Elisa Fernandez

Ah, o mar... o lugar aonde o corpo chega na frente

Elisa Fernandez reflete sobre como o contato com o mar desperta memórias, reduz o estresse e ajuda a recuperar calma e bem-estar

O contato com o mar pode despertar memórias, trazer sensação de calma e contribuir para o bem-estar físico e emocional
O contato com o mar pode despertar memórias, trazer sensação de calma e contribuir para o bem-estar físico e emocional Foto : Magnific / Divulgação / CP

Cara leitora,

Ah, o mar!

Semanas atrás assisti a um especial lindo no qual a família Caymmi fazia uma homenagem a Dorival Caymmi, aquele que foi conhecido como o "lobo do mar" da nossa MPB.

No especial, filho e neta cantando juntos. Lindo de viver. E agora, nesses dias frios, e com muita chuva é quase impossível não bater aquela "saudade" do mar.

Dorival foi, sem dúvida, o homem que cantou o mar, seus mistérios e amores como poucos fizeram. Músicas que atravessam gerações, que são como herança e ativam nossa memória afetiva.

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Acredito que, principalmente quem mora no litoral, durante o inverno é impossível não ficar numa espécie de contagem regressiva para o próximo dia de sol. Aquele dia ensolarado para dar um bom mergulho no mar.

Você sabia que o corpo já sabe, antes de qualquer previsão do tempo, o que vai sentir quando pisar na areia? E não é força de expressão.

Pesquisas sobre ambientes marinhos vêm mostrando associações entre alguns minutos de contato com esses espaços e redução do estresse e melhora do bem-estar. O corpo relaxa antes da mente decidir relaxar. Ele não espera permissão. Ele não espera você organizar os pensamentos, fechar o e-mail, terminar a lista. Ele simplesmente relaxa.

Lulu Santos, em “Como uma Onda”, já cantava essa ideia antes da ciência dar nome a ela: a vida vem e volta em movimento contínuo, sem pedir licença, sem esperar a gente decidir. O corpo entende isso antes da cabeça, porque o corpo, assim como o mar, não para para pensar. Ele simplesmente segue.

Achei essa informação fascinante. Porque a gente vive numa lógica em que tudo passa pela cabeça primeiro. Decide, depois sente. Pensa, depois age. E o mar desmonta essa ordem.

Quando nos aproximamos do mar, o ar muda, a brisa fica diferente, o som das ondas começa a chegar. E há o cheiro, que ativa uma ligação direta entre o olfato e as áreas do cérebro responsáveis pela memória e pelas emoções.

Talvez seja por isso que algumas lembranças não precisem de fotografia. Basta um cheiro, uma música, uma temperatura, uma determinada luz. O corpo guarda lugares de um jeito que a cabeça não consegue arquivar. E o mar parece ter esse poder de acessar uma memória que não é necessariamente de um dia específico, mas de uma sensação: férias, infância, liberdade, silêncio, aventura, um mergulho depois de um dia difícil. É como se, diante do mar, a gente não apenas lembrasse de alguma coisa. A gente se lembrasse de quem era quando estava ali.

O biólogo marinho Wallace J. Nichols chamou essa relação de Blue Mind: aquele estado de calma, atenção e bem-estar que a proximidade da água pode despertar.

Eu penso muito nisso quando fecho um contrato difícil, quando decido não continuar num caminho que já não fazia mais sentido. Quase nunca a decisão nasce na cabeça primeiro. Ela nasce em algum lugar do corpo, um aperto, um alívio, uma vontade de respirar fundo, e a cabeça só vem depois para explicar o que o corpo já sabia.

E você? Quando foi a última vez que o seu corpo decidiu antes de você?

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.