Elisa Fernandez

Rastros que ninguém vê

Elisa Fernandez mostra como antigos hábitos ressurgem na era digital, mostrando a busca por autocuidado genuíno, longe do olhar alheio

Entre rituais antigos e hábitos que voltam pelas redes, o perfume nos pés vira símbolo de um cuidado feito para si, sem plateia
Entre rituais antigos e hábitos que voltam pelas redes, o perfume nos pés vira símbolo de um cuidado feito para si, sem plateia Foto : Canva / Divulgação / CP

Cara leitora,

Um hábito de séculos virou trend do Instagram. Vídeos ensinando a passar perfume nos pés somam milhões de visualizações. A internet descobriu, de novo, algo que a humanidade já sabia fazer.

Não é a primeira vez. Toda semana um ritual antigo reaparece com roupagem nova. Chá de ervas vira "protocolo noturno". Escrever à mão vira "journaling". Caminhar sem celular vira "hábito de alta performance". A pergunta não é porque esses hábitos existem. É porque estamos com tanta fome deles agora.

Eu tenho falado aqui, com uma insistência quase teimosa, sobre a necessidade da pausa. Fomos ensinados que conquista é sinônimo de sobrecarga. Que descanso é para quem já chegou lá. Que parar é perda de tempo. Vivemos anos inteiros operando nessa lógica, até o corpo começar a cobrar a conta.

E é aí que entra o ritual. Não como produtividade disfarçada, mas como o oposto dela. Um gesto pequeno, sem meta, sem métrica, que existe só para marcar uma passagem. Para dizer: agora eu paro, ainda que por trinta segundos.

Seja na meditação, yoga, pilates, corrida, mindfulness, a verdade é que os rituais estão sendo redescobertos. Um deles, desses que estão viralizando, é o hábito de passar perfume nos pés. Um hábito que ninguém repara nem nunca vai reparar. E talvez seja exatamente por isso que eu continuo fazendo.

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Um hábito antigo, que atravessa culturas e séculos, e que carrega mais peso simbólico do que qualquer trend deveria carregar. Se pararmos para pensar, são os pés que te levam, que te tiram, que decidem o rumo. E nem sempre esse gesto precisa ser simbólico ou alicerçado na religião para se sustentar.

Vivemos cercados de gestos que existem para serem vistos. A postagem, a legenda, a foto do café da manhã bem servido. Tudo tem plateia. Tudo pede aprovação. Então quando um hábito invisível como esse viraliza nas redes, vale parar e perguntar: por que estamos tão sedentos de um gesto que ninguém vê?

Talvez porque a gente esteja cansado de fazer tudo para os outros. Talvez porque cuidar do que é invisível seja a última forma de respeito que sobrou intacta, a única que não pode ser fabricada para parecer bonita no feed. Não a boca, não o rosto, não a imagem que você constrói. Cuidar dos pés sem que ninguém saiba é dizer: eu não preciso de testemunha para me tratar bem.

E aí me veio a pergunta na cabeça: do quanto efetivamente nos cuidamos para nós mesmos ou nos cuidamos para que os outros vejam?

Quando criança ouvia com frequência que meninas não podiam sair com calcinha velha na rua, e idem os meninos com cueca, porque se fôssemos atropelados o que os médicos e enfermeiras veriam no hospital. Você passou por isso também?

É inegavelmente estranho pensar que naquela época os mais velhos se preocupavam mais com nossas roupas íntimas do que com a saúde e os possíveis danos do "tal" atropelamento. E que isso é algo que nos damos conta na vida adulta, porque quando crianças não sei dizer se tínhamos mais medo do atropelamento ou da reação de nossas mães se realmente fôssemos atropelados com roupas íntimas “esfarrapadas”.

Mas o curioso e ver como sempre nos ensinaram a nos cuidar pensando no olhar do outro, e raramente pensando em nós mesmos primeiro. O perfume nos pés talvez seja isso: o gesto contrário. Feito para ninguém ver.

E você, o que faz hoje que é só seu, sem plateia nenhuma

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.