Rural

Suspensão de tarifas não surpreende o agro gaúcho

Dirigente da Farsul diz que medida de Trump foi para combater a inflação interna, não para beneficiar o Brasil

A carne bovina é um dos produtos que o Rio Grande do Sul exporta para o mercado americano
A carne bovina é um dos produtos que o Rio Grande do Sul exporta para o mercado americano Foto : Jaelson Lucas /AEN / CP

O anúncio do governo americano da suspensão das tarifas de 40% sobre alguns produtos agrícolas brasileiros exportados àquele país causou “alegria”, mas não surpreendeu a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). “A gente recebe com alegria, mas não com surpresa”, avaliou o economista-chefe da entidade, Antonio da Luz.

“Já estava nas nossas contas que o governo americano em algum momento faria este movimento. E não é por conta do Brasil, dos interesses brasileiros, por conta das negociações que o Brasil tem tabulado com o governo americano. Não é nada disso. É uma questão efetiva de defesa da economia deles”, interpreta Da Luz.

Em abril o presidente Donald Trump anunciou tarifas adicionais a uma série de produtos brasileiros, o que impactou diretamente o agro gaúcho, que viu os Estados Unidos despencar em relevância do segundo ou terceiro lugar entre os principais mercados para a 14a colocação. E em outubro não houve nenhum embarque de carne bovina in natura do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos.

No caso da carne, Da Luz esclarece que o consumo americano não tem crescido pela produção local estar estagnada. E o principal fornecedor, a Austrália, não tem ampliado os envios, e, desta forma, a carne do Brasil, o maior exportador mundial e segundo principal àquele país, se torna fundamental para o abastecimento doméstico americano.

“Quem realmente entrou no mercado americano e aumentou muito as exportações para lá foi o Brasil”, menciona. Assim como, o café brasileiro é fundamental para o consumidor americano.

Da Luz lembra que as tarifas de Trump a uma série de produtos importados levou a aumentos inflacionários. “Ele está dando uma resposta ‘para dentro’, não está fazendo nada para o bem do Brasil”, avalia. “Não tem nada a ver com as negociações, tem a ver com o interesse dele em segurar a inflação”.

“O Brasil é um gigante no agro. O Brasil é o maior exportador líquido de alimentos do mundo. E já passamos mais de uma vez o dobro do segundo colocado, que é o próprio Estados Unidos. O Brasil não tem substituto no mundo. Ponto!”, sintetiza o economista a relevância dos produtos do agro brasileiro aos mercados mundiais.

O economista acrescenta ainda que o Brasil precisa continuar nas negociações com “soluções firmes e rápidas” para os itens que não tiveram alteração mas tarifas. “O problema não são os produtos em que os Estados Unidos são absolutamente dependentes da gente. O problema são aqueles em que os Estados Unidos não são”, complementa, e cita mel, madeira e os do segmento coureiro-calçadista. Além destes, também o tabaco, um importante item da pauta de exportações do Rio Grande do Sul, segue com a taxação de 40%.

Um desafio a menos

Já o secretário da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Edivilson Brum, comemorou a retirada da tarifa. De Genebra, na Suíça, onde participou da 11ª Conferência das Partes (COP11), evento do tabaco, Brum ressaltou a importância da medida para o Brasil e para o Rio Grande do Sul.

“É algo que o setor comemora. Menos um desafio para nossa economia do agro que já está em dificuldade e que tem enfrentado diversos desafios ao longo dos anos, como os problemas das estiagens, das enchentes. Com esse abrandamento, a tendência é que o setor tenha um pouco mais de tranquilidade para fazer transações comerciais com os Estados Unidos”, avaliou.

Da mesma forma, o presidente Lula disse estar feliz com a retirada das taxas americanas. Segundo ele, o Brasil está sabendo lidar com a pressão das tarifas e obteve respeito dos EUA.

“Quando o presidente dos EUA tomou a decisão de fazer a supertaxação, todo mundo entrou em crise e ficou nervoso. E eu não costumo tomar decisão com 39 graus de febre. Eu espero a febre baixar. Se você tomar decisão com febre, você vai cometer um erro”, disse. “E hoje estou feliz porque o presidente Trump começou a reduzir as taxações. E essas coisas vão acontecer na medida em que a gente consiga galgar respeito das pessoas, ninguém respeita quem não se respeita”, acrescentou.

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