Revertendo previsões do terceiro trimestre do ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio, calculado pelo Centro de Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), encerrou 2024 com alta de 1,81%. A recuperação ocorreu com o resultado do quarto trimestre, que registrou crescimento de 4,48%.
“Esse bom desempenho permitiu uma reversão do movimento de queda que era observado até o terceiro trimestre”, diz o estudo de Cepea/CNA.
A virada nos números foi impulsionada, principalmente, pela elevação do valor bruto da produção, fator relacionado ao aumento de preços no período.
O estudo examina o agronegócio sob a perspectiva dos ramos agrícola e pecuário, subdivididos nos segmentos insumos, primário, agroindústria e agrosserviços. Ainda que o avanço no quarto trimestre tenha contemplado as duas partes, no acumulado do ano, o ramo agrícola caiu 2,19%, enquanto o pecuário apresentou crescimento expressivo, de 12,48%. O desempenho negativo da agricultura é verificado nos quatro segmentos, com destaque para o de insumos e o primário. No ramo pecuário, ao contrário, todos os segmentos têm variação positiva, notadamente os de agroindústrias e agrosserviços.
Na análise por segmentos, no acumulado do ano, o de insumos registrou retração de 4,65%, influenciado, sobretudo, pela queda de 6,97% nos agrícolas. De acordo com Cepea/CNA isso se deve ao desempenho das indústrias de fertilizantes, defensivos e máquinas agrícolas, que enfrentaram pressões decorrentes do recuo das cotações e de redução na produção de maquinário. Em contrapartida, o crescimento de 1,23% dos insumos pecuários foi impulsionado pelo avanço da indústria de medicamentos veterinários, refletindo a maior produção ao longo do ano.
A análise dos segmentos apresentada pelo levantamento evidencia o impacto do desastre climático ocorrido no Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024. A indústria de máquinas agrícolas, por exemplo, apresentou redução de 18,57% no valor bruto de produção em 2024, resultante da combinação do recuo de 4,65% nos preços, na comparação com 2023, e da retração de 14,6% na produção anual. Entre os fatores que influenciaram o desempenho da indústria, destacam-se o aumento da taxa de juros, a desvalorização de importantes commodities, os eventos climáticos adversos no país e as incertezas dos produtores, causando o adiamento de investimentos em novos equipamentos e contribuindo para a desaceleração da atividade industrial.
O estudo relaciona a baixa no segmento de insumos às atividades do segmento primário, onde, novamente se expressam os efeitos da tragédia climática gaúcha. O fenômeno é considerado mesmo em lavouras com resultado positivo, como a cultura do arroz. O grão teve crescimento de 20,37% no valor bruto da produção. Cepea e CNA atribuem a elevação ao aumento de 14,04% nas cotações do produto entre 2023 e 2024 e à produção 5,52% maior.
“Segundo a Conab, o aumento na produção de arroz esteve atrelado à expansão da área cultivada, tanto no sistema de sequeiro, com destaque para Mato Grosso, quanto no irrigado, em estados como Tocantins, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul”, diz o texto.
No histórico da evolução da cultura do arroz ao longo do ano, o estudo salienta que, por ocasião das inundações, alagamentos e enxurradas de 2024, a colheita gaúcha estava praticamente concluída, com as lavouras semeadas dentro do período recomendado apresentando produtividade acima da média. Prejuízos foram confirmados pela Emater/RS-Ascar em localidades onde a colheita estava em andamento e teve de ser interrompida, ocorrendo acamamento e inundações extensas. “O impacto foi mais severo em áreas onde o cereal já estava maduro há semanas, comprometendo a qualidade dos grãos devido aos repetidos ciclos de umedecimento e secagem”, aponta Cepea/CNA. A partir de junho, as fortes chuvas dificultaram a logística, impactando os negócios.
As chuvas de abril e maio impulsionaram preços da batata, ao atrasar a colheita no Estado e agravar a escassez. As precipitações também afetaram as lavouras de tomate, com inundações e contaminação por bactérias. Por outro lado, o estudo destaca o desempenho do RS na primeira safra do milho. O grão, no entanto, sofreu redução de 16,75% no valor bruto da produção, resultante da queda de 5,09% nos preços, na comparação entre 2023 e 2024, e diminuição de 12,28% na produção anual. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a menor produção está vinculada à redução da área cultivada e ao menor nível produtividade.
- Colheita do arroz atinge 79,19%
- Trigo nacional pode emitir 38% menos CO2
- Momento de estabilidade na pecuária leiteira
No segmento primário da pecuária, a enchente, somada à estiagem e altas temperaturas no Sudeste e Centro-Oeste, contribuiu para o enfraquecimento da oferta da bovinocultura leiteira. “Esse cenário sustentou a alta dos preços que, no último trimestre, promoveu a reversão das expectativas iniciais e, assim, concretizou o crescimento do valor de produção anual”, afirma o estudo. No final de 2024, o valor de produção cresceu 4,99%, resultado da combinação entre a elevação de 2,64% nos preços reais e aumento de 2,29% na produção anual.
Na avicultura de corte, uma das atividades do agro gaúcho mais atingidas pela catástrofe, 2024 fechou com crescimento de 5,16% no valor bruto de produção, resultante da combinação de aumento de 2,75% dos preços reais na comparação entre anos e da expansão de 2,34% da produção anual. No país, o negócio teve embarques impulsionados pelo aumento global nos casos de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (H5N1). No segundo semestre, se manifestaram os efeitos da enchente, e, posteriormente, da confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja no Vale do Taquari.
“O controle da oferta e a demanda aquecida, tanto no mercado interno quanto no externo, sustentaram os preços”, explica o levantamento.
Além disso, o reconhecimento do fim do surto de Newcastle, em outubro, trouxe maior estabilidade ao setor. No último trimestre, a avicultura registrou recordes nas exportações, totalizando 5,2 milhões de toneladas embarcadas ao longo do ano, alta de 2,8% em relação a 2023.