Com dois meses de primavera, o Rio Grande do Sul, que é o segundo maior produtor de flores do Brasil atrás de São Paulo e também o segundo que mais consome o produto no país, registra um cenário de volta à normalidade e retomada do mercado. No Lavandário Lavandas do Morro, centro do município de Morro Reuter, Celso Schuck tenta recomeçar após ter registrado perda de 60% de sua produção em maio do ano passado por conta da enchente histórica que atingiu várias regiões do Rio Grande do Sul. Seu cultivo compreende área de cerca de quatro hectares de lavanda, com aproximadamente 18 mil mudas, que abastece todo o Estado. “A gente espera um pouco menos de chuva, mas não muita seca. A lavanda aguenta um pouco mais a seca do que um umidade”, estima o produtor para o verão, que chega em um mês.
Informações do Instituto Brasileiro de Floricultura (IbraFlor) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) apontam que a floricultura, no Brasil, registrou crescimento de 10% em 2024, com movimentação de R$ 21 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) da cadeia de flores e plantas ornamentais, apesar de dificuldades apontadas pelo segmento, que incluem falta de mão de obra especializada, logística, custo e ainda as questões climáticas.
As expectativas do produtor Gilberto Antunes estão altas para o verão, principalmente para o Natal, em que pretende trabalhar principalmente com a planta ornamental celosia cristata, conhecida como “crista de galo”. O produtor atua no sistema orgânico com a Porto Verde, no bairro Belém Novo, zona Sul de Porto Alegre. Sua maior venda vai para feiras agroecológicas, além da clientela nas redes sociais. Seus principais cultivos são girassóis ornamentais, statice, sempre-viva, boca-de-leão e perpétuas. A última deverá ter sua maior venda no verão, estima Antunes.
O produtor havia investido em 8 mil girassóis e a maior parte da produção apodreceu na enchente, mas alguns meses depois sentiu a recuperação. Já neste ano, observou mais dificuldades no inverno, mas com a chegada da primavera a venda aumentou. “Esse ano vendeu um pouco menos de flores. Teve três meses que foi bem ruim, poucas flores. Mas agora a gente já está conseguindo voltar a produzir e vender”, relata.
Na avaliação de Walter Winge, presidente Associação Riograndense de Floricultura (Aflori) e vice-presidente do IbraFlor, a expectativa de produção no Estado é positiva. “A produção tem corrido bem, temos tido chuvas periódicas e a temperatura também não subiu muito. Isso faz com que as plantas já tenham um desenvolvimento interessante. A expectativa de mercado é que essa boa parte da demanda do Estado seja abastecida com plantas produzidas aqui.”
Na enchente de 2024, a área de produção de flores teve impactos mais pontuais, como perdas de estufas por conta de correnteza e deslizamentos, sendo a maioria prejuízos na produção devido à umidade. A maioria dos prejuízos foram registrados no Vale do Taquari. Porém, a situação não demorou para voltar à normalidade. Os maiores prejuízos foram logísticos em razão das estradas danificadas e das interrupções, além do aumento do custo do frete, tanto para insumos quanto para vendas. “Isso onerou, de certa forma, a produção e a comercialização”, afirma Winge.
Os principais desafios, além da logística, envolvem ainda a irrigação. Os períodos de estiagem costumam trazer dificuldades para os produtores. “Nos outros anos, entramos em dezembro com pouca água e com estiagem dos meses de janeiro e fevereiro, e colocaram muita produção assim em estado de alerta, porque é muito quente e tem muita evaporação”, explica.
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Produção no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, a maioria das flores é destinada a paisagismo ou vasos, e o restante para cortes de buquê. Quase toda a produção (98%) é comercializada no próprio Estado. As principais categorias vendidas são folhagens envasadas, flores em vasos, flores de corte, flores de forração e espécies suculentas. As flores predominantes costumam variar conforme a estação. No inverno, a preferência fica por conta do amor perfeito e boca de verão - a última também no verão, conhecida por amor-perfeito-de-verão ou torênia, acompanhada da flor de pervinca, gerânios e trepadeiras.
De acordo com dados da Emater, atualmente o Estado tem 554 produtores comerciais, distribuídos por 110 municípios. As principais regiões produtoras são as da Região Metropolitana de Porto Alegre, os vales do Sinos, do Caí, do Taquari e do Rio Pardo, Campos de Cima da Serra e Serra. São 327 hectares de áreas de cultivo, exceto gramas. Desta área, 180 hectares estão em ambientes protegidos, como estufas e em telhados.
A previsão é de alta de 5% a 7% no Estado, segundo a informações da Associação Riograndense de Floricultura (Aflori). No Brasil, o mercado têm apresentado tendência de crescimento de 5% a 8% anualmente. “É uma tendência que vinha e que foi intensificada na época da pandemia, quando as pessoas ficaram mais em casa e começaram a se dedicar mais a cultivar plantas e flores em casa”, afirma o presidente Aflori e vice-presidente do IbraFlor, Walter Winge.
Atrativo turístico
As flores também tem servido de atrativo para turistas. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o turismo rural se consolida como uma alternativa sustentável para o desenvolvimento de cidades. Amparada pelos números gerais do setor, que recebeu 6,65 milhões de pessoas em 2024 no Brasil e uma receita de 6,6 bilhões de dólares, a entidade tem expectativa que, parte desse desempenho seja motivado pelas atrações no interior do país.
No Estado, o município de Morro Reuter, por exemplo, passou a contar com um circuito de visitação de propriedades. A Associação dos Produtores de Lavanda e a prefeitura lançaram, em outubro, a Rota da Lavanda. São 16 estabelecimentos integrantes, espalhados pela BR 116, Centro, bairros Linha Gorgen, Birkenthal, Walachai e São José do Herval. Entre eles, estão plantações, cafés, lojas e até cervejarias, que usam esse ingrediente nas receitas.