“Nunca estamos na idade certa”: mulheres 50+ no mercado

Mesmo com o envelhecimento da população, o mercado ainda resiste a incluir mulheres maduras, e o etarismo segue agindo de forma silenciosa

Mulheres 50+ defendem novas formas de trabalhar, desafiando o etarismo nas empresas
Mulheres 50+ defendem novas formas de trabalhar, desafiando o etarismo nas empresas Foto : Freepik / Dvulgação / CP

Jovem demais, inexperiente. Mãe, instável. Madura, ultrapassada. A frase “a gente nunca está na idade certa para o mercado de trabalho”, dita pela psicóloga e gerontóloga Michele Klotz da Rosa no podcast Fala 50+, traduz a lógica que atravessa as experiências de muitas mulheres ao longo da vida profissional.

Segundo Michele, o julgamento sobre o corpo e a trajetória das mulheres começa cedo. “Quando somos muito jovens, é porque não temos experiência. Aos 30, o medo é que engravidemos. Depois que temos filhos, é porque temos filhos. E na maturidade, a desculpa é a menopausa, o cansaço, o ‘nevoeiro mental’”, afirma.

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Essa trajetória de exclusões sucessivas é comprovada por dados: 41% dos profissionais brasileiros afirmam já ter sofrido etarismo ao longo da carreira, segundo a pesquisa Talent Trends 2025, realizada pela consultoria Michael Page. O percentual é maior que a média global (36%) e da América Latina (35%).

“Não adianta convidar para a festa e não chamar para dançar.” Ela ainda se refere à falsa inclusão. Aquela que contrata mulheres 50+, mas não transforma o ambiente de trabalho. “Essas mulheres são inseridas, mas não são ouvidas. Ou são tratadas com condescendência, como se estivessem em dívida por estarem ali.”

Etarismo diminui engajamento e produtividade

De acordo com o mesmo estudo da Michael Page, 47% das pessoas que sofreram discriminação por idade já consideraram deixar seus cargos, e 59% se sentiram desvalorizadas no trabalho. O impacto não é apenas individual: afeta o engajamento, a produtividade e a cultura das organizações.

Empresária do ramo de panificação, Carla Carnevali Gomes, que também participou do podcast Fala 50+, criou o projeto “60+” em sua padaria, em Eldorado do Sul (RS), com jornadas adaptadas para pessoas acima de 60 anos. “Elas trabalham quatro horas por dia, quatro dias na semana, em funções de atendimento e operação de caixa. O impacto foi maravilhoso: pra elas, pra equipe e para os clientes.”

Para ela, o segredo está na escuta e no respeito. “A gente percebe que o compromisso delas é enorme. Valorizam o trabalho, chegam no horário, aprendem rápido. E os clientes adoram reencontrá-las no caixa.”

Além da experiência prática na empresa, Carla também atua na política industrial. É vice-coordenadora do Comitê de Lideranças Femininas da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), que busca aumentar a presença de mulheres em cargos estratégicos da indústria gaúcha. “Quando entrei, éramos três mulheres na diretoria. Hoje somos oito. É pouco, mas estamos avançando.”

A escassez de talentos e o desafio da inclusão etária

A dificuldade em reter profissionais experientes já é percebida por líderes de todo o mundo. Segundo o estudo Talent Trends 2025, da Randstad Enterprise, 30% dos profissionais no mercado terão mais de 50 anos até 2050. A aposentadoria precoce de talentos experientes é considerada um risco real por 25% das empresas entrevistadas.

A pesquisa também alerta: as empresas precisam investir em requalificação, modelos de trabalho flexíveis e retenção de talentos mais velhos para evitar perdas de produtividade e inovação. Carla percebe isso na prática. “Depois das enchentes, perdemos muitos funcionários. Recontratar pessoas 60+ foi também uma forma de reconstruir a equipe com quem já tinha história com a gente.”

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