Os efeitos sobre o valor da arroba do gado gaúcho da sobretaxa chinesa de 55% anunciada para a carne bovina brasileira que entrar naquele país poderão ser menos danosos do que no restante da pecuária do país, sobretudo a do Brasil-Central, a principal região exportadora. A avaliação é do coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor Júlio Barcellos.
Segundo Barcellos, o Rio Grande do Sul representa uma “participação pouco expressiva” de aproximadamente 1,5% das exportações brasileiras de carne bovina, em torno de 40 mil toneladas em 2025. E para a China, conforme ele, a informação não é segregada com precisão, mas os dados apontam em torno de 11 mil toneladas em 2024 e estimadas 15 mil em 2025, ainda que os dados não estejam consolidados. “Um pouco abaixo da participação do Brasil”, detalha.
Para o professor, a taxação “cria sinais sobre o mercado”, sobretudo no Brasil-Central, onde está a grande indústria exportadora para a China, mas no Rio Grande do Sul apenas uma indústria destina carne para o país asiático. “Essa indústria tem outros mercados que poderá redirecionar com extrema facilidade”, entende.
No entanto, o professor pondera que quando a arroba do boi no Brasil-Central é submetida a algum tipo de efeito sobre seu preço, há consequências também sobre os preços praticados ao boi no Estado, pois o Rio Grande do Sul recebe carne de outros estados via varejo.
“Então, isto possivelmente é uma jogada de efeitos comerciais importantes, mas que num primeiro momento não afetará o mercado do gado no estado do Rio Grande do Sul. Além disso, nós temos um ciclo de recuperação da pecuária com uma valorização da cria e com investimentos no aumento e produtividade”, acrescenta Barcellos.
Mesmo assim, Barcellos analisa que a medida chinesa poderá provocar revisões nas iniciativas dos produtores gaúchos em investir na atividade.
“E isto sim pode, a partir de esses sinais internacionais, sofrer uma incerteza com relação a investimentos em tecnologia e melhoria da produtividade no estado do Rio Grande do Sul. Então, isto é algo que pode trazer alguma preocupação, mas ainda ela é uma preocupação mais de âmbito brasileiro do que os grandes efeitos locais”, complementa. “Vamos aguardar e nos próximos dias teremos novas análises. Mas, a priori, é que não haverá impacto sobre o preço praticado no mercado Rio Grande do Sul.”
Player mundial
Em nível nacional, há uma mobilização de autoridades para minimizar os efeitos na pecuária brasileira, como a iniciativa da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). O coordenador institucional FPA, o deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS) afirma que a bancada do agro estará na linha de frente junto ao Itamaraty e autoridades diplomáticas do Brasil em Pequim, intermediando os apelos do setor para renegociar os termos da taxação.
“Somos um player de sucesso. Há mais de 50 anos, com manejo adequado, genética adequada, melhora da qualidade do rebanho, melhor da produtividade e melhor sanidade fomos conseguindo e conquistando o mercado.
“Essa questão, no entanto, não é uma questão olímpica. Todos os dias nós somos clientes e concorrentes dos mesmos países. E a agressividade com que produzimos nosso produto e a nossa capacidade competitiva fere interesses externos. Agora temos a salvaguarda as chinesas”, avalia Moreira. “E precisamos estar mobilizados com as nossas embaixadas, nossos adidos agrícolas, todos os interesses comerciais possíveis, todos envolvidos, as cadeias produtivas para vencermos esta barreira”, acrescenta.
“Teremos que abrir nossos novos mercados, que estar presente agressivamente, desembarcar na China nos primeiros dias de janeiro ou fevereiro para continuar a negociação e buscar, o mais rápido possível, a solução para este modelo produtivo que tem estoque no campo que não pode deixar depositado sem a possibilidade de vender.”
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