O mercado brasileiro de trigo encerrou outubro com preços firmes para o produto de qualidade, mas limitados pelo custo do cereal importado. A avaliação é da consultoria Safras & Mercado.
E o cenário de oferta restrita, baixa qualidade, dependência externa e câmbio instável foi abordado no 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, no Rio de Janeiro. No evento a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) consolidou sua projeção de importação recorde em 9 milhões de toneladas, a maior dos últimos 30 anos.
Conforme levantamento de Safras & Mercado, a safra brasileira 2026/27 deverá encolher 449 mil toneladas (8,1%), para 5,096 milhões de toneladas. O volume é 37% inferior às 8,12 milhões de toneladas de 2025/26. A projeção da consultoria é de que a importação deva chegar a 9,75 milhões de toneladas, o maior volume dos últimos 30 anos e quase o dobro da produção nacional.
De acordo o analista Thiago Oleto, as chuvas frequentes, baixa luminosidade e doenças reduziram a produtividade e a qualidade dos grãos em quase todas as regiões produtoras.
Em São Paulo, há indícios de perda de cerca de 95% da safra. No Paraná, a colheita chegou a 88% da área, mas a parcela de lavouras em boas condições caiu de 60% para 41% ao longo do mês.
“O trigo Tipo 1, adequado à panificação, ficou escasso, e os lotes de qualidade inferior passaram a ser negociados com descontos maiores”, informa a consultoria.
Argentina: 75% dos desembarques
Conforme Safras, o line-up (a programação dos desembarques de trigo no Brasil) indicou 1,208 milhão de toneladas programadas para importação de setembro a dezembro, 37,9% acima das 875,9 mil toneladas do mesmo período da temporada passada.
Por mês, são 305,3 mil toneladas em setembro, 539,1 mil t em outubro, 334 mil t em novembro e 30 mil t em dezembro.
A Argentina lidera as origens, com 910.255 toneladas (75,3%), seguida pelo Canadá, com 97.066 (8%), e outras procedências com 201.000 t (16,6%). Os desembarques seguem concentrados em São Paulo, com 327.494 toneladas, Ceará (201.837 t), Paraná (188.175 t), Bahia (154.769 t) e Pernambuco (120.800 t). Os cinco primeiros estados concentram 82,2% do volume previsto.
Cotações
E os preços do trigo seguiram caminhos diferentes nos dois principais estados produtores, aponta Safras, que destacou a falta de trigo de qualidade sustentou as cotações no Paraná, e a tonelada terminou o mês a R$ 1.520 em Ponta Grossa.
Já no Rio Grande do Sul, a colheita que chegou a cerca de 19% da área acabou por encolher as referências em até 9% desde o início de outubro, com Carazinho a R$ 1.420 por tonelada.
Oleto explica que durante a maior parte do mês o trigo argentino funcionou como teto para os preços internos. Com o dólar abaixo de R$ 5,00 e a queda do preço de exportação na Argentina, o custo de importação recuou. Até o dia 20, 41% do trigo embarcado pela Argentina em outubro teve o Brasil como destino, descreve a consultoria.
“O quadro mudou na reta final. Após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, o dólar subiu mais de 8% frente ao real no pregão de 26 de outubro. A alta encareceu a importação e deu suporte aos preços do trigo nacional neste fim de mês”, acrescenta.
