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Floresta: Conheça a história do bairro que foi polo da industrialização de Porto Alegre

Localizado entre o morro do Moinhos de Vento e a Orla do Guaíba, bairro foi berço do movimento operário e palco de revolta popular durante a Segunda Guerra

Antiga estrada da Floresta, que deu nome ao bairro, é a atual avenida Cristóvão Colombo
Antiga estrada da Floresta, que deu nome ao bairro, é a atual avenida Cristóvão Colombo Foto : Edemar Machado / CP Memória

Na paisagem da Porto Alegre do começo do século XX, destacavam-se no horizonte as chaminés das fábricas do bairro Floresta. Localizado no quarto distrito da capital, entre o morro do Moinhos de Vento e a orla do Guaíba, o bairro é margeado pela antiga estrada da Floresta - rebatizada de Cristóvão Colombo, em 1892. Estamos falando de uma Porto Alegre onde a área urbanizada se resumia ao que hoje é parte do Centro.

Há divergências sobre qual “floresta” deu nome à via e, posteriormente, ao bairro. Há quem diga que se tratava do mato do morro Ricaldone, no limite com o bairro Moinhos de Vento. E há referências de que a área de mata em questão fosse onde hoje é o Hospital Militar.

O início do desenvolvimento da região do quarto distrito remete a 1812, quando o então governador da Província, Dom Diogo de Souza, solicitou uma concessão de terra para desenvolver uma área agrícola, criar lotes e tentar atrair a população para o arrabalde, que era considerado afastado do centro da cidade.

Em 1874, começou a funcionar uma estrada de ferro ligando Porto Alegre a Novo Hamburgo. Por ela, chegaram a Porto Alegre imigrantes alemães, que aportavam no estado desde 1824. No fim do século XIX, surgem as primeiras fábricas, ligadas aos germânicos.

A cervejaria Bopp, inaugurada em 1881, pertencia a Frederico Cristofel. Em 1891, Ernesto Neugebauer inaugurou a fábrica de chocolates Neugebauer. A cervejaria Ritter foi criada em 1894, por Henrique Ritter. Mais tarde, as cervejarias Bopp, Ritter e Sassen se uniram sob a marca Continental, que foi adquirida pela Brahma em 1946. A edificação ainda está de pé e atualmente integra o complexo do Shopping Total.

O polo industrial contava também com fábricas de móveis, fogões, pregos, cigarros, entre outras. Foi criada no Floresta a maior fábrica de fogões da América Latina e primeira a fabricar fogões a gás no Brasil, a Wallig. A empresa foi fundada por Pedro Wallig em 1904 e produzia inicialmente camas de ferro.

A partir dos anos 1920, a urbanização

Mas o bairro não tinha apenas fábricas. Muitos operários viviam na região, em cortiços, condomínios populares e pequenas casas.

“A concentração no território aliou-se à identidade de uma cultura socioespacial operária a partir do início do século XX, de famílias que viviam em torno das fábricas que entrecruzaram paulatinamente a industrialização com a expansão urbana”, diz trecho do artigo “Formação heterogênea da paisagem e experiências urbanas no bairro Floresta”, de autoria de Luiz Henrique Apollo e Vitoria Gonzatti de Souza.

Um dos mais emblemáticos conjuntos habitacionais de trabalhadores é o Vila Flores. O espaço, que hoje abriga um centro cultural, foi projetado pelo arquiteto José Lutzenberger, e construído entre 1925 e 1928.

É a partir da década de 1920, na gestão do prefeito Otávio Rocha, que o poder público municipal começa a fazer melhorias no bairro, como o abastecimento de água tratada. No governo do intendente Loureiro da Silva (1937-1945), com o crescimento da indústria, aumentaram também os investimentos na área.

Foram construídos diques para evitar inundações. Em 1940, foi aberta a avenida Farrapos, facilitando o fluxo entre a zona industrial e o centro.

Vista do bairro Floresta em 1922 | Foto: CP Memória

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Berço do movimento operário

O bairro foi também berço do movimento operário na capital gaúcha. No artigo “Floresta, bairro operário e coração do movimento socialista em Porto Alegre”, o historiador Frederico Bartz destaca as primeiras organizações de trabalhadores da cidade.

É o caso da Allgemeiner Arbeiter Verein (Associação Geral dos Trabalhadores), de orientação social-democrata, que teve sua primeira sede permanente, em 1893. Já a Liga Operária Internacional reunia operários de diversas nacionalidades, na esquina da Ramiro Barcelos com a São Carlos.

“O arrabalde da Floresta, e mais especificamente o Salão Internacional na rua Ramiro Barcelos, foi um dos centros nevrálgicos da primeira Greve Geral de Porto Alegre, que mobilizou um grande número de trabalhadores e trabalhadoras durante mais de três semanas entre setembro e outubro de 1906”, diz trecho da publicação.

Retirada dos trilhos do bonde da avenida Cristóvão Colombo, em 1971. Ao fundo, o tradicional Bar e Restaurante Alfredo | Foto: CP Memória

Revolta popular definiu atuais nomes de ruas

Em agosto de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, o exército alemão atacou diversas embarcações brasileiras, incluindo navios de passageiros próximos da costa. A resposta oficial veio com a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo. A resposta popular veio em forma de revolta.

“Exaltada a revolta popular contra a agressão nazista”, noticiava o Correio do Povo. Nos dias 18 e 19 de agosto, uma horda marchou pelas ruas do centro e do quarto distrito deixando um rastro de depredação e saques a estabelecimentos identificados com os germânicos.

A Casa Lira, na Rua dos Andradas, foi um dos primeiros alvos. Reinaldo Langer, o proprietário, era “tido como um dos mais fortes adeptos do eixo e que quando pressentiu que os manifestantes se dirigiam para sua casa deu um viva à Alemanha, sendo por essa atitude, agredido por um grupo de populares”, noticiava o Correio do Povo, em 20 de maio.

A Casa Guaspari, na Borges de Medeiros, foi depredada e saqueada. Os proprietários chegaram a publicar um anúncio na capa do Correio do Povo esclarecendo que os sócios eram “brasileiros natos” e “reservistas do exército nacional”. O texto negava ainda boatos de que a sede da empresa escondesse uma estação de rádio.

Entre os estabelecimentos que escaparam do quebra-quebra estavam o Hospital Alemão, que havia adotado o nome de Moinhos de Vento, e a fábrica da Renner, que recebeu proteção policial. A sociedade Turnerbund tentou omitir a origem germânica, passando a se chamar Sociedade Ginástica de Porto Alegre (Sogipa), mas foi alvo de depredação da mesma forma. Na Sociedade Germânica, no Moinhos de Vento, a mobília foi retirada para o meio da rua e incendiada.

A região do quarto distrito, bastante ligada à comunidade germânica, também foi palco da quebradeira. Ruas que tinham nomes que remetessem aos alemães ou italianos foram rebatizadas com nomes de embarcações brasileiras afundadas na guerra. Alguns desses nomes ainda hoje são os nomes oficiais. Olinda substituiu a avenida Napolitana, Arabutan deu nome ao que antes era a rua Italiana e a avenida Germânia passou a se chamar Cairú.

Desindustrialização e decadência do comércio

Em meados da década de 1970, o bairro começa a viver um processo de desindustrialização. Com o fechamento das fábricas, veio também a decadência do comércio local. A região passou a contar com diversos vazios urbanos. As ruas pouco movimentadas da antes pujante área industrial passaram a ser ocupadas pela prostituição e pelo tráfico de drogas.

Atualmente, o Floresta concentra também um grande contingente de pessoas em situação de rua.

Em 2016, com a aprovação de uma nova lei de bairros em Porto Alegre, o bairro Marcílio Dias foi extinto, tendo sua área repartida entre Floresta, Centro, São Geraldo e Navegantes.

O atual desenho do bairro vai da avenida Cristóvão Colombo até a beira do Guaíba. A Cristóvão e um pequeno pedaço da rua Alberto Bins fazem divisa com os bairros Independência e Moinhos de Vento; a fronteira com o São Geraldo é marcada por trechos das ruas Consolação, do Parque, Conde de Porto Alegre, Almirante Tamandaré e Olinda; um trecho de duas quadras da Benjamin Constant faz a separação com o bairro São Geraldo; a elevada da Conceição e o Largo Vespasiano Julio Veppo separam o Floresta do Centro.

De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE), o bairro Floresta tem uma população de 8.798 moradores, o que representa 0,66% do total de Porto Alegre.

Vista da avenida Cristóvão Colombo, em 1971 | Foto: CP Memória

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