Enquanto boa parte do mercado ainda descarta mulheres maduras, uma padaria em Eldorado do Sul (RS) virou exemplo de reinserção e escuta. A empresária Carla Carnevali Gomes criou o projeto “60+”, que contrata aposentadas com carga horária reduzida e funções adaptadas. O resultado: mais vínculo, mais motivação e uma equipe que se fortalece com a experiência de quem já viveu muito e ainda tem muito a oferecer.
A proposta é simples: jornadas de quatro horas por dia, quatro dias por semana. As pessoas, todas acima de 60 anos, atuam no caixa da Padaria Aparecida, em turnos mais leves, com horários respeitando sua disponibilidade e saúde. “A gente fez uma escuta real. Elas não queriam voltar para trabalhar madrugada, nem ficar até 22h. Então pensamos: como podemos acolher isso e, ao mesmo tempo, beneficiar o negócio?”, conta Carla.
A adesão superou as expectativas. “Na primeira semana, elas quase não trabalhavam. Porque os clientes paravam, abraçavam, conversavam. Era reencontro. Uma delas até disse: ‘Aqui, eu venho desopilar’. E eu vejo que é verdade. Elas estão felizes.” Carla participou do podcast Fala 50+, que integra o projeto Bella Talks, conversando sobre etarismo e mercado de trabalho.
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A experiência da padaria reflete um movimento necessário e pouco explorado. Segundo o estudo Talent Trends 2025, da Randstad Enterprise, até 2050, 30% da força de trabalho global terá 50 anos ou mais. Modelos como o “bridge employment”, que prevê transições suaves entre o trabalho ativo e a aposentadoria, são apontados como estratégicos para manter talentos experientes engajados.
A pesquisa da Michael Page reforça: 41% dos profissionais brasileiros já sofreram etarismo, e a maioria deles afirma que o preconceito impactou diretamente sua motivação, produtividade e permanência nas empresas.
Carla deixa claro que o projeto não é filantrópico. “É uma decisão estratégica. Depois das enchentes, perdemos muitos funcionários. Precisávamos de gente comprometida, com experiência. E essas pessoas estavam ali, disponíveis, mas invisibilizadas.”
Hoje, a empresa tem três pessoas ativas no modelo 60+, e a própria equipe mais jovem se envolveu no processo. “Elas ajudam, torcem para que dê certo. É bonito de ver. Uma delas disse: ‘Agora já decorou todos os códigos, nem me chama mais para corrigir nada’. Isso é integração de verdade.”
A prática da Carla mostra que a inclusão etária não exige grandes estruturas, mas sim vontade de adaptar o olhar. “Não adianta querer contratar mulheres 60+ e exigir o mesmo ritmo de antes. A gente precisa de outro tempo, outra escuta. E isso é bom para todo mundo. É mais leve, mais humano e mais eficiente também.”
Segundo a psicóloga Michele Klotz da Rosa, que participa do mesmo episódio do Fala 50+, esse tipo de iniciativa aponta para o que ela chama de carreira sustentável: “A gente precisa pensar em formas de seguir trabalhando com qualidade de vida, saúde mental e pertencimento. E isso passa por ambientes como esse, que respeitam limites e potencializam talentos.”
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Quando experiência vira ativo
Além de recuperar autoestima e independência financeira, o retorno ao trabalho tem gerado outros ganhos. “É bonito ver os clientes felizes por reencontrar essas mulheres. Tem afeto, tem memória. E tem confiança. A gente subestima muito o valor simbólico da maturidade dentro de uma empresa”, diz Carla.
