Falta de comida para o gado desafia pecuaristas no RS

Falta de comida para o gado desafia pecuaristas no RS

Solos encharcados e falta de insumos após tragédia climática inviabilizam implementação de forragens, elevam custos e reduzem negócios em pista

Thaise Teixeira

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Os pecuaristas já começaram o ano de 2024 sabendo que o plantio das pastagens de inverno atrasaria devido às chuvas da última primavera. Com a colheita das lavouras de verão estendida, estavam, de certa forma, até preparados para alimentar o gado na entressafra. O que não contavam era com a chuva descomunal que arrasou o Rio Grande do Sul ao final de abril, em maio e entrou junho adentro.

“A Fronteira Oeste e a Campanha são o motor da pecuária gaúcha, mas o motor que empurra essa máquina está nas áreas mais atingidas pela tragédia”, comenta o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro), da UFRGS, Júlio Barcellos.

Criações importantes da região Central e da Zona Sul do Estado também precisaram mudar a estratégia, dada a gravidade das perdas e dos problemas estruturais, logísticos e produtivos. Com as grandes indústrias de insumos sediadas na Região Metropolitana de Porto Alegre, na Serra e no Vale do Taquari, as decisões tiveram de ser rápidas.

As dificuldades mais profundas e maiores nas primeiras semanas após a tragédia passaram por escassez de comida para o gado, falta de insumos veterinários, interrupção do serviço oficial de sanidade animal do governo estadual, bloqueios de estradas, dentre outras.

Agora, a maior dor de cabeça está na impossibilidade de implantar novas pastagens nos solos que, após tanta chuva, estão encharcados. Frente a uma entressafra mais longa do que a esperada – que já era atípica-, muitos se perguntam se ainda vale a pena semear as gramíneas de inverno, já que chegam ao ponto de consumo em 45 dias. Outros, optam por descartar parte dos plantéis antes do previsto, dadas as dificuldades de obter medicamentos veterinários, vacinas, rações e silagem.

“Temos praticamente 90 dias até 20 de setembro, quando o gado sai para entrar a soja. Quando eu divido o custo desta dieta pelo cardápio oferecido (ao gado), ele fica muito caro”, explica Barcellos.

Gado geral com preços abaixo da expectativa

Após a calamidade, o mercado pecuário gaúcho se ressentiu, mas não parou. Apenas o trânsito de animais foi realizado de forma emergencial devido à impossibilidade de a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação e Produção Sustentável (Seapi) emitir as Guias de Trânsito Animal (GTA’s). Mas a solução provisória veio em parceria com o Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do Estado do RS (Fundesa) e com o Sindicato dos Leiloeiros Rurais e Empresas de Leilão Rural do RS (Sindiler/RS).

“No final de maio, retomamos tudo. Aconteceram remates de gado geral, de genética, de tudo”, celebra o presidente do Sindiler/RS, Fábio Crespo.

Os preços praticados nas feiras de outono foram bastante variáveis, afirma o leiloeiro. Contudo, consolidaram-se em patamares melhores que em 2023, diz ele, exceto o gado geral.

“O terneiro é comercializado entre R$ 9 e R$ 11 o quilo vivo enquanto, no ano passado, saía entre R$ 8,50 e R$ 9. Os reprodutores estão sendo vendidos entre R$ 10 e R$ 15 kg/vv, com preços condizentes com aumento do boi gordo. Mas não está fácil. No gado geral, as praças estão mais baratas que em 2023”, admite Crespo.

A movimentação baixista para o gado comercial contraria a expectativa sobre a qual o setor trabalhava antes das enchentes. Com o reinício do ciclo pecuário, a projeção era de uma leve retomada da cria, mesmo com a entressafra tardia e prolongada.

“Os preços não alcançaram os patamares previstos, esperávamos que fossem melhores que o ano passado, o que não se concretizou”, garante Barcellos.

A frustração justifica-se, principalmente, pelo atraso da implementação do pasto, que garantiria alimentação à cria adquirida em pista. Também está no desânimo de quem, temporariamente, está com o abastecimento de insumos incerto e descapitalizado.

Pistas da primavera podem surpreender

Contudo, Barcellos acredita que os remates do segundo semestre – da antiga Temporada de Primavera –, podem surpreender.

“É um cenário de perspectivas favoráveis, mas há uma grande incógnita: as vendas somente serão melhores que 2023 se o criador tiver dinheiro para investir”, condiciona o professor.

Crespo, entretanto, não arrisca projetar preços, mas crê nos bons ventos do “sentimento de reconstrução do RS”.

“Estão todos unidos, querendo o Rio Grande melhor. Vamos gerar receita, fazer a coisa acontecer, ajudar quem está perdendo”, estima o dirigente.

Os primeiros leilões particulares iniciam-se antes mesmo da Expointer, que ocorrerá de 24 de agosto a 1º de setembro, no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio.

O Sindiler/RS prevê divulgar a agenda oficial dos remates até o fim da primeira quinzena de julho. Atualizado constantemente durante a temporada, o material serve como guia a compradores e vendedores de genética bovina, ovina e equina.

“Com a antecipação da venda de reprodutores, a expectativa é que os leilões alcancem a lotação máxima, inclusive na Expointer”, prevê Crespo.

O momento, para Barcellos, é crucial para quem ainda resiste em ter um planejamento estrutural de médio e longo prazos.

“O criador precisa trabalhar com a perspectiva de poupança, ter estoque de gado de fácil comercialização e de comida para esse gado, precisa investir na formação de feno, de silagem, em colheita de resíduos agrícolas”, indica.

O tema também estará em discussão na XIX Jornada Nespro, em 22 e 23 de julho, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre. As inscrições podem ser feitas aqui.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895