Adriana Haas

Envelhecer: é castigo ou bênção?

A colunista Adriana Haas reflete sobre como o etarismo molda a relação das mulheres com o tempo e propõe um novo olhar sobre o envelhecer

O envelhecimento também pode ser lido como permanência, experiência e transformação, longe dos estereótipos que associam idade à perda de valor
O envelhecimento também pode ser lido como permanência, experiência e transformação, longe dos estereótipos que associam idade à perda de valor Foto : Magnific / Divulgação / CP

Uma atriz famosa disse em uma entrevista que envelhecer é o castigo do ser humano. Para alguém que, há um ano, saía de uma quimioterapia, sem cabelos ou certeza de remissão, essa frase pegou em um ponto delicado: se cada ruga que aparece no meu rosto é prova de que permaneço viva, a passagem dos anos me soa mais como bênção do que como punição.

Mas minha percepção não se apoia apenas na experiência pessoal. Há estudos mostrando que uma perspectiva positiva sobre o envelhecimento está associada a viver mais e melhor.

A pesquisadora Becca Levy, de Yale, acompanhou pessoas com mais de 50 anos por até 23 anos e descobriu que aquelas que tinham uma visão mais positiva sobre o próprio envelhecimento viveram, em média, 7,5 anos a mais do que as que tinham uma visão negativa. Os efeitos não param na longevidade: pessoas com crenças otimistas sobre a idade também apresentam melhor desempenho de memória e níveis mais baixos de estresse, entre outras vantagens.

Levy sugere até que parte dos problemas que atribuímos “naturalmente” ao envelhecimento está, na verdade, relacionada aos estereótipos negativos que absorvemos sobre a velhice. Mas também não é apenas uma questão de dados. Quando tratamos o envelhecimento como castigo, corremos o risco de caminhar de braços dados com o ressentimento.

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Uma mulher que encara cada aniversário como derrota sofre duas vezes: pelo tempo que passa e pela resistência a algo que não pode impedir, pois ele segue na mesma velocidade para quem aceita e para quem resiste. A diferença é que quem se ressente cobra da vida uma satisfação que ela não dá a ninguém – e acaba convivendo com a amargura, como se algo lhe tivesse sido tirado.

Ainda que eu não concorde com a opinião da atriz, compreendo de onde vem seu sentimento. Ela, uma mulher de 59 anos que sempre foi belíssima, construiu sua carreira em uma indústria que costuma reduzir o espaço das mulheres à medida que elas envelhecem.

Os papéis se tornam secundários, o protagonismo diminui, como se depois de certa idade já não houvesse histórias que merecessem ser contadas por elas. O que acontece nessa indústria é uma amostra bastante representativa do que ainda vemos na sociedade: a juventude continua sendo tratada como um capital social tão valioso que envelhecer passa a ser percebido como um castigo. Essa lógica, felizmente, começa a ser questionada pelas próprias mulheres.

Não nego que envelhecer é difícil. É um processo com perdas e lutos consideráveis, com dores exacerbadas pela perspectiva social sobre o envelhecimento. Passamos a vida inteira celebrando o novo e descartando o velho (incluindo as pessoas).

Então, quando enxergamos a passagem do tempo no próprio espelho, é natural que o etarismo internalizado se volte contra nós. A alternativa ao envelhecimento não é a juventude: é a morte. E, garanto, ela não é muito sedutora.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.