No mercado externo, o aumento das exportações americanas e conflito entre Ucrânia e Rússia estimulam alta de preços na Bolsa de Chicago, principal referência global para commodities. Com demanda para produção de ração e etanol em alta e dólar cotado na faixa histórica de R$ 6 (e com tendência de manutenção ou alta em 2025), a cotação do milho vive um momento especial.
Desconsiderando os atípicos anos vívidos entre 2020 e 2022 (período de pandemia e início da guerra na Ucrânia), os valores praticados em novembro deste ano já são os maiores dos últimos dez anos, em cálculo deflacionado (valor da cotação atualizado pela inflação medida pelo IGP-DI no período) de acordo com levantamento de Carlos Cogo, sócio da consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio.
No Brasil, a redução do desemprego vem permitindo que famílias aumente o consumo de carne, o que está entre os fatores internos que impulsionam as boas cotações do grão – já que o milho é a base da alimentação de suínos e aves. As crescentes exportações de proteína animal também elevam a procura pelo grão.
Criadores brasileiros precisam engordar cada vez mais animais para posterior envio aos frigoríficos e embarque da produção a uma centena de países que tradicionalmente consome carnes suína e de frango do Brasil e quem vem aumentando seu apetite. Aliado a isso, a produção de etanol a base de milho tem igualmente turbinado os negócios.
Estoques baixos
O Brasil ainda exibe baixos estoques em razão de quebra da safra 2023/2024 e, mesmo uma boa colheita prevista para o primeiro trimestre de 2025 não deve alterar a valorização do produto, avalia Cogo. “Ao contrário da soja, o milho tem um viés bastante sustentável inclusive para sua alta no próximo ano. Os contratos em Chicago trabalham com uma média de US$ 10,25, o que inclui os períodos valorizados de 2020 a 2022. Já a soja vem sendo comercializada por US$ 1,00 a menos do que a média dos últimos dez anos”, explica Cogo.
Paulo Molinari, analista da consultoria Safras & Mercado, coloca ainda que as cotações entre 2020 e 2023 foram impactados por quebras de safras simultâneas nos Estados Unidos e na América do Sul. Molinari acrescenta, ainda, que neste período de três anos a guerra na Ucrânia elevou a cotação do petróleo – valorizando também o etanol.
“E com a guerra, a Rússia, por limitações nas exportações de trigo, levou a alta do grão. E a elevação do cereal puxa para cima também a cotação do milho, já que os dois grãos são concorrentes no mercado”, explica Paulo Molinari.
Para o primeiro semestre, a produção deve ser limitada pela redução na área plantada, de acordo com o analista da Safras & Mercado, o que ajuda a manter os bons preços do grão. Ainda que a produtividade deve ser melhor na atual safra, em razão de boas condições climáticas, o analista alerta que essa condição não compensa a retração de 20% de redução nos hectares cultivados no país.
“No mercado internacional, a exportação norte-americana está forte, deixando o mercado interno com menor oferta e sustentando os preços em Chicago. Já a Argentina, com redução da área plantada e sendo principal exportador latino do primeiro semestre, também colabora com boas perspectivas para os preços atuais, na faixa entre R$ 70,00 e R$ 80,00”, analisa Molinari.
Em suas análises de mercado divulgadas em novembro, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP) também sinaliza que o cenário global, em diferentes contextos, indica que a menor oferta e maior demanda devem sustentar bons preços por mais tempo. Entre os fatores que beneficiam produtor estão a revisão para baixo dos estoques mundiais além das compras que o México ampliou nos Estados Unidos, após seca prolongada que atingiu o país.
