Rural

Situação do crédito rural ainda vai piorar no primeiro semestre, adverte entidade

Segundo a Farsul, cerca de 15% de toda a carteira ativa de crédito rural no Brasil está “sob algum tipo de estresse financeiro”

Como saída no horizonte para a crise, a Farsul defende a “aprovação urgente do PL 5.122”, atualmente em tramitação no Senado, para estrutura o endividamento do setor
Como saída no horizonte para a crise, a Farsul defende a “aprovação urgente do PL 5.122”, atualmente em tramitação no Senado, para estrutura o endividamento do setor Foto : Pixabay / Divulgação / CP

“A saúde financeira do agronegócio brasileiro acendeu um sinal de alerta”. Assim começa a Nota Técnica divulgada nesta terça-feira, 6, pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). A partir de dados do Banco Central, definiu que a “carteira estressada” do crédito rural (que soma atrasos, inadimplência e dívidas renegociadas) saltou de R$ 72,2 bilhões, em julho de 2024, para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025. “O crescimento de 71% no período revela uma deterioração acelerada, concentrada principalmente nos últimos meses”, avalia a entidade.

Atualmente, segundo a Farsul, cerca de 15% de toda a carteira ativa de crédito rural no Brasil (estimada em R$ 812,7 bilhões) encontra-se “sob algum tipo de estresse financeiro”. “Diferente de crises anteriores, o quadro atual no Brasil não é provocado por questões climáticas. A Farsul enfatiza que o país registrou uma safra recorde em 2025, o que reforça que o problema é econômico”, analisa.

Taxas de juros

A entidade aponta o nível elevado da taxa de juros como o “principal ofensor”, mas faz uma ressalva importante: a culpa não é da autoridade monetária. “A raiz está no desequilíbrio fiscal, que pressiona a inflação e obriga a manutenção de juros altos”, afirma o documento, e reitera o apoio às decisões do Copom no controle inflacionário.

Para a Farsul, a análise da execução da Medida Provisória nº 1.314/2025 e da Resolução CMN nº 5.247/2025 revela distorções que preocupam os produtores. Dos R$ 28,2 bilhões renegociados até dezembro de 2025, apenas 19% (R$ 5,4 bilhões) utilizaram recursos públicos com juros subsidiados. 81% (R$ 22,8 bilhões) foram renegociados com recursos livres, sujeitos a taxas de mercado, esclarece a entidade.

Solução em problema maior

Para a Farsul, renegociar dívidas a juros de mercado em um cenário de Selic elevada pode “transformar a solução em um problema maior”. Afinal, ressalta, com carência e parcelamento, o saldo devedor tende a crescer, criando uma acumulação exponencial do passivo que pode levar a novos episódios de estresse no futuro.

Outro ponto crítico é a focalização dos valores. “Enquanto o Tesouro Nacional direcionou boa parte de seus recursos ao Pronaf e Pronamp, os ‘demais produtores’, que detêm o maior volume de endividamento em condições mais caras, acabaram recorrendo quase exclusivamente aos juros de mercado”, informa a Farsul. “Dos R$ 22,8 bilhões renegociados via recursos livres, 100% foram destinados a este grupo, evidenciando a falta de efetividade da política pública para o segmento.”

“O cenário para o curto prazo não é animador. A previsão é que a situação do crédito rural continue a piorar no primeiro semestre de 2026, com uma possível estabilização apenas após o mês de maio, dependendo da normalização fiscal e da ausência de novos choques econômicos”, deduz a entidade.

Como saída para a crise, a Farsul defende a “aprovação urgente do PL 5.122”, atualmente em tramitação no Senado, visto como uma alternativa mais adequada para estruturar o endividamento do setor.

“A entidade também recomenda a redução da dependência de renegociações a juros de mercado. Além de acelerar soluções que ataquem o núcleo do problema fiscal brasileiro e recalibrar os mecanismos de apoio para que alcancem os produtores mais expostos aos juros livres”, ainda acrescenta.

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