são pecuária leiteira e queijaria, viticultura, produção de carne bovina e suína, avicultura, horticultura e fruticultura. “Mas aqui tudo é possível”, afirmou, referindo-se à atividade primária no Brasil.

Talon salienta que há grande preocupação com o futuro da atividade leiteira em seu país. Muitas operações do setor estão em processo de fechamento em razão da diferença entre o preço de venda e os custos de produção. A ajuda oferecida pelo governo é considerada insuficiente.

“Há uma crise também em termos de venda de vinho e, de fato, também existem problemas com a comercialização de carne. Os preços não correspondem ao que podemos esperar para viver”, afirmou o docente ao ser questionado sobre a oposição de agricultores contra o tratado comercial entre Mercosul e União Europeia (UE).

Para Talon, a preocupação com a regulamentação é grande e cresce com a ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de taxar em 200% os vinhos europeus, em represária ao um imposto de 50% aplicado pela UE sobre o uísque americano.

Sucessão rural

Os pais de Bastian Gael Jeremy Monfray, aluno do intercâmbio em Alpestre, possuem uma propriedade na região de Beaujolais. A fazenda dedica-se à produção de vinhos e seu desejo é inserir inovação no empreendimento. Alexis Gorand é filho de agricultores em Lyon.

Os pais dedicam-se à atividade leiteira e ao cultivo de milho.

“Sempre foi uma paixão conduzir equipamentos agrícolas, como os tratores, por isso escolhi a formação em agroequipamentos”, revelou o estudante.

De acordo com José Carlos, “a sucessão rural é muito incentivada (na França)”. O português acrescenta que as escolas que aplicam a Pedagogia da Alternância na França diferem de suas congêneres brasileiras, onde os estudantes revezam períodos, de uma semana, nas instituições de ensino com o mesmo intervalo de tempo em propriedades familiares.

“Na França o jovem realiza a parte prática em uma empresa. Possuem contrato de trabalho como aprendizes e recebem ordenado no final do mês”, detalha José Carlos.

Pedagogia da Alternância

A Pedagogia da Alternância é um modelo criado em 1935 para preencher uma lacuna da educação agrícola, voltada para filhos dos agricultores, relacionando a vida agrária com os estudos. Tanto a MFR Saint Romain de Popey quanto a escola de Alpestre aplicam a metodologia.

Conforme o diretor da Casa Familiar Rural Regional, Wagner Rogério Bohn, a cooperação entre Alpestre e as instituições educacionais francesas praticantes da Pedagogia da Alternância é realizada desde 2014. O primeiro grupo do país europeu desembarcou no município gaúcho no ano seguinte. De lá para cá, a parceria vem se fortalecendo.

“Quando um jovem aqui diz que é agricultor sabe-se que ele pertence a uma família proprietária. Na França, significa que o jovem trabalha em uma propriedade. É uma profissão, de fato. Um emprego”, compara.

De acordo com o diretor, a Pedagogia da Alternância na França oferece atualmente mais de 150 formações, não se limitando ao universo do agro.

“Em fevereiro do ano passado recebemos um grupo de jovens com formação voltada para trabalhar com madeira. Eles vieram e consertaram telhados da escola danificados por temporais”, recorda o diretor.

De acordo com Bohn, em abril do ano passado Alpestre foi sede de encontro latino-americano da Pedagogia da Alternância, com participação da França.

“Recebemos representantes de Colômbia, Haiti e de estados do Brasil. Reunimos mais de 60 pessoas para debater formações e casas familiares rurais”, diz Bohn.

O diretor adianta que em junho próximo será a vez de uma delegação da escola gaúcha viajar para a França.

“Alpestre hoje é uma referência em educação no campo. Inclusive com jovens do Oeste catarinense vindo estudar aqui”, afirma o diretor.

No município, destacam-se a bovinocultura de leite e de corte e a fruticultura (uva e citros). Com 29 anos de existência, a Escola de Ensino Médio da Casa Familiar Rural Regional de Alpestre reúne 153 alunos.

Segundo a Associação Gaúcha Pró-Escolas Famílias Agrícolas, existem 152 Escolas Famílias Agrícolas em 16 estados do Brasil e mais de 200 centros familiares de formação por alternância. As instituições são mantidas comunitariamente.

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