O mercado brasileiro de espumantes vive um momento de transformação. Tradicionalmente associada às festas de fim de ano, a bebida vem conquistando novos espaços na rotina dos consumidores. A mudança reflete uma percepção mais madura sobre a categoria e aponta para a consolidação de um mercado que une qualidade, diversidade e democratização do acesso.
“O espumante deixou de ser uma bebida voltada apenas às celebrações e passou a ocupar espaço no cotidiano dos brasileiros”, afirma Pablo Onzi Perini, diretor de Marcas e P&D e sommelier da Casa Perini.
Segundo ele, essa transformação tem como protagonistas os moscatéis, que funcionam como porta de entrada para consumidores que não eram familiarizados com o universo, “permitindo uma descoberta gradual de outros estilos e ampliando o gosto por diferentes tipos de espumante”, completa.
Com dezembro batendo à porta e as prateleiras já se preparando para as festas de Natal e Ano Novo, o Bella Mais aproveitou o momento para desvendar o universo dos espumantes. Das classificações aos processos produtivos, passando por harmonizações inusitadas e mitos que ainda cercam a bebida, produzimos um guia completo com tudo o que você precisa saber para escolher a melhor opção para essa virada e, quem sabe, criar o hábito de brindar ao longo do ano todo.
Para início de conversa, Pablo conta que a história do espumante começou surpreendentemente com um erro. No inverno francês do século XVII, produtores da região de Champagne engarrafaram vinhos acreditando que a fermentação havia terminado. E a surpresa não poderia ser maior: com a chegada da primavera, o calor reativou as leveduras restantes, gerando gás carbônico e formando o perlage, as famosas borbulhas. O que era inesperado virou técnica refinada e deu origem ao glamour que conhecemos hoje.
Já no Brasil, a tradição iniciou-se em solos gaúchos, no século XX, em Garibaldi. O clima e a herança italiana criaram o ambiente perfeito para vinhedos que hoje produzem espumantes reconhecidos internacionalmente.
“O Brasil se destaca por oferecer produtos de alta qualidade, com estilos leves, frescos e acessíveis”, explica. “Essa versatilidade consolidou nosso país como referência no cenário internacional”.
No entanto, antes de escolher a garrafa perfeita para sua próxima celebração (ou para um dia comum no meio da semana), é importante lembrar-se de que todos os espumantes têm borbulhas, mas nem todo espumante é Champagne. O termo “Champagne” é exclusivo da região francesa, enquanto “espumante” é a categoria geral da bebida.
A classificação dos espumantes segue convenções francesas e indica o grau de doçura da bebida. Entenda:
Ainda assim, algumas variedades acabaram se tornando sinônimo de determinados estilos, mais por tradição de mercado do que por regra técnica. Aqui no Brasil, os moscatéis ilustram bem esse fenômeno. As uvas da família Moscato, reconhecidas por sua riqueza aromática e intensidade de perfume, conquistaram o paladar brasileiro justamente na categoria dos espumantes doces, onde conseguem equilibrar dulçor e acidez de forma harmoniosa.
Já os rótulos que ficam entre Nature e Demi-sec costumam ser desenvolvidos com diferentes castas, como Chardonnay, Pinot Noir, Prosecco (Glera), etc., variando conforme o terroir e a proposta do produtor.
“Qualquer variedade de uva pode virar espumante”, revela Pablo. “O que determina se será mais seco ou doce é a decisão do enólogo durante a produção, especialmente no controle da fermentação e na quantidade de açúcar residual”.
Entendendo como a mágica funciona
O segredo do perlage está na fermentação. Quando as leveduras consomem o açúcar natural da uva, transformam-no em álcool e gás carbônico. “Durante a produção, o profissional controla o processo para manter o gás na bebida, ao contrário dos vinhos, ditos em termos técnicos ‘tranquilos’ (os sem gás), em que ele é liberado”, detalha o sommelier.
Na prática, isso significa que a verdadeira “mágica” vem da combinação entre técnica refinada e tradição histórica. Esse legado ajudou a manter o espumante, por muito tempo, associado quase exclusivamente ao luxo, e também explica por que esse cenário começou a mudar.
Pablo afirma que a origem ligada às cortes francesas dos séculos XVII e XVIII, quando o espumante era servido em festas e cerimônias para aristocratas e autoridades, consolidou sua associação com momentos de celebração e status. Em um período em que produzir a bebida exigia mão de obra especializada, cada garrafa era rara e cara.
Mas com o avanço da tecnologia e a profissionalização das vinícolas, desencadeando em processos mais precisos, controle de qualidade e ampliação da produção, o espumante acabou se tornando mais acessível, sem perder o cuidado técnico.
“Hoje ele continua ligado ao glamour, mas ganhou um caráter mais democrático e versátil, podendo estar presente no dia a dia e harmonizar com os mais variados tipos de refeições”, explica o sommelier. “Como dizemos na Casa Perini, ‘especial é o agora’, tendo o espumante como agente de transformação do momento e não apenas esperando uma situação especial como o final do ano para “poder brindar”.
E, contrariando um dos maiores mitos relacionados à bebida, o especialista diz com tranquilidade que “um bom espumante não precisa, necessariamente, ser caro”. Pablo destaca que há produtos de qualidade em diversas faixas de preço, o que muda é o nível de complexidade, a matéria-prima e o tipo de elaboração. A avaliação técnica de enólogos e sommeliers leva em conta fatores como intensidade aromática, perlage e ausência de defeitos, critérios úteis para quem quer se aprofundar, mas que não deveriam afastar quem está começando a explorar o universo das borbulhas.
Outro ponto em que o mito fala mais alto é sobre o modo de conservação. Dentre os truques mais comuns, colocar uma colher no gargalo da garrafa aberta para manter o gás, por exemplo, não funciona.
“O correto é utilizar tampas de pressão, que de fato ajudam a preservar o gás carbônico, essencial para manter o frescor e a vivacidade do espumante”, orienta.
Armazenar garrafas deitadas, como se faz com alguns vinhos tranquilos, também não é o ideal. No caso das borbulhas, a recomendação é guardar as garrafas em pé. A pressão interna do gás já atua como barreira contra a entrada de oxigênio, preservando o produto sem fazer com que o líquido com gás interaja com as substâncias que compõem a rolha.
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Harmonizações que fogem do óbvio
Se o espumante carrega sofisticação como herança, na mesa ele ocupa um papel super versátil, conversando muito bem com situações e pratos bem mais informais.
“Os espumantes dão match com diversos tipos de legumes, vegetais, oleaginosas, risotos e massas leves”, afirma. As versões Brut rosé, por exemplo, combinam com o galeto e com a polenta frita ou “brustolada (tostada ou grelhada)”.
Em terras gaúchas, o espumante também pode ser um bom par para os clássicos do cotidiano: o xis e o churrasco. Em ambos os casos, a bebida ajuda a “cortar” a gordura e “limpar” o paladar, preparando para a próxima mordida sem pesar, conforme explica Pablo.
Agora, se a programação da noite é uma sessão de filmes em casa, uma boa pipoca crocante com manteiga e espumante gelado entrega uma harmonização simples e eficiente, com cara de ritual de fim de dia.
No campo dos estilos doces, os moscatéis são descritos como “pau para toda obra” quando o assunto é sobremesa. Eles funcionam bem com doces de texturas crocantes e cremosas, sobremesas com frutas e preparos agridoces, inclusive nos pratos clássicos de final de ano, como aves ou suínos servidos com frutas em calda, chutneys ou geleias. Também se destacam nas harmonizações por contraste, especialmente com queijos azuis.
Além do uso mais frequente no dia a dia, o universo dos espumantes também vem se diversificando em termos de estilo. Entre as principais tendências, Pablo destaca o crescimento contínuo dos rosés, que ganharam espaço nas cartas e nas mesas brasileiras.
Um exemplo é o Casa Perini Aquarela, que completou 25 anos com uma edição comemorativa, trazendo rótulos ilustrados pelo artista Antonio Giacomin e reforçando a brasilidade e o terroir serrano.
“Além dos rosés, cresce o interesse por estilos antes considerados de nicho, como os espumantes Nature, extremamente secos”, aponta Pablo.
Outra tendência importante é a busca por bebidas com menor teor alcoólico, caso dos moscatéis, que têm entre 7,5% e 8% de álcool. Eles se destacam pela leveza e pela acessibilidade, especialmente quando combinam dulçor e acidez refrescante.
Dica final para servir como um expert
Depois de escolher o espumante ideal, chega a hora de servi-lo, e esta etapa também guarda alguns segredos que fazem toda a diferença. Confira:
👉 Como abrir a garrafa
O ideal é que a garrafa esteja bem gelada, por volta de 6°C, sempre armazenada em pé. Antes da abertura, coloque-a em um balde com gelo e água em partes iguais, o que ajuda a resfriar uniformemente e facilita a retirada da rolha.
Na hora de abrir, mantenha a garrafa inclinada e segure firmemente a rolha com o polegar. Afaste e gire o arame da gaiolinha, mas não a remova completamente. Depois, gire a garrafa para um sentido e a rolha (com a gaiola junto para dar mais atrito) para o outro, em movimentos alternados, horário e anti-horário. Deixe que a pressão interna empurre a rolha lentamente. Caso a bebida for esfriada apenas na geladeira, basta regulá-la para temperatura bem baixa e abrir da mesma maneira. A rolha apenas ficará um pouco mais “firme” na retirada.
“O objetivo é ouvir apenas um leve suspiro, não um estouro. Quanto menor o ruído, menos gás se perde, preservando a efervescência e a qualidade até o último brinde”, explica Pablo.
👉 A temperatura também importa
A temperatura influencia diretamente tanto a abertura quanto a degustação. Com a bebida resfriada, a pressão interna diminui, tornando mais seguro abrir a garrafa. Vale lembrar também que alguns estilos mais elaborados revelam notas aromáticas mais amplas quando não estão muito frios, mas a recomendação geral é começar gelado e deixar a bebida se abrir naturalmente na taça.
👉 Escolhendo as taças
O formato da taça também influencia a experiência. O especialsita explica que a taça flute, mais fina e alongada, realça o visual das borbulhas e conduz o frescor diretamente ao fundo da boca. Já as taças mais bojudas, como as de vinho branco, ampliam a percepção dos aromas e proporcionam uma degustação mais completa. Para quem quer versatilidade sem investir em vários tipos, taças de bojo médio funcionam bem para praticamente todos os estilos.
No serviço, a taça nunca deve estar gelada, apenas limpa e seca, para não prejudicar os aromas. Ela deve ser inclinada para que o espumante escorra pela parede interna, reduzindo o impacto e evitando a perda de gás. “O ideal é preencher cerca de um terço da taça, permitindo a liberação controlada dos aromas e facilitando a apreciação olfativa”, complementa.
*Sob supervisão de Mauren Xavier
