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Bom Jesus: conheça o bairro que transformou a luta comunitária em identidade cultural

Comunidade aposta em projetos sociais e eventos culturais para contar sua própria história e superar estigmas históricos

Conhecido como Bom Jesus, o território reúne um complexo de vilas, entre elas Fátima, Divinéia, Pinto, Sampaio e Brasília
Conhecido como Bom Jesus, o território reúne um complexo de vilas, entre elas Fátima, Divinéia, Pinto, Sampaio e Brasília Foto : CP Memória

Longe do retrato estigmatizado reproduzido nas manchetes dos jornais, o bairro Bom Jesus é berço de um grande legado para a cena cultural de Porto Alegre. A comunidade, localizada na zona Leste da capital gaúcha, se desenvolveu pela força comunitária de seus próprios moradores, e é justamente nessa organização que reside parte de sua identidade, ainda hoje pouco contada fora do território.

Assim como outras periferias urbanas, a “Bonja” convive com demandas e desafios envolvendo a vulnerabilidade social e infraestrutura. A Vila Bom Jesus, como é conhecida atualmente, na verdade, é um complexo de vilas que envolve a Fátima, Divinéia, Pinto, Sampaio, Brasília, entre outras.

Segundo a pesquisa “História dos bairros de Porto Alegre”, produzida pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade, a ocupação da região teve início no final do século XIX, quando as terras, consideradas de veraneio, pertenciam aos herdeiros do Barão do Caí. Já o loteamento das áreas, iniciado ainda na década de 1920 após a morte de Manuel Ferreira Filho, atraiu famílias de baixa renda e migrantes do interior gaúcho, em busca de terrenos mais acessíveis fora do Centro.

Foi a partir da união dos residentes que a Vila Bom Jesus conquistou seus primeiros avanços. A fundação de uma sociedade comunitária, em 1953, passou a encaminhar reivindicações e cobrar melhorias junto à Prefeitura. O movimento se fortaleceu ainda mais na década de 1980, com o crescimento populacional da região.

Ainda assim, a cerca de nove quilômetros do centro urbano, a primeira unidade de saúde do bairro só foi inaugurada em 1996, símbolo do histórico distanciamento entre o poder público e a comunidade.

A primeira unidade de saúde do bairro só foi inaugurada em 1996 | Foto: CP Memória

Apesar disso, a vida comunitária seguiu se fortalecendo por outros caminhos. Nas décadas seguintes, surgiram clubes recreativos, entidades culturais e associações que ajudaram a consolidar a identidade local, entre eles o Bonsucesso Atlético Clube, o mais antigo do bairro que, durante anos, foi sede de variados eventos sociais de seus moradores; o Clube dos Comilões, formado exclusivamente por homens, e o Clube Carnavalesco e Recreativo Estácio de Sá. Em 1962, nasceu a Associação Copacabana, que permanece ativa até hoje e se tornou uma das tradicionais escolas de samba do município.

Dimensionando a complexidade da Bonja

Atualmente, o Bom Jesus reúne cerca de 28,7 mil habitantes em pouco mais de dois quilômetros quadrados, de acordo com o Censo de 2022 do IBGE, representando uma das maiores densidades demográficas de Porto Alegre. Além disso, a região figura entre os bairros com maior número de residentes negros da capital, superando os 40%, conforme o Boletim Epidemiológico População Negra de Porto Alegre 2024.

Por outro lado, o bairro também aparece entre as regiões de maior vulnerabilidade social da cidade, segundo o Mapa da Inclusão e Exclusão Social de Porto Alegre. Questões relacionadas à renda, saneamento e acesso a oportunidades seguem presentes no cotidiano de muitos residentes.

Mas reduzir o território a esses números significa ignorar uma dimensão fundamental de sua história. Por isso, é essencial também mencionar alguns dos projetos construídos pelos próprios moradores que atuam na comunidade e ampliam a dimensão para além dos estereótipos.

Crianças posam para fotografia no bairro Bom Jesus em registro do Correio do Povo | Foto: CP Memória

Como é o caso do Centro de Educação Ambiental (CEA), que atua há 28 anos na comunidade. Fundado em 1996 a partir da organização de um grupo de mulheres da Vila Pinto que buscavam autonomia financeira por meio da coleta seletiva, o CEA se tornou, ao longo das décadas, muito mais do que uma cooperativa de reciclagem.

Hoje, sua sede reúne estúdio de televisão, cinema, horta agroecológica e espaços para outros projetos sociais. Entre eles, se destaca a TV da Bonja, um projeto de jornalismo periférico que, por meio do YouTube, conta histórias da comunidade “de dentro para fora”, com programas como o Quebrada em Foco, apresentado por Mika Ativa e Thiago Palominio, moradores da região.

E o sentimento de pertencimento também encontra espaço no esporte. Em 2024, a comunidade celebrou a conquista da Taça das Favelas RS, quando a equipe representante da Vila Bom Jesus levantou o título estadual masculino da competição, levando o nome do bairro para além dos limites da capital gaúcha.

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Na Vila Pinto, desde 1999, o projeto Ouviravida oferece aulas de música para mais de 200 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, além de oficinas com artistas, passeios culturais e acompanhamento psicológico.

Depois de um período sem atividades por falta de recursos, o projeto foi retomado em 2017 e segue ativo até hoje, formando, junto com o CEA, uma rede de iniciativas que reafirma o protagonismo da própria comunidade na construção de sua imagem.

Quem quiser conhecer de perto esse outro lado do Bom Jesus tem um bom motivo neste domingo, 28. A comunidade promove o Festival de Talentos, realizado pelo Bazar na Bonja, na Travessa São Pedro, das 14h às 17h. O evento valoriza e dá palco aos próprios talentos do bairro, com atrações locais que reforçam a cultura e a identidade do território.


O Redescobrir a Cidade está contando a história dos bairros de Porto Alegre e a origem de seus nomes. Além da história do Bom Jesus, você também pode ler:

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