Adriana Haas

As pequenas decisões crescem na maturidade

Adriana Haas reflete sobre como pequenas escolhas da rotina ganham peso na meia-idade e ajudam a abrir caminho para decisões maiores

Adriana Haas propõe um olhar sobre as pequenas escolhas da meia-idade e como elas podem influenciar saúde, relações e bem-estar ao longo dos anos
Adriana Haas propõe um olhar sobre as pequenas escolhas da meia-idade e como elas podem influenciar saúde, relações e bem-estar ao longo dos anos Foto : Magnific / Divulgação / CP

Uma mulher com pouco mais de 50 anos me disse estar “em frangalhos”: acima do peso (e, por isso, sentindo-se desconfortável no próprio corpo), pré-diabética, com muitos sintomas da menopausa, um casamento que perdeu a graça e um trabalho que, junto com os cuidados da casa, consome todo o seu tempo, deixando quase nada para o lazer, as amizades e o autocuidado. E já antevê o pior para os próximos anos, pois terá que se dedicar mais aos pais envelhecidos.

É tanta coisa para decidir todos os dias, conta ela, que não consegue decidir nada. Sabe que precisa fazer atividade física e ter uma alimentação saudável, mudar alguns hábitos para dormir melhor, evitar o estresse cotidiano, diminuir o tempo de tela – mas tudo segue como está. Da mesma forma, decisões maiores, relacionadas com a insatisfação no casamento e no trabalho, acabam ficando em banho-maria.

Essa é a situação em que muitas mulheres de meia-idade se encontram – e por isso ela vem sendo chamada pelos especialistas de “a hora do rush da vida”: um período em que decisões grandes e pequenas se comprimem. É preciso decidir como cuidar do corpo justamente quando a menopausa traz mudanças que não estavam no roteiro; reorganizar a vida profissional enquanto as demandas da casa continuam; encontrar espaço para si quando damos atenção para pais e filhos. E algumas decisões parecem até contraditórias: queremos mais tempo para cuidar de nós mesmas, mas também estar presentes para as pessoas que amamos; temos que reduzir o estresse, mas as responsabilidades não podem ser suspensas; desejamos mais tempo para as amizades, mas a agenda já parece cheia demais.

Veja Também

Nesse contexto, a resposta mais comum é colocar as pequenas decisões no piloto automático e deixar as grandes para depois. É uma solução que funciona no curto prazo, mas não beneficia a saúde e a satisfação com a vida a longo prazo. Além de desenhar os anos que temos pela frente, as escolhas discretas sobre comer, movimentar o corpo, dormir, descansar e passar tempo com quem amamos afetam nossa mente e emoções agora. Quando essas pequenas decisões não são tomadas, temos menos energia e clareza para ponderar e agir sobre as grandes – e sentimos como se estivéssemos à deriva, sem nenhum controle sobre nossas próprias vidas.

“Ok”, diz a mulher. “Mas como vou arrumar tempo para isso?” É uma pergunta tão individual que a única resposta genérica possível é: com criatividade. Se olharmos nossas agendas sob a perspectiva de quem participa ativamente da própria vida, podemos até descobrir formas de “associar” as decisões. Por que não convidar as amigas para fazerem juntas uma atividade física? Ou consultar uma nutricionista enquanto espera pela consulta de seu pai? Talvez seja possível transformar uma caminhada com o marido em uma conversa sobre a relação.

Embora seja “a hora do rush”, a meia-idade também é, comprovadamente, a fase em que tomamos as melhores decisões – e podemos usar essa vantagem começando pelas escolhas “pequenas”. Quando o tempo já não parece ilimitado, elas deixam de ser rotas alternativas e passam a ser o caminho até as grandes.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.