Rural

Irrigação oferece estabilidade à produção

Falta de investimento na tecnologia é considerado, pelo coordenador da Comissão de Milho da Farsul, Paulo Vargas, o calcanhar de Aquiles para a produtividade da lavoura

Investimentos em irrigação variam conforme a topografia, o custo da água e a capacidade do produtor para aplicar recursos em uma tecnologia que custa caro
Investimentos em irrigação variam conforme a topografia, o custo da água e a capacidade do produtor para aplicar recursos em uma tecnologia que custa caro Foto : Wenderson Araújo / Trilux / CNA / CP

A exemplo do desafio enfrentado pela agropecuária gaúcha, de ampliar a irrigação oferecida aos produtores, os produtores de milho se esforçam para obter cada vez mais o benefício da água garantida. De acordo com o coordenador da Comissão do Milho da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Paulo Vargas, a maior parte da lavoura de milho é plantada entre os meses de agosto e setembro. Um exemplo desse período como prática é no Norte do Estado. “Agora estão formando a espiga, basicamente. Mas tem planta em fase reprodutiva e materiais mais atrasados e uns mais avançados. Está muito instável o clima”, explicou.

O milho é uma planta que necessita de água, principalmente no estágio de polinização.

“Então, se falta um pouco de chuva começa a faltar também grãos ou ficarem menores, assim como as espigas, comprometendo o rendimento”, detalhou Paulo Vargas, acrescentando que às vezes um produtor “pega” chuva e seu vizinho, não.

Por isso, entre outros aspectos, a irrigação é o que dá estabilidade à produção. “Muitos produtores não investem nessa tecnologia. É o calcanhar de Aquiles. Tem regiões que conseguem fazer mais irrigação, conforme topografia, custo da água. Tudo depende do tamanho do produtor. Ele tem que ter renda para fazer a irrigação. Custa caro e não temos um seguro compatível com a necessidade do milho”, pontuou.

Segundo Vargas, o milho é uma cultura que começa com custos maiores do que a soja, por exemplo, desde a semente até os seguros, que não cobrem o cereal. Para o coordenador da Comissão do Milho da Federação, os seguros dos bancos não cobrem as peculiaridades da lavoura, mas somente o seu valor.

“O seguro brasileiro não está hoje respondendo à altura das necessidades”, apontou, destacando que o produtor tem que ter rentabilidade e que a safra é o seu salário para o ano todo.

“Ele vai colher uma vez soja ou milho, se não tiver uma cultura de inverno, e tem que dividir o seu salário para os 12 meses do ano" disse Paulos Vargas.

Vargas detalha que a lavoura de milho tem um custo de produção elevado e também exige delicadeza de semear. “Os produtores tecnificados que conseguem investir com qualidade e tem bom rendimento aí sim terão retorno. Mas tem que ter uma produtividade bastante elevada para se equiparar a uma outra cultura”, especificou.

Políticas públicas

O governo do Rio Grande do Sul afirma estar empenhado na construção de políticas públicas para mitigar os efeitos das secas e estiagens, com ações estruturantes voltadas ao desenvolvimento socioeconômico e à qualidade de vida dos gaúchos. Em março deste ano lançou o Programa de Irrigação e está com edital aberto para o recebimento de projetos.

O objetivo é aumentar a área irrigada em até 100 mil hectares nos próximos anos e, para isso, pretende investir R$ 213 milhões em subvenção econômica. Como forma de incentivo, o produtor rural recebe um benefício de 20% do valor do projeto apresentado, limitado a R$ 100 mil produtor.

De acordo com o Secretário da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Clair Kuhn, na primeira fase, que premiava o produtor com até R$ 15 mil, foram 264 projetos aprovados e um repasse de R$ 2,5 milhões aos produtores, alcançando R$ 17,3 milhões de investimento total nos projetos, com aumento de 898 hectares irrigados.

Na segunda etapa do programa, com edital aberto até o dia 30 de abril de 2025, foram recebidos 345 projetos entre março e novembro deste ano. Do total, 239 foram aprovados e os demais estão em análise. Aqueles que foram confirmados representam 3.971 novos hectares irrigados e o pagamento de R$ 11,4 milhões em subvenção aos produtores, com investimento total de R$ 86,9 milhões.

“Somadas as duas etapas, são cerca de R$ 104 milhões investidos em projetos de irrigação no Estado. Entre as principais culturas a serem irrigadas nos projetos, então milho, soja, pastagem, fruticultura, hortaliças”, explicou Clair Kuhn.

Conforme o secretário, para incentivar e apresentar o Programa de Irrigação, a Seapi, em parceria com a Emater, está realizando seminários no interior do Estado, abrangendo todas as regiões, totalizando 12 encontros.

Dez foram realizados com apresentação sobre as regras do programa, as mudanças na legislação ambiental que auxiliam para a instalação de sistemas de irrigação, o prognóstico climático e apresentação de cases de sucesso.

Kuhn detalhou que a Seapi também investiu mais de R$ 120 milhões em ações que beneficiam produtores e comunidades rurais. São cerca de 4,2 mil açudes escavados em 433 municípios, sendo até 12 açudes por cidade; 650 produtores rurais beneficiados com cisternas de 60 mil litros, em 219 municípios; além de 320 poços perfurados nos municípios.

“A irrigação é, sem dúvida, o melhor seguro de um produtor. Nosso objetivo é mostrar o quanto é importante a irrigação”, disse Kuhn.

Cigarrinha sob observação

Se no passado recente a cigarrinha foi uma grande preocupação, e fez os produtores recuarem na área plantada, para essa safra a praga está mais controlada. O Coordenador Estadual de Defesa Sanitária Vegetal da Emater-RS/Ascar, Elder Dal Prá, confirma o cenário de ocorrência menor do inseto nas lavouras.

“Isso ajudará a termos menor prejuízo em relação às produtividades”, reforçou, destacando que esse novo contexto está relacionado com o manejo preventivo realizado pelos agricultores, mas não é o único motivo. “Eu diria que o principal fator está associado ao período da entressafra.

Ele recorda que na entressafra anterior, de 2023/2024, foi um período com um inverno mais quente, poucas geadas e isso fez com que surgisse milho voluntário, milho guaxo durante quase todo esse período.

"Uma ponte verde e, como consequência, nós já no início da semeadura do milho tivemos uma população elevada de cigarrinha. Fato que não aconteceu nessa entressafra, com temperaturas mais baixas, muitas geadas que acabaram eliminando esse milho voluntário, milho guaxo e como consequência a cigarrinha não conseguiu se reproduzir”, explicou Elder Dal Prá.

O Coordenador Estadual de Defesa Sanitária Vegetal da Emater-RS/Ascar, complementa que a cigarrinha é um inseto que é dependente da cultura do cereal para reprodução. Segundo Dal Prá, é uma praga como a maioria dos insetos, que se desenvolve muito bem em temperaturas amenas.

“Em específico, temos a característica que com o aumento da temperatura o ciclo do desenvolvimento se encurta, o ciclo biológico, e, como consequência temos mais gerações de insetos dentro do cultivo. Quanto mais quente for, maior quantidade de cigarrinhas vamos ter”, pontuou Dal Prá.

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