Rural

Disciplina e empenho que concretizam sonhos

Cooperativismo de crédito permite a agricultores, do Rio Grande do Sul à Amazônia, conquistar patrimônio e bem-estar com responsabilidade

Ao fundo a primeira sede do sicredi, em Linha Imperial, Nova Petrópolis
Ao fundo a primeira sede do sicredi, em Linha Imperial, Nova Petrópolis Foto : Nereida Vergara/Especial/CP

O princípio filosófico do cooperativismo, de que a união das pessoas faz a força coletiva, é tão lógico que pode se pensar até que é óbvio. Na verdade, está muito longe da obviedade e exige empenho e comprometimento enormes para que se chegue aos resultados que se espera para todos. A explicação é do diretor-presidente da cooperativa Sicredi Pioneira, instalada no município de Nova Petrópolis, Tiago Schmidt, à frente há oito anos da unidade, que em outubro de 2025 atingiu o marco de 300 mil associados. "O sistema é indiscutivelmente baseado na responsabilidade das pessoas. Que devem considerar que o crédito é algo que deve ser tomado de acordo com a capacidade de pagamento para que nenhum dos entes da cooperativa seja prejudicado", diz ele.

Schmidt tem o dom de emocionar com as histórias que conta e que demonstram bem como o trabalho do padre Theodor Amstad, iniciado há mais de um século, alcançou a envergadura que o Sicredi tem hoje, com 100 cooperativas espalhadas pelo Brasil, entre rurais e urbanas. Em um evento realizado na sede da Pioneira, o dirigente lembrou o episódio de um menino de 10 anos, aluno da formação em Educação Financeira da cooperativa, que tirou o restaurante da família do vermelho ensinando aos pais "que não se paga e nem se recebe nada sem anotar".

Thiago salienta que é nesses ensinamentos que está a magia do sistema, especialmente em comunidades pequenas.

" Se uma estofaria financiada pelo Sicredi fechar em Porto Alegre, por exemplo, com 10 colaboradores, pouco será afetada a economia da cidade. Mas se for num município com menos de cinco mil habitantes, o estrago ao sistema e à comunidade local tem impacto, em compras no mercado, na padaria, no consumo em geral. E não existe cooperativismo em comunidade pobre. Por isso a importância de todos trabalharem com o mesmo compromisso", ressalta.

O presidente da Sicredi Pioneira lembra as lições que foram dadas pela pandemia e pelas enchentes de 2024 como exemplos de como a sociedade deveria funcionar. Na pandemia e nas enchentes, houve a iniciativa de ajudar as pessoas, os empreendimentos e as comunidades a se reerguer. "Todos saíram para rua para ajudar e se conseguiu retomar a vida. Depois, entretanto, tudo volta ao individualismo costumeiro. Por isso, manter o cooperativo saudável não é uma tarefa fácil, exige muita disciplina”, pontua.
O dirigente alerta ainda que, em qualquer que seja o ramo cooperativo, buscar andar sempre alinhado com os princípios definidos pelo coletivo é fundamental. Segundo ele, cooperativas grandes e reconhecidas no Rio Grande do Sul enfrentam problemas atualmente porque, em algum momento, se perderam na disciplina.

Outro ponto bastante relevante para a amplitude do sistema criado pelo padre jesuíta com menos de 1,5 metro de altura, mas um gigante no pensamento, é o treinamento oferecido pela cooperativa a seus colaboradores em todo o Brasil. Segundo Schmidt, o sistema permite customizar linhas de financiamento para cada comunidade, para cada propriedade rural, independente do território. "Nossos colaboradores são ensinados a conhecer e valorizar a economia local, com vistas ao desenvolvimento daquele lugar", conclui.

Os conceitos do cooperativismo de crédito realizam sonhos dentro e fora do Rio Grande do Sul, como é o caso das quatro histórias de agricultores, três gaúchos e um catarinense, que estão nas próximas páginas. Duas no próprio Estado e outras duas em Medicilândia, município paraense de menos de 30 mil habitantes, nas imediações da BR-230, a lendária rodovia Transamazônica.

A independência trazida pela determinação

A agricultora Suzana Brondani queria muito um negócio para chamar de seu, e a chance veio com a coragem e uma estufa de morangos

Agricultora decidiu ter um negócio próprio em 2021 | Foto: Lidy Brito/Divulgação/CP

Um sonho pode demorar para se realizar, mas quando há determinação e parceria ele acontece. Suzana Brondani, agricultora de Vicente Dutra, município da região Noroeste do Rio Grande do Sul, nasceu e cresceu na roça. Mesmo depois de casada, seguiu com o marido, Leucir, tocando a propriedade de cerca de 40 hectares onde plantavam tabaco, milho e feijão. Ela confessa que nunca gostou muito de morar na zona rural e sonhava em ter um emprego na cidade, onde teria seu salário e independência financeira. A vida foi seguindo e Susana e o esposo conseguiram melhorar as condições do pedaço de terra para poder usar maquinário e partir para culturas de mais rentabilidade, como a soja. Leocir, por problemas na coluna, precisou abandonar a fumicultura, mas as ideias de independência de Suzana persistiam.
Há quatro anos, em 2021, a agricultura decidiu que implantaria na propriedade uma estufa para plantar morangos. A família foi contra, uma vez que nunca haviam trabalhado com este tipo de produto e não tinham conhecimento sobre o manejo. Então, Suzana buscou auxílio na Emater/RS-Ascar de Vicente Dutra. Recebeu informações de como instalar a estufa e partiu para obter financiamento. A família já utilizava os serviços financeiros do Sicredi Conexão (que atende a região), mas ela fez questão de abrir uma conta individual para obter crédito para a iniciativa.
Conseguiu R$ 30 mil, pagáveis em 10 anos. Na sequência, instalou a estufa e iniciou o plantio.

"Não foi nada fácil, muitas vezes eu pensei em desistir, porque não estava dando certo. A Emater regional não tinha experiência neste cultivo e à família, que foi contra, eu não podia pedir ajuda, tinha de me virar", recorda.

Como a vontade era maior que a dificuldade, ela contratou por seis meses uma consultoria agronômica que fez o empreendimento andar. Hoje, Susana tem uma estrutura com 3 mil pés de morango, o que lhe garante, em média, entre 50 e 60 quilos do fruto por semana. A produção é entregue para a merenda escolar local e para clientes que encomendam diretamente pela página Morangos Brondani, no Instagram.
O faturamento, diz a agricultora, é variável conforme o clima, mas é consistente, pois ela planta uma cultivar que frutifica o ano inteiro. "Depois de um tempo, o negócio começou a dar lucro, e a assessoria do Sicredi foi muito legal, vinham aqui para ver se estava funcionando", comenta. O lucro, Suzana guardava na conta que abriu em seu nome, até ter uma quantia suficiente para transformar o espaço de moradia da propriedade, que até então lhe desagradava.

"Eu investi meu dinheiro para fazer um pátio bonito, com laguinho com peixes e um quiosque. Foi uma alegria muito grande", comemora.

Além dos morangos, a agricultora iniciou neste ano o plantio de tomates em estufa. Segundo ela, há demanda pelo produto na merenda escolar e pouca disponibilidade na região, além de ser uma cultura mais fácil e que despertou o interesse da filha, Luana, de 19 anos. "O morango exige bastante da gente. Com o tomate acredito que será mais tranquilo", afirma, adiantando que Luana, no próximo ano, pretende fazer um curso técnico de agropecuária. “Ela está muito interessada”, elogia.

Cooperativa apoiou empreendedor de chás com capital de giro na pandemia

Beurer gerencia, em São José de Inhacorá, a fábrica de chás Erva da Mata | Foto: arquivo pessoal/cp

Filiado à cooperativa de crédito desde seus 18 anos, Luiz Carlos Beurer mora no município de São José do Inhacorá, na região Noroeste do Rio Grande do Sul, e é filho de agricultores. Mesmo não tendo seguido a vida nas lavouras, hoje, aos 47 anos, tem sua principal atividade ancorada na produção primária. Há 26 anos, comanda a fábrica Chá Erva da Mata, utilizando matéria-prima importada e também de produtores regionais.

Beurer trabalha com 60 sabores de chá, uma linha de condimentos para culinária, mate para chá gelado e blends destinados a incrementar o chimarrão. O forte da fábrica são os chás à granel, com capacidade de produção para 5 mil pacotes diariamente. Tudo é produzido artesanalmente, para garantir a pureza e a qualidade das combinações. Os produtos chegam a todo o Rio Grande do Sul, menos à Capital (por dificuldades logísticas), e também aos estados de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso.

Quando abriu a empresa, em 1999, Luiz já contava com o apoio do Sicredi.

"A cooperativa tem um diferencial, com ela tu não está sozinho, o que é uma grande ajuda para o empreendedor", ressalta. O empresário sentiu o significado desse benefício durante a pandemia, quando precisou buscar capital de giro porque o consumo caiu, "mas as despesas continuaram as mesmas".

Beurer explica também que é o caçula de cinco irmãos e que contou com o conhecimento de duas de suas irmãs, terapeutas naturais, para entrar e se apaixonar pelo mundo dos chás. "Foi por meio delas que comecei a participar de encontros e a fazer cursos que demonstravam o quanto as pessoas buscavam os chás para ter bem-estar", completa.

Vivendo do cacau na distante Medicilândia

Catarinense e gaúcho prosperam em cidade do Pará com a comercialização e transformação da matéria-prima principal do chocolate

Dari e a esposa, Teresinha, quebrando cacau com o neto, em meio ao pomar. | Foto: Arquivo Pessoal/CP

Quem imaginaria que dois sulistas, um de Brusque, Santa Catarina, e outro de Tenente Portela, no Rio Grande do Sul, se afastariam milhares de quilômetros de casa para investir no cultivo do cacau, fruta típica de regiões acima do Brasil Central. Robson Brogni, o catarinense, e Dari José Ritter, o gaúcho, estão instalados em Medicilândia, município do Pará às margens da BR-230, a lendária rodovia Transamazônica.

Robson, hoje com 43 anos, mora há 19 anos no Pará, onde tem uma lavoura com cerca de 60 mil pés de cacau e uma fábrica de chocolates finos, a Ascurra Chocolates. Das 300 toneladas de cacau que produz por ano, o agricultor e empresário utiliza em torno de 15 toneladas para a produção de 350 a 400 quilos de chocolate por mês, destinados principalmente ao mercado nacional. Seus produtos percorrem do sabor mais doce ao mais intenso, entre barras, drageados, mel de cacau, licor e até um tipo de cerveja preparada com chocolate da propriedade em uma cervejaria artesanal gaúcha.

"Temos duas lojas físicas, em Altamira, município distante 86 quilômetros de Medicilândia, e também aqui em Medicilândia", comemora.

A produção de Robson Brogni é em Sistema Agroflorestal (SAF), com o cacau sombreado por árvores de madeira típicas da região amazônica e da flora brasileira. "É um plantio sustentável", diz ele, que tem sob controle as infestações da perigosa vassoura de bruxa, doença responsável por destruir os cacaueiros, além de outras culturas. De acordo com Brogni, o Sicredi chegou há pouco tempo em Medicilândia, quando foi apresentado aos produtores pela Cargill, compradora de cacau commodity.

Atualmente, o empresário tem cinco contas no Sicredi, duas de pessoa jurídica e duas de pessoa física. Já tirou financiamento para fazer estudos com o cacau fino, faz investimentos e deve utilizar os serviços da cooperativa no futuro para abrir a propriedade de forma profissional ao turismo rural.

Robson mostra as amêndoas do cacau em fermentação | Foto: Arquivo Pessoal

Dari José Ritter, portelense de 62 anos, está estabelecido há décadas no Pará. Ele e a esposa, Teresinha Perussatto Ritter, cuidam sozinhos de cerca de 4 mil pés de cacau, também em Medicilândia, em plantio consorciado com o açaí. A fruta do chocolate rende à família entre 7 e 8 toneladas ao ano. Associado ao Sicredi há pouco mais de três anos, já fez investimento e custeio na propriedade, que começa a pagar apenas em 2027. "A cooperativa tem ajudado muito", reconhece.

Do cacau, Dari planta e vende a amêndoa para a indústria de chocolates e o açaí é vendido in natura. As mudas cultivadas há seis anos foram enxertadas, e em três anos começaram a produzir frutos. As primeiras foram plantadas ao sol, mas as mais recentes foram plantadas próximas aos pés de açaí, que fornecem sombra para o cacau, manejo bastante utilizado na cultura e que gera bons resultados, sem contar a contribuição com a conservação da floresta e até mesmo com o reflorestamento com plantas nativas, como é o caso do açaí.

Conforme o agricultor, o plantio do açaí é muito importante em termos ambientais, mas o que de fato traz o sustento da família é o cacau. “Acredito na floresta nativa e preservo, plantando cacau junto com o açaí”, afirma, lembrando que do fruto muito consumido na mesa dos paraenses produz cerca de 7,5 mil quilos por safra.

As culturas são desenvolvidas com apoio da unidade Sicredi Grandes Rios há três anos. Ele conta que a cooperativa o ajudou de várias formas, primeiro com recursos para reforma da casa, com várias operações de custeio para desenvolver as culturas, com financiamento de um veículo que é utilizado na atividade agrícola e para passeio. Também está em andamento a proposta para um crédito que será destinado à poda das plantas de cacau e compra de insumos agrícolas.

“O que mais admiro no Sicredi é a preocupação que eles têm em me orientar. Me ofereceram o consórcio para a aquisição do carro, mas eu tinha pressa. O gerente vem aqui frequentemente, conversa, orienta, e quando preciso de crédito eles têm a preocupação de fechar uma proposta que cabe no bolso, para que a gente não tenha dificuldade de pagar”, complementa.

O produtor rural, muito ativo na cooperativa, participa de eventos promovidos na região. Sua meta é começar a guardar dinheiro, para formar uma reserva e ter mais tranquilidade.

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