Rural

Das camas de aviário para o vaso de plantas

Resíduos da atividade avícola foram utilizados pela Embrapa Solos, unidade estabelecida no Rio de Janeiro, para criar um fertilizante organomineral destinado ao consumidor urbano amante da jardinagem

Foto : Vinicius Benites / Embrapa / CP

Pesquisa desenvolvida pela Embrapa Solos, no Rio de Janeiro, resultou na criação de um novo fertilizante, do tipo organomineral, produzido a partir de um resíduo da avicultura, a cama de aviário, usada para controlar a umidade dos galpões e onde são depositados os dejetos dos animais. Além de oferecer destino sustentável a um descarte ambientalmente problemático, o adubo é destinado ao consumidor urbano, que cultiva plantas em vasos pequenos ou pequenos jardins. Focado na sustentabilidade, o produto tem fácil aplicação. “Nosso fertilizante tem o objetivo de deixar o consumidor feliz”, diz o pesquisador Vinicius Benites. “

É importante salientar que a cama de aviário que não é aproveitada acaba sendo descartada no meio ambiente. É um fator que muitos clientes valorizam e se dispõem a pagar por isso, com a visão da bioeconomia”, ressalta.

A Embrapa Solos está em busca de parceiros da iniciativa privada para a oferta do fertilizante em escala. “A tecnologia está pronta e validada. Já houve interesse, mas estamos na mesa para negociar”, relata Benites. Conforme a instituição, a empresa escolhida deverá ter capacidade de produção em escala industrial para atender a demanda de aquisição. Ainda que não disponha de dados objetivos do mercado a ser explorado, os pesquisadores destacam que o consumidor urbano “tem uma visão diferenciada em relação à questão ambiental”, como afirma Benites.

A proposta da Embrapa é que o empreendimento eventualmente selecionado crie uma marca e um nome fantasia para o item, e que oriente a produção, a divulgação e a logística deste fertilizante por meio de planos de negócios e de marketing. A empresa deverá pagar royalties à Embrapa, em valores a serem acordados a partir de negociação. Gizelle Bedendo, chefe-adjunta de Transferência de Tecnologia da Embrapa Solos, sugere que o estabelecimento atue em “bioeconomia e economia circular”.

O fertilizante é produzido a partir da mistura entre cama de aviário e fontes minerais de macro e micronutrientes. A cama de aviário proporciona conforto e higiene para os animais. É composta geralmente por materiais como maravalha, casca de arroz, sabugo de milho e capim. Benites explica que a atividade avícola integrada é realizada seguindo um padrão, o que garante uniformidade à matéria-prima, e que o insumo “acaba desaparecendo no final da produção do fertilizante”.

Meio quilo do adubo é suficiente para aplicação em seis vasos de dois quilos por um período de dois a três meses. O fertilizante apresenta liberação lenta, o que reduz a lixiviação – processo que leva ao desperdício de nutrientes. Sua fórmula contém os macros e micronutrientes em fontes solúveis de maneira balanceada, utilizando o resíduo da produção de aves como seu principal ingrediente, promovendo o uso sustentável desse material que é considerado um passivo ambiental e colaborando com a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

O teor de nutrientes foi calculado de forma que um cachimbo de plástico (que vem dentro da embalagem) contenha os ativos necessários para um vaso de dois quilos, que é o tamanho médio dos vasos identificados em um questionário aplicado na fase de identificação dos consumidores. De acordo com a área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Solos, há outros produtos para a adubação em vasos no mercado, mas nenhum deles é um fertilizante organomineral granulado balanceado nutricionalmente, como o desenvolvido neste trabalho.

Protótipo foi desenvolvido com apoio do consumidor e do “design thinking”

| Foto: Fernando Gregio / Embrapa / CP

Em laboratório, o fertilizante granulado apresentou excelente eficiência agronômica nos ensaios para a validação técnica. Um protótipo foi desenvolvido, composto por um kit com embalagem de papel reciclável contendo 500 gramas, um cachimbo dosador de plástico e instruções de uso. O protótipo foi resultado de um processo de design thinking (em que o ser humano é colocado como elemento principal) com 50 participantes. Em uma etapa posterior, a proposta teve ótima aceitação entre 40 potenciais consumidores que fizeram parte da sua validação.

A aplicação do design thinking foi fundamental para que os pesquisadores entendessem os anseios do consumidor final do fertilizante.

“Desenvolvemos fertilizantes organominerais em nossos laboratórios desde 2010. Para esse produto, queríamos entender melhor o consumidor e suas características, para fazer um produto o mais personalizado possível”, diz o pesquisador Vinicius Benites.

Um questionário aplicado para mais de 200 pessoas ajudou a definir o perfil do consumidor potencial. “Chegamos a uma persona. O consumidor médio é uma mulher que mora num apartamento, com um filho, possui plantas mas não entende do assunto, mas tem foco na ecologia, na reciclagem, com preocupações ambientais e com as mudanças climáticas”, revela o pesquisador.

Benites acrescenta que, a partir dessa persona, começou o debate no processo de design thinking, de forma a definir os detalhes do produto, como na escolha da embalagem, em papel kraft, reciclável e tamanho reduzido, assim como no formato do fertilizante, granulado, com odor controlado, com todos os macro e micronutrientes na composição, uma vez que o usuário não possui conhecimentos aprofundados sobre fertilidade e nutrição de plantas.

Uma atenção especial contemplou o aspecto do odor do produto, para que não atraia a atenção de animais domésticos e não incomode usuários, uma vez que a principal matéria-prima são dejetos de aves. “Foi adicionado um extrato de fumaça que repele animais, como gatos e cachorros. Também era desejável que o adubo não tivesse cheiro, pois será utilizado em casas e apartamentos. Então corrigimos o odor, baixando o pH e adicionamos essa substância”, relata Benites.

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