Do outro lado do rio, ainda é Porto Alegre. Uma Porto Alegre peculiar, ribeirinha e cercada pelas águas do Guaíba. Onde a vida é diferente e o clima te faz acreditar que está no interior. Tanto que tu não vais ouvir alguém dizer que vai ao Centro. “Vou à cidade”, diz um morador das ilhas antes de pegar a ponte.
Um lugar que é pouco lembrado por boa parte da população da cidade. A não ser que tenha enchente.
O bairro Arquipélago é o único do município localizado a oeste do Centro. Foi criado oficialmente por uma lei de 1959. De acordo com a prefeitura, é formado pelas ilhas do Pavão, Grande dos Marinheiros, da Pintada, das Flores, Mauá, da Casa da Pólvora, Serafim Araújo, do Lajes e do Cirano.
As mais populosas são a da Pintada e a dos Marinheiros. Muitas delas são ou já foram conhecidas por mais de um nome - o que pode gerar confusão. A das Flores já se chamou Maria Conga, Maria Monjolla e do Quilombo - nomes documentados pelo poder público. Mas há outra ilha chamada de Maria Conga pelos locais. Há também ilhas que desapareceram com o tempo, como a Coroa dos Bagres.
Tem até ilha que ficou famosa no cinema, quando Jorge Furtado lançou o documentário “Ilha das Flores” - que, na verdade, foi gravado em um lixão na Ilha Grande dos Marinheiros.
As ilhas do Guaíba estão inseridas em uma Área de Proteção Permanente, o Parque Estadual Delta do Jacuí, criado em 1976. O Delta recebe as águas dos rios Gravataí, Sinos, Caí e Jacuí, que formam o Guaíba. E todas elas guardam histórias que ajudaram a construir a cidade que hoje conhecemos.
Indígenas Guarani: os primeiros habitantes
Registros arqueológicos indicam a presença humana na região pelo menos desde o século XVI. Indígenas da etnia Guarani circulavam por aquela região e realizavam a pesca com técnicas artesanais que seguiram sendo utilizadas nas ilhas pelo menos até os anos 1960 - como a nassa, cesto trançado com uma cavidade interna em formato cônico.
No começo dos anos 1800, se tem registros públicos de moradores que reivindicavam porções de terra no arquipélago. Em 1813, foi à Câmara de Vereadores a senhora “Mariana Maria, preta forra, moradora da Ilha do Saco do Quilombo, do outro lado deste rio” para reivindicar uma porção de terra que havia adquirido anos antes.
A região também foi destino de pessoas negras escravizadas que conseguiam fugir da escravidão e buscavam um refúgio para viver em liberdade. Alguns deles teriam vindo da Feitoria Real do Linho Cânhamo - na atual São Leopoldo - onde uma grande revolta ocorreu em 1822.
Em 30 de outubro de 1844, o jornal O Imparcial publicou um anúncio da fuga de um escravizado, de nome José, “oficial de carpintaria, crioulo de Santa Catarina”. Segundo alegava o reclamante, “conta ter andado pelas ilhas tocando viola em fandangos com o nome mudado.”
Ilha Grande dos Marinheiros -1978
Crescimento desordenado, ocupação irregular
A partir de 1958, a região ganha um acesso rodoviário, com a construção da ponte do Guaíba, parte da travessa Régis Bittencourt, criada para ligar a capital ao Sul do estado. Antes disso, tudo era feito de barco. Era comum que barqueiros fossem das ilhas até a região do Mercado Público para comercializar peixes, leite e outros itens.
O crescimento populacional dessa área alagável se deu de forma desordenada, em cima da ocupação irregular de terrenos. Muitos invadidos, outros comprados de quem tinha invadido há mais tempo. Água encanada e energia elétrica chegaram somente em meados da década de 1980. Antes, a água do Guaíba era usada até mesmo para consumo. A luz, à noite, era de lampião.
Hoje, o abastecimento de água é independente do sistema central da cidade e ocorre através da ETA Ilhas (Estação de Tratamento de Água Francisco Lemos Pinto), localizada na Ilha da Pintada. O esgotamento sanitário é realizado majoritariamente de forma individual, já que a região não possui uma rede coletora central conectada a uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) convencional.
O maior crescimento populacional é registrado entre as décadas de 1990 e 2010, quando a população chegou ao pico de mais de 8 mil moradores. Muita gente chegou nas ilhas atraída por emprego nas empresas que já funcionaram no local, como o Estaleiro Mabilde e uma fábrica de adubos orgânicos Biofértil.
Outra atividade comum é a reciclagem, principalmente no norte da Ilha dos Marinheiros, onde em 1986 foi criada a pioneira Associação dos Catadores de Material de Porto Alegre.
Figueroa: “Nem o Ronaldinho Gaúcho conseguiu”
José Carlos de Oliveira, 74 anos, trabalhou em boa parte dos empregos possíveis no bairro - como a fábrica de adubos e um posto de combustíveis da Ipiranga. Além de ter pescado muito jundiá, pintado e traíra nas águas do Guaíba - antes da poluição e dos motores dos jet skis das marinas locais dificultarem a pesca.
Mais conhecido como Figueiroa, ele mora na Ilha Grande dos Marinheiros desde 1972. Mudou-se de Canoas depois que a mãe casou-se com um morador local. Na chegada, ele encontrou um cenário rural.
“Criação de porco aqui, tinha gente que tinha 500, 600 porcos. Quem vinha caminhando por esta rua - João Inácio da Silveira - via 20, 30 porcos soltos”. A produção foi proibida por questões ambientais, em meados dos anos 2000. Quando dava enchente, os resíduos da produção suína se espalhavam.
Mesmo tendo atuado em empresas locais, é de um não-trabalho que ele guarda um causo inusitado, “um fato inédito, que nem o Ronaldinho Gaúcho conseguiu”.
Ele recorda que conseguiu uma vaga para trabalho temporário de fim de ano em uma sede do Grêmio, na ilha. Fez os exames e começaria na segunda. No domingo, recebeu o recado de que havia sido demitido. No dia combinado, foi ao local reivindicar o posto e descobriu que o motivo do corte era o apelido - que remete a um histórico ídolo colorado, mesmo ele sendo gremista.
Resultado: “Fui contratado e demitido sem trabalhar.” Mas havia um contrato. “Fui lá no Estádio Olímpico, e exigi o mês de salário e todos meus direitos e eles pagaram. Saí mais folgado que calça de palhaço”.
- Areal da Baronesa: território quilombola mantém viva a ancestralidade negra em Porto Alegre
- Menino Deus: as histórias pouco lembradas de um dos bairros mais tradicionais de Porto Alegre
- Rubem Berta: a história do bairro da zona Norte que homenageia figura da aviação brasileira
Beth: “Tirando a enchente, um paraíso”
“Eu estou aqui desde o dia 22 de outubro de 1968, desde que nasci”, descreve Elisabete de Paula Braatz, mais conhecida como Beth. O pai vivia no local desde a infância, vindo de Camaquã. A mãe, nascida em Bom Retiro do Sul, no Vale do Taquari, morou antes na Ilha do Chico Inglês, também no Arquipélago.
Até os 15 anos, Beth bebeu água do Guaíba. A energia elétrica também ela também viu chegar na adolescência. “Antes era lampião a querosene. A gente tinha televisão movida a bateria e tinha que levar a bateria para carregar na borracharia”, lembra. Beth tem um mercadinho no mesmo terreno, onde fica a casa em que vive com o marido e a filha e faz marmitas.
A moradora diz que ama o lugar, pela tranquilidade, o silêncio, o espaço e a segurança - relata que está à frente do negócio, que era do pai, desde 2002 e nunca sofreu um assalto. “Tirando a enchente, isso aqui é um paraíso”, resume.
Acostumada a lidar com as cheias, em 2015 ela viu a água entrar em casa pela primeira vez. Em 2024, a casa ficou coberta d’água, a mobília foi arrasada e os freezers boiaram por sobre os muros. Depois dessa experiência, ela começou a pensar em deixar o chão onde nasceu.
No entanto, acredita que não conseguiria viver da mesma forma em outro local. “Tu achas que eu vou me adaptar a morar em apartamento? Eu trabalho fazendo marmita, eu preciso de uma cozinha. Para sair daqui, eu precisava de uma casa dentro de Porto Alegre e com os R$ 200 mil da Compra Assistida, eu não compro”;
Beth acredita que muitos moradores que aderiram à Compra Assistida acabem retornando às ilhas, por não se adaptarem a apartamentos ou em função do custo de vida.
Uma comunidade que nasceu em meio ao rio
É possível encontrar trabalhos acadêmicos e outras iniciativas de pesquisa que se debruçaram sobre a história do arquipélago. O historiador José Juvenal Gomes coordenou a equipe que produziu o livro “Arquipélago - as ilhas de Porto Alegre”, lançado em 1997, por meio de um projeto da Secretaria Municipal da Cultura - e de onde vêm parte das informações da abertura desta reportagem. A equipe entrevistou mais de 100 moradores ao longo de dois anos, na década de 1990.
“Conseguimos pessoas que tinham nascido em 1910, que participaram da primeira diretoria da Colônia de Pescadores Z-5 e que viveram as enchentes de 1929, 1936, 1941 e por aí afora”, recorda Gomes.
Alguns aspectos da vida do lugar lhe chamaram atenção, como o relato de quem jogava pelada pelos campinhos de futebol do Arquipélago. “Quando vinha o rebojo, um vento diferente, já sabiam que água ia subir, porque a água brotava da terra. Então, o jogo terminava assim”.
Para o historiador, o povo das ilhas tem relação diferente com o território do que os demais habitantes de Porto Alegre. “Nas casas dos pescadores antigos, por exemplo, a gente entrava pelos fundos, porque a frente das casas é virada para o rio. A sala não dá na rua, dá no rio. Isso mostra uma comunidade que o rio é sua vida e que precisa estar se reinventando em função dessa relação”.
Um aspecto muito presente nos relatos dos moradores mais antigos são as figuras míticas do Arquipélago, como as bruxas, que eram vistas andando de barco, assustando as pessoas e mexendo nas redes dos pescadores durante a madrugada. Outros moradores relataram ter visto o espírito de Maria Conga - antiga moradora que teria sido morta pelo companheiro.
Arquipélago das palafitas e das mansões
Mas o bairro, predominantemente habitado por gente de poucas posses, tem também uma parcela rica. Os moradores acreditam ter sido ali pelos anos 2000 que os primeiros empresários endinheirados - os burgueses, como chama Figueiroa - compraram terrenos na Ilha Grande dos Marinheiros.
Muitas das áreas onde hoje estão mansões avaliadas em mais de R$ 5 milhões, foram compradas “por mixaria”. “Teve um cara que vendeu um terreno por uma bicicleta e uma televisão, aconteciam coisas assim”, recorda.
Na Ilha Grande dos Marinheiros, os imóveis de alto padrão ficam na parte sul. “A minha casa fica bem no meio, na divisa entre as casas dos pobres e as casas dos ricos”, desenha Beth.
Com o fechamento das empresas que geravam empregos nas ilhas, restaram poucas opções de emprego no bairro. Alguns moradores trabalham como caseiros e prestam outros serviços nas casas mais abastadas.
Quando a enchente bateu, pegou todo mundo. Nem rico, nem pobre escapou dos estragos das cheias - 100% do território foi alagado, de acordo com a Subprefeitura das Ilhas. Mas na hora de reconstruir, a desigualdade do bairro voltou a aparecer. Se boa parte dos moradores não tiveram como se reerguer, algumas reformas de imóveis de alto padrão custaram centenas de milhares de reais.
A vida em meio ao Guaíba
Os dados do Censo mostram que a população da região disparou entre as décadas de 1990 e 2010. Em 1991, o IBGE contabilizou 2.270 moradores, que subiram para 5.061 em 2000 e atingiram um pico de 8.330 no levantamento de 2010.
Gomes avalia que este movimento tem ligação com o crescimento da região metropolitana. “Gente que procura lugar para morar e trabalhar perto do centro da cidade. É mais fácil estar na Ilha do Pavão, que só pega a ponte e pode até ir a pé, do que em outros municípios vizinhos”, afirma.
Os moradores citam ainda que o bairro recebeu muitos moradores que foram removidos de vilas de Porto Alegre.
De acordo com o Censo 2022, 6.411 pessoas moravam nas ilhas, o que representa pouco menos de 0,5% da população de Porto Alegre. Entre os moradores das ilhas, 50,1% são mulheres e 49,9%, homens.
A grande maioria dos habitantes se autodeclara branco (4.731 ou 73,8%) Os pretos (446) e pardos (1.191) somam 25,5%. O Censo contabiliza ainda 13 pessoas indígenas e três que declaram ser amarelos. A taxa de analfabetismo é de 5,7%, abaixo da média nacional, que é de 7%.
Essas pessoas estavam distribuídas em 2.281 domicílios, uma média de 2,8 pessoas por residência. Os domicílios são quase todos (99,7%) casas. Há ainda quatro cortiços e três unidades enquadradas em “casa de vila ou condomínio”. A população é 100% urbana.
Após a enchente de maio de 2024, é provável que esses números tenham reduzido significativamente. Muita gente foi embora, muita casa ficou inabitável. De acordo com o Departamento Municipal de Habitação (Demhab), 3.022 famílias foram contempladas no programa de Compra Assistida.
Uma comunidade que aprendeu a viver em meio ao rio e às enchentes
Após a enchente, população pode reduzir em 70%
Para Patrícia Coelho, subprefeita das Ilhas, o bairro passa pela maior transformação demográfica de sua história. A redução populacional pode chegar a 70% em relação aos números de antes da enchente de 2024.
“A saída dos moradores nativos representa um dos impactos sociais mais profundos das enchentes de 2024, afetando diretamente a identidade cultural do bairro Arquipélago. Existe uma parcela significativa de moradores tradicionais que recusam a realocação. O argumento é a ligação ancestral com as ilhas e a falta de adaptação à vida em condomínios urbanos. Muitos tentam reconstruir suas casas em modelos suspensos (palafitas mais altas) e aguardam a apresentação dos estudos do Plano Urbano Ambiental das Ilhas”, afirma.
O Plano é a principal diretriz para a reconstrução sustentável das ilhas. O projeto é fruto de uma parceria entre a Prefeitura, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Universidade Técnica de Delft (TU Delft), da Holanda. A previsão é que seja apresentado em meados de maio de 2026.
Centro de Porto Alegre visto da ponte do Guaíba
O Redescobrir a Cidade está contando a história dos bairros de Porto Alegre e a origem de seus nomes. Além da história do Arquipélago, você também pode ler:
Areal da Baronesa: território quilombola mantém viva a ancestralidade negra em Porto Alegre
Menino Deus: as histórias pouco lembradas de um dos bairros mais tradicionais de Porto Alegre
Jardim Lindóia: conheça a história do loteamento que virou bairro e cresceu com a Zona Norte
Farroupilha: a história do bairro que se desenhou a partir do Parque da Redenção