Depois de sofrer uma quebra de 67% na produção de azeites na safra 2023/2024, a olivicultura gaúcha vive uma situação atípica em relação a outras atividades agropecuárias no Estado, duramente atingidas pela catástrofe climática ocorrida em abril e maio. Diferentemente do cenário de outros setores, os índices pluviométricos e as temperaturas mensais registrados até o momento apontam para a possibilidade de uma recuperação da colheita e consequente maior oferta do óleo, a partir do primeiro trimestre de 2025. A avaliação é do presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura, Renato Fernandes.
“Ao contrário do ano passado, em 2024 as coisas estão acontecendo da maneira correta. Não houve uma estiagem muito forte nos três primeiros meses, e já começou esta incidência de frio desde o fim de maio. Junho tivemos frio. Julho está dentro do normal, do que precisamos”, diz Fernandes.
A alternância entre ciclos considerados ruins e outros bons, típica da fruticultura, também serve para Fernandes justificar o otimismo em relação ao que será colhido entre fevereiro e abril de 2025.
“Já era esperada uma quebra em 2024, pois 2023 foi muito bom. Em 2025, provavelmente, tenhamos uma supersafra novamente. É um processo natural da fruticultura. Na oliveira, mais ainda. É uma questão morfológica, da natureza da árvore. Ela se protege num ano para não exaurir toda sua potência. No outro ano, ela coloca o fruto à disposição novamente”, afirma Fernandes.
No início de 2023, de fato, a colheita generosa resultou na disponibilidade de 580.228 litros de azeite de oliva no Rio Grande do Sul. Um recorde. Depois, no decorrer do ano, o clima (veja o infográfico abaixo) não contribuiu para que os resultados se repetissem ou mesmo fossem superados. O excesso de chuvas, desde a floração até a colheita, foi o principal motivo que causou, em 2024, a baixa de 67% na produção do azeite, que ficou na marca de 193.150 litros. A quebra da safra foi anunciada em junho.
Avaliação cautelosa
O coordenador da Câmara Setorial das Oliveiras da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Paulo Lipp, e o gerente técnico estadual adjunto da Emater/RS-Ascar, Luís Bohn, são mais cautelosos em relação às perspectivas para o ciclo 2024/2025. Para Lipp, “é muito cedo para fazer uma previsão de volume de colheita. Para isto, seria necessário aguardar o comportamento do inverno e do clima durante a floração”, diz. Consideração similar é feita por Bohn. “Temos um momento delicado à frente, em relação à floração. Este é um momento que sempre foi delicado na olivicultura do Estado, pois é longo o florescimento das oliveiras, começa em setembro e vai até quase novembro, a umidade é um problema sério”, salienta. Para o diretor também é “meio cedo” para a previsão, embora considere que, em contraponto ao que afirma Fernandes, o clima não tem sido favorável à olivicultura. “Até agora, o que se sabe é que as plantas estão sofrendo. Isso é um fato, mas depende muito do clima daqui para frente”, pondera.
Mercado oportuno
Enquanto persiste a dúvida sobre os resultados futuros, os olivicultores gaúchos dedicam-se a vender o produto obtido com a última safra. Apesar da quebra, há o que vender, inclusive com maior possibilidade competitiva diante do produto importado. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o azeite adquirido no Exterior teve alta de 49,42% entre maio de 2023 e maio de 2024, em razão de escassez provocada por problemas climáticos na Europa. O Brasil é o segundo maior importador mundial e sétimo maior consumidor, de acordo com dados do Conselho Oleícola Internacional, mas com alta de preços do azeite estrangeiro, pode se tornar um mercado mais atraente para a olivicultura nacional.
“A produção caiu abruptamente no mercado mundial. Assim como subiu o preço do azeite importado, o nosso estabilizou. Então, hoje, nos supermercados, por uma diferença de R$ 10 a R$ 20, é possível comprar o azeite brasileiro, que é de primeira categoria, ao invés do importado, que é de segunda categoria”, diz Fernandes. O presidente do Ibraoliva afirma que, ao contrário do importado, o produto nacional é verdadeiramente extravirgem. “A informação do Ministério da Agricultura é que mais de 80% dos azeites importados são fraudados. Não são azeites extravirgens”, salienta.
Turismo rural melhora renda dos produtores
Criada em 2019, a Rota das Oliveiras reúne cerca de 40 municípios do Rio Grande do Sul, com, pelo menos, duas dezenas de empreendimentos de turismo instalados, os quais incluem comercialização, lazer e gastronomia
Para os olivicultores gaúchos, o investimento em ações e estruturas de turismo tem representado uma oportunidade de divulgar o azeite que produzem e uma alternativa de renda. No primeiro caso, um bom exemplo é a Estância das Oliveiras, em Viamão, enquanto a marca Amoliva, em Mariana Pimentel, constitui uma das mais novas iniciativas para a segunda situação. Hoje, no Estado, cerca de 40 municípios gaúchos integram a Rota das Oliveiras, com, pelo menos, o que representa cerca de 20 empreendimentos.
Distante 28 quilômetros de Porto Alegre, a Estância das Oliveiras é considerada o olival mais próximo de uma capital no Brasil. A plantação do pomar, hoje com seis mil árvores, começou em 2004. Em 2020, mesmo diante da pandemia da Covid-19, o empreendimento passou a dedicar-se também ao turismo. “Começamos a nos dedicar ao turismo ao perceber que o consumidor de azeite tinha poucas informações sobre o produto”, explica o sócio-diretor Rafael Goelzer. “Realizando atividades e experiências imersivas, conseguimos oferecer informações relevantes para que o consumidor, quando estiver diante da gôndola do supermercado, possa escolher o azeite com consciência”, diz.
As atividades referidas por Goelzer incluem visitas guiadas à plantação, com explanações sobre o trato cultural no pomar, manutenção das oliveiras, realização de podas e até a visualização de camadas subterrâneas do terreno por meio de uma trincheira de quatro metros de profundidade. Depois, os visitantes são conduzidos ao lagar, o local onde é produzido o azeite, e acompanham o processo desde a chegada das azeitonas ao engarrafamento do óleo, com direito, evidentemente, à degustação. A estância abre suas porteiras para eventos corporativos e festividades particulares, como casamentos. Durante o fenômeno climático de maio de 2024, a propriedade tornou-se uma espécie de base de apoio para equipes aéreas da Polícia Rodoviária Federal, que a utilizaram como heliponto e alojamento. De acordo com Goelzer, também houve a distribuição de 700 mil litros de água retirada de poços artesianos da propriedade, principalmente para hospitais da Região Metropolitana, e de lanches e refeições para moradores de Canoas e Eldorado do Sul.
Casa para locação
Em Mariana Pimentel, a psicóloga e olivicultora Greice Chini, sócia da Amoliva, prevê receber os primeiros hóspedes a partir de agosto. O empreendimento familiar, tal qual a Estância das Oliveiras, conta com uma casa especificamente para locação a visitantes interessados na experiência da produção de azeites. O imóvel, com capacidade para acomodar dez pessoas em dois quartos e outras seis camas distribuídas num mezanino, tem vista para o olival de seis mil a sete mil árvores, distribuídas em 21 hectares. Além de propiciar maior proximidade com o consumidor, a iniciativa tem o objetivo de aumentar a rentabilidade.
“Olivicultura requer muito investimento, com retorno a longo prazo. Alguns estimam que no décimo ou até no décimo quinto ano é que começa a haver retorno. Então, agregamos as atividades de turismo para obter lucro na propriedade e continuar investindo”, diz Greice. A plantação da Amoliva foi iniciada em 2017, com a segunda safra colhida em 2024 – faz parte do investimento aguardar cinco anos para que as oliveiras ofereçam seus primeiros frutos. “Compramos a propriedade pensando no plantio e numa ideia futura de turismo. Tanto que procuramos um local que fosse, aproximadamente, uma hora de distância de Porto Alegre”, acrescenta a empresária.
Feira da capital é experiência de sucesso
Um dos eventos mais importantes da olivicultura gaúcha comemorou cinco anos de existência no último dia 6 de julho. Trata-se da Feira do Azeite, realizada no primeiro e no terceiro sábado de cada mês, na sede da Secretaria de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), em Porto Alegre. O encontro permite ao visitante o contato direto com o olivicultor, recebendo informações sobre a produção e degustando blends e varietais.
“A maioria das pessoas não conhece os detalhes e, quando esclarecida, fica maravilhada e se torna cativa de um verdadeiro azeite extravirgem”, diz Paulo Lipp coordenador da Câmara e do Programa Estadual de Desenvolvimento da Olivicultura (Pró-Oliva). Lipp salienta que muitos consumidores, impressionados com a qualidade do azeite, expressam o desejo de visitar os olivais, buscando uma maior conexão com a origem do produto que levam para casa. “Mais feiras de azeite precisariam existir nas regiões produtoras” sugere o coordenador.
Em 2024, outros três eventos do setor estão previstos, de acordo com o presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura, Renato Fernandes. O primeiro ocorre na 47ª Expointer, com realização prevista do dia 24 de agosto ao dia 1º de setembro, em Esteio. “Vamos inaugurar a sede do Ibraoliva no Parque de Exposições Assis Brasil, junto à pista central e à tribuna de honra”, revela. Em outubro, desta vez em Guaíba, haverá a terceira edição da Olifeira. “É a maior festa do setor. Movimenta um comércio muito importante”, garante Fernandes. Finalmente, entre os dias 7 e 9 de novembro, ocorre a 3ª Festa do Azeite, em Caçapava do Sul. Distante 260 quilômetros de Porto Alegre, o município é um dos maiores produtores estaduais de azeite de oliva.
