Eu venho refletindo muito sobre esse assunto nos últimos tempos. Parece que o movimento body positive entrou em uma espécie de crise de identidade: quem apoiava, não apoia mais; quem se achava pertencente, depois que emagreceu, diz que não faz mais parte…
Com o aumento do número de mulheres emagrecendo, surgiram novas cobranças, julgamentos e até uma curiosa inversão: mulheres que perderam peso passaram a ser acusadas de abandonar a luta pela aceitação dos corpos.
Mas talvez tenhamos esquecido o que o movimento realmente defende, o quão grande é a questão.
Body positive nunca deveria ter sido uma celebração de um corpo específico. Não era sobre dizer que ser gorda é melhor do que ser magra. Era, e continua sendo, sobre questionar a ideia de que existe um corpo certo e outro errado, um corpo que merece respeito e outro que precisa ser corrigido. Quem disse isso, quem colocou essa linha do certo e errado para nós?
Por isso, é tão contraditório combater o preconceito contra mulheres gordas reproduzindo o mesmo julgamento contra mulheres que emagreceram.
Uma mulher não deixa de fazer parte dessa conversa porque seu corpo mudou. Ela não precisa permanecer gorda para provar que acredita em liberdade corporal. Assim como uma mulher magra não precisa engordar para defender a mesma causa, o tempo passa e temos mudanças o tempo inteiro. Então, se o corpo que temos hoje não é o mesmo de amanhã, por que a gente julga e espera que a pessoa seja igual por toda vida?
O problema nunca foi o tamanho do corpo. O problema é acreditar que o tamanho determina o valor de uma mulher, que números são mais valiosos do que a pessoa. Isso serve para o tamanho, idade…
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Precisamos tomar cuidado para que a luta contra a gordofobia não se transforme em uma nova polícia do corpo, determinando quais mudanças são aceitáveis e quais representam uma espécie de “traição” ao movimento.
Corpos mudam. Por escolha, por idade, por circunstâncias, por saúde, por inúmeros motivos. E nenhum deles deveria retirar de alguém o direito de ser respeitada.
Ontem, ela merecia respeito quando era gorda. Hoje, merece respeito se emagreceu. Amanhã, se o corpo mudar novamente, continuará merecendo.
Talvez o verdadeiro body positive seja justamente isso: não defender um determinado corpo, mas defender o direito de cada pessoa existir sem que seu corpo seja transformado em motivo de vergonha.
Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.
