O futuro do agronegócio e da economia brasileira foi o assunto do Seminário Campo das Ideias, realizado ontem, no teatro do Bourbon Shopping, em Porto Alegre. Especialistas nacionais sobre os dois temas palestraram no evento promovido pelo Senar-RS, que teve na abertura a presença do governador Eduardo Leite.
“Precisamos inovar, pensar diferente na nossa produção, a gestão dos nossos negócios, nossa estrutura de resiliência às dificuldades e até mesmo as nossas relações sociais”, lembrou o superintendente do Senar-RS, Eduardo Condorelli, na abertura do encontro do qual participaram quase mil pessoas, entre produtores rurais, lideranças e autoridades empresariais e públicas.
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, disse ver o mundo “difícil”, passando não por uma “nova ordem econômica”, mas uma nova “desordem” econômica, diante da perda de protagonismo de grandes organizações multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização Mundial do Comércio (OMC). Neste contexto, afirmou que todos estão atropelados por quatro modernos “cavalos do apocalipse”: insegurança alimentar, insegurança energética, mudanças climáticas e desigualdade social.
“O mais sensível é a insegurança alimentar”, acrescentou. “E alimentos para o povo significam a única condição de estabilidade política e social de uma nação. É preciso enfrentar estes quatro fantasmas”, advertiu. “Eu estou convencido que quem vai resolver estas questões todas é o agro”, disse. “Mas qual agro? O agro tropical”, emendou, evocando a agropecuária praticado no Brasil.
O economista, cientista político e diplomata Marcos Troyjo citou a história do personagem bíblico José do Egito que, há milhares de anos, orientou o faraó a se preocupar com questões econômicas e estruturais para garantir a sobrevivência assim que a fase de “vacas gordas” fosse substituída pela de “vacas magras”.
“Porque acho esta história tão importante para o Brasil, para o agro no atual contexto mundial. Porque eu tenho a impressão que estamos entrando numa fase que é potencialmente ruim para a grande maioria das nações”, explicou, mencionando o termo “trumpulência”, a turbulência global causada pelo presidente norte-americano.
A economia brasileira e mundial foi abordada pelo economista e professor de Economia da UFRGS Marcelo Portugal. Segundo ele, as perspectivas para a economia brasileira são complicadas, não apenas neste ano, mas para os dois próximos.
“O ano que vem vai ser tudo empurrado com a barriga”, definiu, referindo-se às eleições.
“Vai ser um problema muito grave em 2027”, projetou. Portugal explicou que o país cresceu 1,3% no primeiro trimestre, mas que agora os números perderam fôlego. “E em 2026 vamos empurrar os problemas para frente. Ninguém vai tratar de problemas estruturais da economia brasileira”, lamentou. “Infelizmente, o nosso maior problema, que é o fiscal, não vai ser resolvido”, disse.
O economista-chefe da federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, descreveu a situação fiscal do Brasil como bastante comprometedora, uma vez que o governo federal não promove ações para reduzir suas despesas.
“Apesar dos bons números do agronegócio, o setor não é uma ilha, ele é parte de um grande navio, e esse navio é a nossa economia. Estamos com uma Selic de 15% e a mortalidade das empresas vai aumentar”, previu.
“Assim como a mortalidade de produtores rurais será enorme. Aliás, já está sendo”, completou.