Rural

Área do trigo no Rio Grande do Sul pode cair 18%

Previsão de Hamilton Jardim, diretor da Farsul, leva em conta descapitalização do produtor gaúcho, dificuldade de crédito e de obtenção de seguro agrícola

No ano passado, produção de trigo no Estado foi de 3,75 milhões de toneladas, numa área de 1,32 milhão de hectares
No ano passado, produção de trigo no Estado foi de 3,75 milhões de toneladas, numa área de 1,32 milhão de hectares Foto : Joseani Mesquita Antunes/Embrapa/Divulgação/CP

Os revezes climáticos no Rio Grande do Sul, como a seca recente do último verão, não afetam apenas as culturas da estação em que acontecem. Multiplicam efeitos ao longo do ano e vão impactar sobre as culturas de inverno. O diretor e coordenador da Comissão do Trigo e Culturas de Inverno da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Hamilton Jardim, projeta uma redução de área em geral das culturas de inverno, salvo o plantio da canola, que deve se manter numa faixa de crescimento dentro do normal. No caso do trigo, o dirigente estima um recuo significativo.

“Tínhamos no ano passado uma área aproximada de 1,350 milhão e se neste ano chegar a 1,100 milhão será muito”, alertou Jardim.

Ele também aponta a descapitalização dos produtores rurais (em consequência das perdas na soja principalmente) como um dos fatores preponderantes para essa retração, junto com o endividamento do agricultor. “Não tivemos ainda notícias dos pleitos em termos de renegociação de dívidas”, desabafou.

Outros motivos relevantes, segundo Jardim, são a desvalorização nos preços da soja, a dificuldade de obter crédito para a semeadura, e a indisponibilidade de seguro agrícola. O dirigente aponta que a oleaginosa é o principal produto para o produtor rural fazer dinheiro e lembra que as cotações estão baixas. Afirma também que a obtenção de crédito está complicada em razão de que não há juros suportáveis pela atividade no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp).

Hamilton Jardim lamenta que a cultura do trigo, alimento do qual o Brasil ainda é muito dependente da importação, não tenha incentivos e uma política agrícola fomentada pelo governo.

“O trigo é a cultura que o produtor espera ter resultado de produtividade com qualidade, pois é uma renda para o final do ano”, justificou.

O dirigente destaca que mesmo se resoluções para o alongamento dos prazos de pagamentos das dívidas rurais (provenientes de secas sucessivas e da enchente de 2024) fossem anunciadas neste momento não seriam suficientes para reverter a tendência de redução das áreas de plantio das culturas de inverno. “Reverteria um percentual muito pequeno, pois o produtor tem que tomar sua decisão tempestivamente. A tempestividade é agora porque a janela de plantio já começou e muitos já desistiram totalmente da atividade”, finalizou, acrescentando que o preço do cereal no Mercosul também está muito baixo.

De acordo com os dados divulgados pela Emater/RS-Ascar, em dezembro do ano passado, em 2024 o Rio Grande do Sul produziu 3,75 milhões de toneladas de trigo, semeados em 1,322 milhão de hectares, com produtividade de 2,839 quilos por hectare.

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Mesmo com perspectiva de expansão de área, a canola também não vai escapar dos efeitos da estiagem do verão no Rio Grande do Sul.

“No início deste ano tínhamos uma expectativa um pouco maior em relação à semeadura. Mas tivemos uma frustração da safra de soja e o produtor ficou um pouco descapitalizado e com dificuldade de acesso ao crédito. Então a expectativa (de crescimento) reduziu”, afirmou o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), Vantuir Scarantti.

Baseado em informações dos agricultores, cooperativas e cerealistas, ele estima um avanço de 20% de área. “É um percentual normal. Mas esperávamos mais”, admite.

No ano passado os gaúchos foram responsáveis por 179 mil hectares do cultivo da oleaginosa, o que representou 96,11% da área plantada no país. “Vai ter um crescimento mas não na proporção que estimamos”, reforçou Vantuir. Ele destaca que, nesse momento, a semeadura está no auge, com 60% das áreas plantadas.

“Quem plantou está em um bom momento, com uma expectativa interessante em termos de produtividade versus o clima e de precificação para o produtor rural, pois a canola em si está com bons preços”, pontuou.

Mas o dirigente ressalta que há muito para acontecer até a conclusão da semeadura e o final da colheita “Temos uma janela de praticamente mais de 20 dias de negócios e semeadura dentro do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc)”, sublinhou.