Uma perspectiva robusta entra, efetivamente, em preparo no Rio Grande do Sul para a cultura da canola a partir de 21 de março. A data marca a orientação para o início do próximo ciclo de plantio, conforme o calendário proposto aos produtores rurais na portaria SPA/Mapa nº 26 do Programa Nacional de Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), Vantuir Scarantti, a expectativa é ampliar a área nacional de 186.240 hectares plantados no ano passado para 300 mil hectares somente no Rio Grande do Sul em 2025.
A canola surgiu como resultado do aprimoramento genético conduzido por pesquisadores canadenses, a partir do cruzamento seletivo de duas variedades de colza. Seu nome deriva da sigla CANadian Oil Low Acid. A progressão da cultura para áreas adicionais no Brasil é motivada pelo incremento na procura por óleo vegetal destinado a biocombustíveis, pela diversificação da produção agrícola e pelo potencial de rentabilidade da cultura em sistemas integrados. Em 2024, os gaúchos foram responsáveis por 179 mil hectares do cultivo da oleaginosa, o que representou 96,11% da área plantada no país.
Para este ano, o avanço da projeção para o Brasil representa um aumento de 61,8% − se consolidada a perspectiva no decorrer do período de plantio em 2025. “Nossa previsão é otimista e com crescimento rápido para os próximos anos, pois as cadeias (produtivas) estão sendo organizadas com treinamentos, novos híbridos, tecnologias, indústria e time técnico”, adianta Scarantti.
Nessa direção, o presidente da Abrascanola destaca que o novo Zarc é de suma importância para o planejamento da próxima safra e a segurança dos agricultores em relação ao futuro de suas colheitas. O programa auxilia o produtor rural a planejar e mitigar perdas na produção, além de dar instrumento e critério para agentes financeiros e instituições na concessão de crédito.
Scarantti recorda, por exemplo, a situação das adversidades climáticas que assolaram o Rio Grande do Sul no ano passado. “Houve atraso na semeadura, mas o produtor rural conseguiu pagar os custos e assegurar um valor residual”, afirma.
Nesse contexto, para a próxima safra, Scarantti recomenda algumas estratégias para abrandar possíveis impactos de eventos climáticos adversos. Entre elas, a divisão da semeadura em épocas diferentes. “Exemplo, de 20 de abril a 20 de maio a melhor época”, explica. O presidente da Abrascanola ainda acrescenta a importância de definição dos melhores híbridos conforme a região em que o plantio será realizado e chama a atenção para o acompanhamento dos custos de insumos, como o dos fertilizantes.
O coordenador técnico da Cotrijal, Alexandre Nowicki, também relata que o ano passado no Rio Grande do Sul foi desafiador, em geral, para os produtores rurais. “Não só para a canola mas para os cereais também, no quesito alto volume de chuvas. Muita precipitação no período de semeadura, nos meses de maio e início de junho”, lembrou, explicando que esses foram os motivos para a queda da produtividade.
“Foram quase 40 dias com uma luminosidade bem baixa, o que não favoreceu o correto desenvolvimento dessas plantas”, acrescenta. O técnico esclarece que a baixa luminosidade prejudicou a eficiência de alguns herbicidas aplicados para controle de plantas daninhas, principalmente, do azevém.
Conforme Nowicki, os associados da Cotrijal que cultivaram a canola tiveram produtividade bem variável, em virtude das condições climáticas nas regiões em que estão inseridos. “No geral, tivemos uma redução de pelo menos 30% na produtividade. Mesmo assim, a maioria dos produtores conseguiu pagar o custo de produção”, detalha.
O produtor Daniel Potrich Barzotto e seu pai Vicente Barzotto começaram a cultivar a canola no ano passado, no município de Colorado. Daniel relembra que as geadas impactaram os resultados da colheita nos 22 hectares cultivados, mas já planeja o próximo plantio. “Nós esperávamos colher umas 34/35 sacas”, destaca, complementando que para este ano possui 20 hectares disponíveis em virtude do “descanso” necessário da terra na rotação com o plantio de trigo.
O engenheiro agrônomo da Cotrijal, Ezequiel Castioni, acrescenta que a canola acaba sendo uma opção para os produtores rurais na estratégia da rotação das culturas. “Ela ajuda na limpeza de plantas daninhas na lavoura. Temos um problema muito difícil de controlar que é o azevém”, expõe.
Castioni diz que, financeiramente, a canola também se torna atrativa porque tem como vantagem sobre outras culturas o financiamento agrícola. “Então é possível fazer um custeio agrícola e com seguro, através do Proagro, que é via banco, ou através de algum seguro privado”, detalha.
O produtor rural Daniel, aponta ainda outro benefício.
“Tem quem compra a canola. Vai plantar uma aveia branca ou preta muitas vezes tu não tem comércio e a canola tem comprador”, afirma.
E, sendo assim, o engenheiro agrônomo destaca que tratam-se de compradores limitados, mas que como o Rio Grande do Sul ganhou uma expressividade no cultivo, acabam sempre surgindo novas empresas interessadas. “O mercado externo também já está olhando para a canola brasileira, o produto industrializado ou mesmo o grão in natura”, afirma, citando países do Oriente Médio e Japão.
Tropicalização da oleaginosa abre fronteiras
Novas cultivares e práticas aplicadas à cultura da canola vão facilitar o plantio do grão de inverno em regiões onde até hoje não era possível semear, ampliando a renda do agricultor em anos de prejuízo na soja
Sobre as perspectivas para a safra 2025, o coordenador técnico da Cotrijal, Alexandre Nowicki, afirma que muitos agricultores associados à cooperativa que já cultivam a oleaginosa darão prosseguimento ao cultivo em suas propriedades rurais esse ano. “Mas também estamos observando que outros produtores estarão levando a canola para ser mais uma opção de renda no inverno para suas propriedades, pelo fato de estarmos passando por mais um verão de dificuldades”, explica Nowicki diz que o objetivo é compensar as perdas na safra da soja em virtude da estiagem que impacta metade do território do Rio Grande do Sul.
O coordenador ressalta que o trigo, a cevada e a canola são algumas das alternativas de cultivo.
“Teremos um aumento significativo de área para a oleaginosa, de pelo menos de 15% a 20%”, adianta.
Segundo ele, no ano passado em torno de 4 mil hectares de canola foram plantados pelos associados da cooperativa. “É ainda uma área pequena, mas nós estamos fomentando o plantio”, afirma, que vê o interesse dos agricultores por informações aumentar conforme o tempo passa.
“É uma cultura que traz rendimentos para a propriedade, que pode ser representativa em termos financeiros, dependendo da área”, explica. Nowicki alerta, contudo, que o cultivo da canola não é adequado para todas as regiões e todos os produtores do Rio Grande do Sul, em função da limitação de altitude, clima e frio.
Nowicki antecipa que a Cotrijal prepara-se para desenvolver trabalhos de pesquisa com diferentes cultivares da canola em períodos distintos da sua semeadura no decorrer de 2025. Os estudos irão contemplar produtividade, manejo de doenças, aplicação de diferentes fungicidas e herbicidas e seletividade da cultura.
O chefe-adjunto de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola, explica que a oleaginosa nacional apresenta particularidades em comparação com a plantada em países como a Austrália, o Canadá, os Estados Unidos e na União Europeia.
“Enquanto os principais países produtores cultivam a canola em climas temperados e subtropicais, no Brasil, a planta precisa se adaptar a condições tropicais e subtropicais, caracterizadas por temperaturas mais elevadas, além de desafios como possíveis déficits hídricos e ocorrência de geadas em determinadas regiões”, detalha.
Laviola também cita alguns dos problemas fitossanitários para os produtores nacionais. No Brasil, salienta, a diversidade de insetos e patógenos devido ao clima mais quente exige estratégias diferenciadas de manejo e melhoramento genético. “No entanto, quando comparada a outras culturas, como o milho de segunda safra, a canola apresenta menor incidência de pragas e doenças, o que pode favorecer sua adoção em sistemas produtivos”, destaca.
O chefe-adjunto de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia acrescenta que, além do Rio Grande do Sul, que é o maior produtor, outros estados vêm demonstrando potencial de expansão da cultura. Laviola cita que Paraná e Santa Catarina, por exemplo, apresentam condições agroclimáticas favoráveis e sistemas agrícolas avançados, já contando com algumas áreas de cultivo.
Ao avançar no mapa do Brasil, aponta ainda Mato Grosso do Sul e São Paulo. “Mostram interesse crescente na cultura, especialmente pelo potencial de uso da canola como plantio de inverno em rotação com a soja”, explica. Distrito Federal e Cerrado do Brasil Central possuem grande potencial de expansão em função de ‘janelas’ de plantio específicas que podem ser exploradas com cultivares adaptadas.
“A tropicalização da canola, com novas variedades e práticas agrícolas adequadas, pode viabilizar a sua produção nessas regiões”, detalha.
Do campo à fábrica, a aposta é biocombustível
Indústria oferece sementes da canola para os produtores de olho na produção de biodiesel e de farelo, mas também entende a cultura como perfeitamente adaptada às condições de plantio da maioria das propriedades gaúchas
A companhia 3tentos já está projetando a safra de 2026 e anunciou em janeiro que está oferecendo a semente da canola aos produtores rurais com o objetivo de utilizar o grão na produção de biodiesel e farelo no próximo ano em sua planta fabril, em Ijuí. A prática, denominada barter, é explicada pelo chief operating officer (COO) e cofundador da 3tentos, João Marcelo Dumoncel. “O sistema nada mais é do que proporcionar para o produtor um pacote de insumos, sementes, fertilizantes e produtos de proteção de cultivos, e até mesmo seguro, em troca do recebimento de um volume ‘x’ de sacas de canola, de acordo com o pacote que o produtor decidir, de média, alta ou baixa tecnologia”, detalha.
Para ele, a cultura da canola não é a solução de todos os problemas do cultivo de inverno, mas vai trazer oportunidades complementares.
“Se encaixa, perfeitamente, dentro do sistema de produção da propriedade agrícola do produtor gaúcho. Lógico, dependendo da geografia, alguns espaços do território do Rio Grande do Sul precisam ser mais explorados, com maior conhecimento, se podemos avançar ou não. Mas, na grande maioria do território, é uma cultura que pode se adaptar”, avalia.
Dumoncel garante que a canola não vai tirar lugar do trigo, das forrageiras, da pecuária, mas vai contribuir para a geração de renda e até a otimização do processo produtivo dentro da propriedade.
De acordo com o diretor de Marketing da 3tentos, Alan Araldi, houve outros momentos que a cultura da canola esteve em evidência no Rio Grande do Sul. “O que no passado não teve que, agora, enxergamos que vai ser diferente? A canola sempre teve demanda de mercado e liquidez. No entanto, era mais difícil encontrar locais de entrega do grão, eram poucas empresas que recebiam”, recorda, complementando que a 3tentos, atualmente, tem capilaridade de recebimento da oleaginosa, além de prover insumos, assistência técnica e pesquisa dentro da estrutura de PDI (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação) para o cultivo.
Desta vez, segundo Araldi, os desafios são distintos. “A canola não deve ser encarada como uma bala de prata, como uma cultura que vai resolver o cultivo de inverno do Estado, mas sim como mais uma alternativa, assim como Centro-Oeste tem a safrinha. Acreditamos que, junto com o trigo, a canola pode se tornar uma boa alternativa de renda para o produtor e de mitigação de risco, sendo uma forma de conseguir mobilizar o ativo”, pontua. Ele acrescenta na lista de desafios os cuidados técnicos de implantação da cultura como base para o sucesso do produtor rural.
Sobre a fábrica em Ijuí, o COO e cofundador da 3tentos, Dumoncel, explica que a mesma vai passar a ser flexível, atuando com a soja e a canola. “Estamos fazendo algumas adaptações na planta industrial para que permita fazer essa alteração para uma “planta flex”, que vai nos possibilitar fazer o processamento da canola”, ressalta. Isso será feito com a adição de alguns equipamentos para fazer essa adaptação. Conforme pesquisas da 3tentos, a canola proporciona 43% de óleo na extração, contra cerca de 20% em média da soja, e oferece o mesmo rendimento no combustível.
Processadora pioneira no Brasil operará em São Luiz Gonzaga
Em junho, a Celena Alimentos e a Camera Agroindustrial dão início à operação de processamento de canola no município gaúcho de São Luiz Gonzaga, onde terão início as operações da planta, que passará a ser a primeira do Brasil dedicada exclusivamente para a oleaginosa. De acordo com o diretor de Commodities da Camera Agroindustrial, Júnior Almeida, a operação ocorrerá na modalidade de tolling na qual a empresa prestará serviços de industrialização para a Celena, além de operar uma parte da capacidade com sua produção própria de canola.
A Camera já conta com uma estrutura industrial e de armazenagem em São Luiz Gonzaga, na região das Missões, dedicada à soja. A planta está em operação para processamento de até 1.500 toneladas do cereal ao dia, o que facilita as operações de recepção e beneficiamento da canola, industrialização e expedição dos produtos quando acabados.
“Em função dessa grande operação de soja existente, formou-se na região uma importante rota logística para o Porto de Rio Grande, a qual potencializa o escoamento da produção do complexo”, explica o diretor Júnior Almeida.
Júnior Almeida adianta que a capacidade instalada inicial da fábrica para o processamento da canola será de 700 toneladas por dia, equivalentes a aproximadamente 11.600 sacas de 60 quilos, ou 23 carretas do produto a cada dia de produção. “Já estão previstos futuros investimentos que poderão elevar essa capacidade para até 1.000 toneladas por dia, o que deverá ocorrer ao longo dos próximos anos de acordo com a expansão da cultura na região”, antecipa.
Conforme Júnior Almeida, atualmente o processamento de canola no Brasil vem sendo realizado de forma intermitente em plantas de processamento de soja adaptadas para produção sazonal de canola, gerando ineficiências e oferta irregular de óleo e farelo no mercado.
Segundo o presidente da Abrascanola e também gerente Senior da Celena Alimentos, Vantuir Scarantti, atualmente a empresa processa 80 mil toneladas ao ano de soja e com o início da operação na planta em São Luiz Gonzaga terá capacidade para processar 330 mil toneladas ao ano. “A fábrica será multi-seed (mistura de sementes e flocos). O principal produto será o grão de canola, podendo também ser industrializadas outras brássicas”, explica.
A Celena Alimentos atua no mercado interno e também exporta farelo da oleaginosa para o Uruguai, Arábia Saudita e Vietnã. “Ter uma fábrica exclusiva para o processamento de canola baseia-se na decisão da empresa em dar maior competitividade ao mercado, além do aumento do plantio da cultura, juntamente com a alta da demanda do óleo e do farelo de canola, no Brasil e no exterior”, finaliza.
