Cara leitora,
Ah, o mar!
Semanas atrás assisti a um especial lindo no qual a família Caymmi fazia uma homenagem a Dorival Caymmi, aquele que foi conhecido como o "lobo do mar" da nossa MPB.
No especial, filho e neta cantando juntos. Lindo de viver. E agora, nesses dias frios, e com muita chuva é quase impossível não bater aquela "saudade" do mar.
Dorival foi, sem dúvida, o homem que cantou o mar, seus mistérios e amores como poucos fizeram. Músicas que atravessam gerações, que são como herança e ativam nossa memória afetiva.
- Bella Mais amplia time e passa a ter 10 colunistas
- Por que “ninguém” está satisfeito com o que vê no espelho?
- Quando Nietzsche chorou, e eu fiquei pensando...
- Quando a vida improvisa…
Acredito que, principalmente quem mora no litoral, durante o inverno é impossível não ficar numa espécie de contagem regressiva para o próximo dia de sol. Aquele dia ensolarado para dar um bom mergulho no mar.
Você sabia que o corpo já sabe, antes de qualquer previsão do tempo, o que vai sentir quando pisar na areia? E não é força de expressão.
Pesquisas sobre ambientes marinhos vêm mostrando associações entre alguns minutos de contato com esses espaços e redução do estresse e melhora do bem-estar. O corpo relaxa antes da mente decidir relaxar. Ele não espera permissão. Ele não espera você organizar os pensamentos, fechar o e-mail, terminar a lista. Ele simplesmente relaxa.
Lulu Santos, em “Como uma Onda”, já cantava essa ideia antes da ciência dar nome a ela: a vida vem e volta em movimento contínuo, sem pedir licença, sem esperar a gente decidir. O corpo entende isso antes da cabeça, porque o corpo, assim como o mar, não para para pensar. Ele simplesmente segue.
Achei essa informação fascinante. Porque a gente vive numa lógica em que tudo passa pela cabeça primeiro. Decide, depois sente. Pensa, depois age. E o mar desmonta essa ordem.
Quando nos aproximamos do mar, o ar muda, a brisa fica diferente, o som das ondas começa a chegar. E há o cheiro, que ativa uma ligação direta entre o olfato e as áreas do cérebro responsáveis pela memória e pelas emoções.
Talvez seja por isso que algumas lembranças não precisem de fotografia. Basta um cheiro, uma música, uma temperatura, uma determinada luz. O corpo guarda lugares de um jeito que a cabeça não consegue arquivar. E o mar parece ter esse poder de acessar uma memória que não é necessariamente de um dia específico, mas de uma sensação: férias, infância, liberdade, silêncio, aventura, um mergulho depois de um dia difícil. É como se, diante do mar, a gente não apenas lembrasse de alguma coisa. A gente se lembrasse de quem era quando estava ali.
O biólogo marinho Wallace J. Nichols chamou essa relação de Blue Mind: aquele estado de calma, atenção e bem-estar que a proximidade da água pode despertar.
Eu penso muito nisso quando fecho um contrato difícil, quando decido não continuar num caminho que já não fazia mais sentido. Quase nunca a decisão nasce na cabeça primeiro. Ela nasce em algum lugar do corpo, um aperto, um alívio, uma vontade de respirar fundo, e a cabeça só vem depois para explicar o que o corpo já sabia.
E você? Quando foi a última vez que o seu corpo decidiu antes de você?
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
