Rural

Herbicida hormonal ainda causa discórdia

Propriedades em que o uso da substância é necessário para eliminação de plantas daninhas seguem tendo conflitos com produtores vizinhos cujos cultivos são sensíveis à deriva, mas pesquisa diz que já se vislumbra saída para o dilema

Danos causados pela deriva de herbicidas hormonais atingem parreirais e outras culturas há mais de 10 anos. Cooperativa Agrária São José, em Jaguari (RS)
Danos causados pela deriva de herbicidas hormonais atingem parreirais e outras culturas há mais de 10 anos. Cooperativa Agrária São José, em Jaguari (RS) Foto : Cooperativa Agrária São José / Divulgação / CP

Criados por volta do início da década de 1940, sendo o primeiro o 2,4-D, atualmente os herbicidas hormonais são ponto de tensão entre diferentes cadeias produtivas em parte do território do Rio Grande do Sul. Quando a pulverização dessas substâncias químicas começou a ultrapassar as cercas das propriedades rurais tornaram-se centro de uma grande controvérsia. De um lado estão os produtores rurais que defendem o uso para combater as ervas daninhas com a sua aplicação no solo. Em situação oposta, os agricultores das culturas sensíveis alegam que a deriva deste tipo de defensivo, por conta da ação do vento, traz prejuízos às frutíferas e hortaliças.

Os herbicidas hormonais imitam a ação da auxina, um hormônio vegetal que regula o crescimento celular das plantas. “Há todo um processo que vai sendo desencadeado dentro da planta, interferindo no desenvolvimento normal dos tecidos, desequilibrando-os e levando a sua morte”, explica o pesquisador na área de Agronomia com ênfase em Plantas Daninhas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja), Dionísio Gazziero. Com o decorrer do tempo, o herbicida “hormonal fake” tornou-se um insumo agrícola de uso amplo no Brasil. Sua aplicação ocorre nas culturas do café, cana-de-açúcar, arroz, milho, milheto, trigo, sorgo e soja, por exemplo. As substâncias combatem as plantas daninhas que competem por luz, água e nutrientes nessas lavouras. “Trata-se de um produto antigo, que está há muito tempo no mercado, quando as exigências para disponibilizar para comercialização, do ponto de vista toxicológico, não eram tão rígidas como as de hoje”, pontuou.

Conforme Gazziero, os motivos para o avanço desses agrotóxicos de controle das ervas daninhas em todo o Brasil “agrícola” atendem à relação custo versus eficiência e à eventual preferência dos produtores rurais pela técnica agronômica do plantio direto. A modalidade se caracteriza pela ausência de revolvimento do solo, mantendo a palhada (restos da cultura anterior) sobre a superfície, com o objetivo de conservar a umidade e proteção da terra. “É um sistema conservacionista”, esclareceu.

Contudo, segundo o pesquisador, os herbicidas hormonais vêm passando por reavaliações periódicas no país, pois mesmo sendo produtos antigos continuam no mercado porque têm condições para utilização. Gazziero ressaltou que, à medida que o tempo passa, as revisões das substâncias também ficam mais rígidas.

“Quero destacar que os herbicidas hormonais desempenham um papel muito importante que é o de ajudar no controle de plantas daninhas, inclusive no sistema de plantio direto. Não é só para a soja, mas para um conjunto de culturas. Vivemos em condições tropicais, onde temos muita chuva e os nossos solos são frágeis”, acrescentou, referindo-se às vantagens do plantio direto como opção de manejo.

Em um país onde o solo precisa ser protegido e a produtividade do agronegócio é prioridade, o herbicida hormonal se tornou prática comum e, quase, indispensável. Dionísio Gazziero, ressaltou, porém, que o uso deve ser feito de forma cautelosa, avaliando também alternativas como o manejo integrado de ervas daninhas por meio de uma série de técnicas que ajudam na solução do problema. “Não de substituição da mesma forma, com todos os benefícios de custo e eficiência, mas existe alternativa sim”, confirmou. Ele recorda que, quando os grãos transgênicos começaram a ser utilizados, a exemplo da soja, acarretando maior dependência do glifosato, houve um desestímulo na busca de novos produtos, tanto em termos de tempo como de investimento.

“Agora que estão começando a surgir novos produtos no mercado e mantemos uma expectativa que possam ser de fato opções para controlar algumas espécies (daninhas) importantes que só o 2,4-D ou seus similares conseguem”, explicou.

O pesquisador da Embrapa Soja relembra que após o lançamento da soja transgênica, por volta dos anos 2000, começou a ser observado o desenvolvimento de uma comunidade de plantas daninhas bastante complexa. “Biótipos na natureza de espécies resistentes a alguns tipos de produtos, como o glifosato (herbicida não hormonal), fazendo reduzir a sua eficiência, enquanto o 2,4-D ajudava o agricultor no controle dessas plantas daninhas”, elucidou.
Sobre práticas e técnicas alternativas que possam se somar à ação de novos produtos diferentes dos herbicidas hormonais da década de 40, Gazziero chamou a atenção para o manejo correto e realizado durante todo ano nas áreas onde o agricultor pretende plantar.

Entre as possibilidades, estão a rotação de culturas, a rotação de mecanismos de ação de herbicidas e o controle de banco de sementes no solo. Um plano de ação que deve ser executado pelo produtor, talhão por talhão.

“Um processo técnico que nós temos informação suficiente no Brasil para melhorar tremendamente este quadro”, defendeu, reforçando que o país pode ensinar outras nações do ponto de vista de manejo das culturas e áreas.

Para o pesquisador, há uma necessidade premente de que sejam encontradas soluções técnicas e regulatórias que garantam a produtividade e a rentabilidade no campo sem prejuízo mútuo entre as culturas de grãos e aquelas consideradas sensíveis, em virtude da deriva de herbicidas hormonais. Segundo ele, produtores rurais de café, cana-de-açúcar, arroz, milho, trigo e soja, por exemplo, dependem dessas substâncias químicas que imitam a auxina e sua ação.

Produtor de Dom Pedrito cultiva uva e soja praticando a agricultura regenerativa

Valter Pötter, da Vinícola Guatambu, tem videiras distantes 15 quilômetros das lavouras de grãos, mas estima prejuízo de R$ 3,5 milhões na produção em razão da deriva de herbicidas hormonais aplicados em propriedades vizinhas

Prejuízos dos resíduos trazidos pelo vento prejudicam inclusive as matas nativas | Foto: Aline Fogaça/Divulgação/CP

Folhas deformadas, crescimento irregular e queda de produtividade dos pomares são alguns relatos que se multiplicaram no decorrer dos anos entre produtores de culturas sensíveis em partes do Rio Grande do Sul. Entre safras perdidas e prejuízos acumulados em razão da deriva dos herbicidas hormonais, o proprietário da Vinícola Guatambu, em Dom Pedrito, Valter José Pötter, expõe a situação dos fruticultores. “Nunca houve tanto a deriva como neste ano”, afirmou, citando ocorrências nos municípios de São Vicente, Santana do Livramento e Bagé. “Tivemos muitos prejuízos em 50% da produção”, complementou, referindo-se às uvas e às 70 mil garrafas de vinho que deixou de produzir pela falta de matéria-prima. O rombo, somente em 2025, equivale a R$ 3,5 milhões, calcula o produtor. O prejuízo relatado por Pötter tem origem nas enchentes no Rio Grande do Sul no ano passado. O volume das chuvas atrasou o plantio das lavouras de soja e os preparativos do solo para a semeadura da oleaginosa coincidiram com o período vegetativo das frutíferas.

A vitivinicultura é uma das atividades na propriedade de Pötter. O produtor de culturas sensíveis também realiza o plantio de soja. Segundo ele, sem o uso de herbicidas hormonais.

A distância entre a lavoura, de 780 hectares de área, e o vinhedo é de 15 quilômetros. “Eu faço cultura de inverno, com coberturas altas de aveia e azevém, que já elimina em torno de 80% dos inços (plantas invasoras). Também pratico a agricultura regenerativa e o uso de produtos biológicos há cerca de dez anos”, pontuou. Ele acrescenta que, apesar dos seus cuidados, sofre com a deriva dos herbicidas hormonais aplicados em propriedades vizinhas com o plantio da oleaginosa. O município de Dom Pedrito é um dos destaques na cultura da soja no Rio Grande do Sul.

Pötter destacou que faz uso de herbicidas não hormonais. Quando necessário, inclusive, investe em várias aplicações na lavoura de soja.

“O herbicida hormonal é caro para a natureza”, defendeu.

Ele acrescenta que em sua propriedade coexistem oito culturas diferentes em harmonia sustentável. E, segundo ele, o custo total na Vinícola Guatambu, manejando caruru e buva, plantas daninhas comuns à sojicultura, que se destacam por sua rápida reprodução e resistência a pesticidas, está abaixo de R$ 150 por hectare com herbicidas não hormonais em momentos pré e pós emergentes para as lavouras de soja. “Isso porque além das técnicas, utilizamos aplicações localizadas nos escapes de controle”, detalhou. De acordo com o proprietário, atualmente, mesmo com o uso do 2,4-D e outros hormonais, o custo médio de manejo está acima dos R$ 150 por hectare.

Um especialista em fruticultura, entrevistado pelo Correio do Povo e que solicitou não ser identificado em virtude do embate que se instalou entre produtores de diversas cadeias produtivas de grãos e das culturas sensíveis no Rio Grande do Sul, explica que a deriva dos herbicidas hormonais pode causar mudanças nos pomares de frutas e consequentes danos tanto em seu crescimento como produtividade. “Quais as dificuldades que estamos tendo (em partes) do Estado e que não ocorrem em outras partes do mundo? Grandes áreas cultivadas de frutíferas estão distantes das propriedades com culturas anuais (como a soja). Portanto, menor a probabilidade de ter ocorrência de deriva de herbicida hormonal e mudar o padrão de crescimento e produção das frutíferas”, explicou, citando a Califórnia, nos Estados Unidos, a Itália e Portugal.

Conforme o especialista, nas últimas décadas, a fruticultura passou a fazer parte da Fronteira Oeste gaúcha em virtude do clima propício, com menos umidade, além da característica plana da região que facilita a operacionalização de máquinas agrícolas, como os tratores. “Trata-se de uma região onde se pode realizar a fruticultura em pequena, média e grande escala”, elucidou. Por essas razões, hoje propriedades vizinhas divididas por cercas produzem soja e também uva, noz-pecã ou oliveiras. “No mundo afora não é este cenário. O nosso é diferente”, sublinhou, abordando os desafios que surgiram com o panorama.

Diante desse contexto, o especialista defendeu que há uma demanda de pesquisa no Rio Grande do Sul, envolvendo a sintomatologia, a avaliação de danos, a nutrição das plantas e suas variedades/cultivares, entre outras hipóteses envolvendo a deriva dos herbicidas hormonais nos pomares. O estudo, para ele, é fundamental para possíveis soluções em um cenário onde há diferentes sistemas de cultivos. “Está sendo escrito um projeto com diversos pesquisadores a pedido de uma entidade para tentar angariar recursos para essa pesquisa científica sulina”, adiantou.

Atualmente, tanto os produtores de culturas sensíveis quanto de grãos aguardam a divulgação de um relatório de avaliação sobre a suspensão e ou proibição da aplicação de herbicidas hormonais no Rio Grande do Sul. O documento está em elaboração por uma subcomissão da Comissão de Agricultura, Pecuária, Pesca e Cooperativismo da Assembleia Legislativa do Estado com perspectiva de ser concluído em ainda em agosto.

A expectativa é de que o documento apresente sugestões de alteração ou de criação de novas legislações que trate da aplicação do agrotóxico. Uma série de reuniões foram realizadas com os interessados em diferentes regiões gaúchas para a confecção do parecer.

Especialista admite que há dificuldades técnicas entre os agricultores

Plantio de soja sem herbicidas hormonais | Foto: Guatambu/Divulgação/CP

“Para conduzir uma agricultura como temos hoje, em um país tropical, onde temos problemas de resistência de insetos, de fungos, de muitas pragas, temos que lutar com as ‘armas’ que nós dispomos, inclusive os agrotóxicos”, ressalta o pesquisador da Embrapa Soja Dionísio Gazziero.

O especialista defende, entretanto, que a aplicação de qualquer agroquímico tem que ser autorizada por um profissional habilitado.

“Ele tem que ser altamente conscientizado, pois é ele quem vai permitir ao agricultor que utilize os produtos fazendo uma receita. Então, precisa ter grande conhecimento das questões de tecnologia de aplicação. E, o agricultor precisa fazer o que está indicado na bula”, destacou, ciente de que há dificuldades nessas questões.

Além disso, Gazziero reforçou a importância do emprego de técnicas de aplicação e uma parceria colaborativa entre vizinhos no campo. “Quando eu tenho uma cultura sensível próxima a propriedade com lavoura de grãos, meus cuidados devem ser redobrados”, orientou, destacando que existem normas e leis que o aplicador de agrotóxicos é obrigado a seguir.

No Paraná, Gazziero contou que há municípios com intenso trabalho dos órgãos de fiscalização. Mas também há grupos de trabalho envolvendo cooperativas, revendas, profissionais que emitem as receitas e autoridades com o objetivo de conscientizar os envolvidos entre cadeias produtivas distintas que coexistem em áreas próximas.

Conforme Gazziero, naquele estado existem problemas ligados à sericultura, que é a produção do bicho-da-seda. O inseto é sensível aos resíduos de inseticidas – usados para controlar, repelir e eliminar outros insetos – que ocasionalmente incidem na produção de amoras para a sua alimentação. E, as frutas acabam sendo mortais. “Em função de todas as situações ligadas à deriva de produtos foi estabelecida a inspeção e regulagem de pulverizadores. Esse trabalho em conjunto com a extensão rural é uma ação que pode mudar cenários. Oitenta e oito por cento usavam a mesma ponta e velocidade para qualquer aplicação, ou pontas avariadas e com vazamentos. Essa é uma grande alternativa para ser trabalhada. Acabou o problema? Não totalmente, mas o trabalho continua e avanços foram conseguidos”, explicou.

O pesquisador concluiu defendendo a convivência harmoniosa entre os produtores de diferentes culturas, com adoção de técnicas de mitigação já existentes.

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