Cidades

“Não basta o juiz ser correto, tem que aparentar ser”, diz desembargador do TJRS

Em debate na Rádio Guaíba, juristas discutem proposta de código de ética apresentada pelo ministro Fachin ao CNJ

Desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, do TJRS, participa de programa da Rádio Guaíba
Desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, do TJRS, participa de programa da Rádio Guaíba Foto : Alina Souza

O desembargador da 23ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), Antonio Vinicius Amaro da Silveira, participou nesta sexta-feira de um debate sobre o limite ético e a transparência na atuação dos magistrados brasileiros, no programa de Lasier Martins, na Rádio Guaíba. Além do desembargador, que é ex-vice-presidente do TJRS, participaram do debate os advogados Ricardo Giuliani, especialista em Direito Privado, Flávio de Lia Pires, especialista em Direito Penal e Processo Civil e Alexandre Wunderlich, especialista em Ciências Criminais.

“Não basta o juiz ser correto, imparcial e transparente. Ele tem que aparentar ser”, comentou o desembargador, citando as recentes discussões sobre ética, transparência e os limites da atuação de magistrados no Brasil.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, apresentou na última terça-feira ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) uma proposta de um novo código de ética para o Poder Judiciário. O documento traz regras sobre o recebimento de presentes e a participação de magistrados em eventos. Fachin quer iniciar o debate no plenário e, em seguida, colocar o texto em votação.

Respondendo à pergunta inicial do debate sobre se o Judiciário precisa de um código de conduta, o advogado Flávio de Lia Pires afirma:

“Como está sendo proposto, a minha resposta é não. Até porque o que está sendo proposto já existe”, disse o jurista, que cita o Código de Ética da Magistratura Nacional, editado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2008, que complementa a Lei Orgânica da Magistratura Nacional, de 1979.

O desembargador destacou que a transparência já está contemplada, inclusive, nas normas em vigor. “Um dos princípios norteadores do nosso Código de Ética é a transparência, que é também a essência da democracia”, afirmou Silveira.

Segundo de Lia Pires, o problema é que o código não se aplica, em termos de controle disciplinar pelo CNJ, aos ministros do Supremo Tribunal Federal, porque o conselho não possui competência disciplinar sobre o STF.

“O grande problema do Supremo é que ele não tem um órgão fiscalizador. De que adianta criarmos uma norma cuja sanção não pode ser fiscalizada?”, argumentou de Lia Pires, que complementa: “É uma determinação que pode satisfazer a mídia e a sociedade, mas, na prática, para mim, equivale a nada.”

O desembargador, por sua vez, avaliou que a proposta de Fachin tem o mérito de fortalecer a transparência institucional e ampliar a discussão sobre a atuação do Judiciário.

“Juiz precisa silenciar, mas o judiciário não. O Judiciário tem que expor à sociedade a razão pela qual determinadas medidas são adotadas. Isto serve para todas as instâncias”, disse Silveira.

Já Wunderlich argumenta ser necessário inserir o tema no contexto atual. Ele afirma:

“Vivemos um contexto de descrédito e desconfiança com o poder público. Essa desconfiança da sociedade civil em relação à classe política é legitimada por diversos casos de escândalos. Não é um caso de código de conduta, precisamos de explicações na área da persecução penal.”

Ricardo Giuliani defendeu mudanças em pontos como a análise de impedimentos de ministros do STF. Segundo ele, nos últimos dois anos houve cerca de 300 pedidos sobre o tema e a avaliação dessas situações permanece concentrada na Presidência da Corte.

“Existe necessidade, sim, de modificação normativa. Por exemplo, por que estas questões não são examinadas numa turma, num colegiado? Esta é uma questão que, do meu ponto de vista, é legítima de ser discutida”, afirmou Giuliani.

Ao final do debate, o desembargador do TJRS resumiu sua visão sobre o papel da magistratura ao defender que a atuação do juiz deve ser discreta, imparcial e inspirar confiança pública.

“O melhor juiz é aquele que, quando termina o jogo, ninguém lembra o nome dele”, afirmou Silveira.

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