Aos 50 anos, Cris Leite trocou a odontologia pelas passarelas. Após um grave acidente, a ex-dentista encarou uma jornada de superação física e emocional que a levou a realizar um sonho antigo: trabalhar como modelo e representar a beleza madura na moda e na publicidade.
Hoje, como modelo 50+, ela se destaca em campanhas e concursos, como o Miss Universo Brasil, onde representou Rondônia. Em entrevista ao Correio do Povo, Cris fala sobre a reinvenção profissional, os desafios de romper padrões da indústria e o novo propósito que encontrou após a virada de vida.
Correio do Povo – Antes de se tornar modelo, você teve uma longa trajetória na odontologia. O que te levou a escolher essa profissão? Como era sua rotina e relação com os pacientes?
Cris Leite – Sempre fui uma workaholic. Adoro trabalhar com qualidade, buscando a perfeição. Sempre esperei entregar o melhor serviço de odontologia que alguém pudesse querer. Na época em que nem se falava em integralização das profissões, eu vi a imensa necessidade disso e fazia uma odontologia inovadora e integrativa, mostrando a verdadeira causa daquela enfermidade que ele apresentava, buscando resolver o problema por completo. Fiz da odontologia, uma nobre, porém difícil profissão, se tornar prazerosa pra mim e pros meus pacientes. Aqueles que iniciavam com medo da odontologia, terminavam o tratamento com gostinho de "quero mais". Eu tornava as consultas rotineiras agradáveis e realizava o desejo de ter um sorriso confiante e belo. Foram 25 anos de muita, muita dedicação na profissão.
CP – Você sofreu um acidente grave em 2018 que mudou completamente sua trajetória. Como foi o processo emocional e físico de recuperação até decidir virar modelo?
Cris – Não foi fácil! Tinha uma clínica enorme, com 12 colaboradores e mais de 3 mil pacientes! Era estável na profissão e financeiramente, até tudo mudar de repente. Foi um ano me recuperando e entendendo que esse era o momento pra eu mudar de vida e realizar aquilo que sempre desejei desde muito pequena: trabalhar com moda e publicidade. Ser modelo e atriz.
CP – Como sua família reagiu ao acidente e, depois, à sua decisão de mudar de vida e entrar no universo da moda?
Cris – Minha família ficou desolada com o acidente, pois ninguém sabia o que poderia, de fato, ocorrer comigo ou como eu realmente iria ficar. Iria andar direito? Iria pensar direito? Quais seriam as sequelas? Tudo era uma incógnita naquele momento. Foi necessário um longo período até tudo se resolvesse. Minha mãe, irmã e filhas me deram apoio incondicional, aceitando a mudança de carreira tranquilamente. Tudo o que desejamos na nossa família é ver o outro bem, feliz e realizado.
CP – Você já falou que o acidente foi um "renascimento". De que forma essa nova fase tem transformado sua visão sobre beleza, envelhecimento e autoestima?
Cris – Eu sempre fui adepta de uma vida muito simples, com alimentação natural, com pouco uso do açúcar. Sempre pratiquei esportes. Sempre gostei de andar descalça, dos cabelos ao vento e da liberdade de escolha. Não levo rancor pra casa, sou super brincalhona e me divirto com pouca coisa. Acredito que tudo isso me permitiu um envelhecimento saudável, uma pele e cabelos bonitos, com um corpo preparado pra aguentar 12h de diária nos trabalhos.
Após o acidente, me tornei uma pessoa ainda muito mais grata pela vida e pelas pessoas que encontro no caminho.
CP – O que mais te surpreendeu ou te desafiou ao entrar no mundo da moda aos 50 anos? Já havia tido algum contato com a arte, a estética ou a passarela antes?
Cris – Com a arte, sim, sempre. Fui cantora de MPB e rock nacional por muito tempo, pois tive banda desde a adolescência. Cantei muitos jingles também. Tive estúdio de fotografia, onde realizava a captação do cliente e a realização da produção. Fiz teatro de palco e de rua. Fiz dois curtas-metragens. Participei de longa-metragem. Aprendi a costurar com minha avó e imaginava criar roupas de moda (rs). Sempre observei a ideia do marketing da campanha e como a modelo fazia pra aquilo acontecer. O que mais me encanta na profissão de modelo é a não rotina! Cada dia uma locação, um mood, uma equipe e uma ideia diferente a se realizar. Eu amo aprender algo novo todos os dias e me dedicar nisso pra conseguir entregar aquilo que o cliente realmente quer.
CP – Como foi receber o convite para representar Rondônia no Miss Universo Brasil? Você acredita que sua participação abre caminhos para outras mulheres com mais de 50 anos?
Cris – Foi uma honra e um imenso prazer representar o estado Rondônia. Tenho certeza absoluta de que abri caminho pra que outras "Mulheres Maduras" participem de concursos de beleza. Basta ler os comentários das publicações em meu Instagram.
- SPFW, novas tendências e nova estação: como filtrar as informações de moda e aplicá-las no seu dia a dia
- Confira os últimos lançamentos do mundo da moda
- A vez do boho: descubra as melhores peças para investir e mergulhar no estilo
CP – Você enfrentou algum tipo de preconceito ou resistência por causa da idade ou por não seguir os padrões tradicionais da indústria da moda?
Cris – Sempre há preconceito e resistência quando se está "furando uma bolha". Primeiro criticam, depois amam e, em seguida, te imitam.
CP – Qual é a sua principal mensagem para mulheres que estão começando novas fases da vida depois dos 50?
Cris – O mundo envelheceu. O Brasil envelheceu. Portanto, a presença das "Mulheres Maduras" na moda e publicidade brasileira é um caminho sem volta. Insistam! Persistam! Muito em breve, ocuparemos todos os lugares que queremos e merecemos!
CP – Quais são seus próximos projetos e sonhos dentro ou fora das passarelas?
Cris – Meu objetivo é conquistar carreira internacional e continuar lutando pelo espaço das Mulheres 50+ na moda e publicidade.
CP – Se você pudesse voltar no tempo e falar com a Cris de antes do acidente, o que diria a ela?
Cris – Siga mais seus verdadeiros sonhos e intuição. E segure o corrimão quando for descer as escadas (rs)!
