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Areal da Baronesa: território quilombola mantém viva a ancestralidade negra em Porto Alegre

Conheça a história da formação da comunidade localizada entre os bairros Cidade Baixa e Menino Deus que reúne gerações desde o período colonial

Cultura e memória sustentam a permanência do quilombo diante das transformações urbanas da capital gaúcha
Cultura e memória sustentam a permanência do quilombo diante das transformações urbanas da capital gaúcha Foto : Pedro Piegas

Em uma rua sem saída, localizada no limite de dois dos bairros mais convencionais de Porto Alegre, o Quilombo Areal da Baronesa vive. Cerca de 90 famílias compõem o grupo de residentes da avenida Luiz Guaranha, na fronteira entre Cidade Baixa e Menino Deus, lugar que se tornou símbolo de tradição na cidade, celebrado por sua origem, cultura e resistência.

A comunidade tem raízes no século XVIII, em uma área onde se formou um dos mais antigos arraiais da capital gaúcha. A denominação como quilombo urbano, porém, se firma a partir de marcos institucionais mais recentes e de um processo de autoidentificação conduzido pelos próprios moradores. Em 2002, a comunidade recebeu a certificação da Fundação Cultural Palmares (FCP).

Mais de uma década após o início da tramitação do processo de titulação do território, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) publicou, em fevereiro de 2014, a Portaria nº 76, que reconheceu como terras remanescentes de quilombos uma área de 4.466,23 metros quadrados do Areal da Baronesa. Desde então, a comunidade aguarda o andamento do Projeto de Lei encaminhado à Câmara Municipal, que solicita a concessão do título de posse coletiva da área à associação de moradores.

Para além da formalização do título, moradores descrevem o Areal como um lugar de pertencimento, memória e continuidade familiar.

“A minha história com o Areal é uma história de vida. Eu moro aqui há 49 anos. Minha bisavó morou aqui, a minha avó, a minha mãe, os meus filhos moram aqui. Já estamos na quinta geração da família morando no mesmo lugar”, ressalta a líder comunitária Fabiane Xavier.

A conquista do espaço, para ela, se firmou quando o grupo passou a coordenar a busca por reconhecimento e direitos, com orientação ligada ao poder público e apoio de organizações do movimento negro.

“A gente sempre soube que aqui era uma área remanescente de povos escravizados, mas nunca soubemos direito como buscar isso”, relata. A partir de então, o caminho incluiu certificação, abertura de processos e estudos que reuniram relatos de moradores, pesquisa documental e trabalho arqueológico, como é o caso do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Registros históricos da Luiz Guaranha | Foto: CP Memória

Entretanto, a permanência do Areal carrega uma história de disputas. É preciso olhar para a formação do território e para os recortes que sofreu ao longo do tempo, em meio a apagamentos e à pressão da especulação imobiliária sobre a área central.

Para Luéci da Silva Silveira, mestre em educação pela Ufrgs, a luta pela terra, no caso quilombola, não é pela mercadoria que representa no mundo capitalista, mas “pelo direito de viver num território de ancestralidade negra, onde as subjetividades pessoais e coletivas possam se expressar em sua diversidade”.

Linha do tempo e formação do território

Diferentemente da imagem que se tem hoje, a região onde se localiza o Areal já foi descrita como uma chácara, com um casarão de veraneio à beira da praia e estruturas no entorno ligadas à manutenção de um casal identificado como João Batista e Ana Amélia, associado ao título de Barão e Baronesa do Gravataí.

Como conta Fabiane, o cenário da época tinha dezenas de avenidas com casebres de madeira, curtas e sem saída, com casas de “porta e janela”, como ela descreve.

A líder explica que, naquele período, as mulheres lavavam roupa na beira do rio. Com o tempo, o trabalho de lavar, passar e cozinhar virou sustento de muitas famílias. A proximidade do porto, então mais ativo, garantia uma demanda constante; nas proximidades, departamentos da Brigada Militar também geravam esse tipo de serviço. “Assim eles permaneceram por muito tempo aqui. Ninguém veio reclamar nada da área”, diz.

Não muito tempo depois, após o falecimento da Baronesa, a história do território entra em uma nova etapa. A área passa por mudanças de posse até chegar a Luiz Guaranha. Fabiane relata que o caixeiro viajante que dá nome à avenida comprou o terreno e viu ali uma oportunidade de lucro, em um entorno onde existiam mais de 50 vias com características semelhantes.

Travessa Luiz Guaranha/ Baronesa do Gravatai | Foto:

A partir disso, Guaranha passou a alugar as “peças” para pessoas que, segundo ela, já estavam ali muito antes de ele chegar. Com a sua morte, seus bens teriam sido destinados à Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, e a comunidade passou, por anos, a pagar aluguel diretamente à instituição, ainda segundo o relato da liderança.

Mais tarde, a área entra em outro ciclo alinhado ao avanço de um processo de “urbanização” na região central, em que várias das características avenidas foram removidas, intensificando a pressão da especulação imobiliária. Em um lote pequeno, de cerca de 4,5 mil metros quadrados, a permanência passou a exigir organização comunitária e negociação com o poder público.

“A prefeitura começou um processo de gentrificação na área central da cidade, com o objetivo de ‘urbanizar’ a região, que é uma limpeza, uma urbanização racial. Ela começa a tirar todas as avenidas aqui da volta, todas elas. Talvez a ação mais traumática que a gente teve conhecimento, além de parentes e amigos, foi na região da Ilhota, uma comunidade vizinha que, literalmente, anoiteceu e não amanheceu. E foram também direcionados para começar novos bairros na periferia de Porto Alegre, principalmente a Restinga e a Lomba do Pinheiro.

No lugar dessas avenidas que foram retiradas, vieram pessoas com poder aquisitivo bom, que fizeram prédios, casas, enfim. E a comunidade começou a ‘destoar’ daquilo que tem nesse entorno mais luxuoso, digamos assim. Porque, naquele momento, a região era constituída de casinhas de madeira paupérrimas, de porta de janela, em uma rua de chão batido sem nenhuma infraestrutura acessível para os moradores”, descreve Fabiane.

Resistência

Ainda assim, a comunidade do Areal da Baronesa segue se fortalecendo com o objetivo de valorizar sua ancestralidade e manter vivas suas tradições, junto da mobilização pelo direito de permanecer no território onde se formou.

Nesse processo de resgate e conscientização, a cultura aparece como peça-chave. Conhecido como o berço do samba em Porto Alegre, o quilombo participa até hoje das celebrações carnavalescas da cidade. O bloco Areal do Futuro integra o circuito oficial de Carnaval de Rua da capital e reúne moradores de diferentes idades, conectando o passado, o presente e a posteridade do povo.

Travessa Luiz Guaranha em 2013 | Foto: Paulo Nunes / CP Memória

Entre as principais mudanças para os herdeiros do Areal, segundo Fabiane, está o acesso a oportunidades. A liderança afirma perceber hoje maior disponibilidade de cursos, programas e caminhos de entrada para estudo e trabalho, e atribui o avanço tanto a políticas públicas quanto ao aumento de informação e de ferramentas de organização que tornam os integrantes da Associação Comunitária e Cultural agentes multiplicadores.

Esse legado comunitário também se manifesta perante situações de crise, como por exemplo, na mobilização durante as enchentes de 2024, quando o quilombo conseguiu reunir doações e apoio para viabilizar o retorno das famílias e a recuperação de seus lares.

“A comunidade bravamente se uniu, junto da empatia e solidariedade do povo gaúcho, e conseguimos muitas ações de roupa, de comida, móveis… Graças a Deus, pudemos garantir o retorno de todos para casa”, relata.

Quilombo do Areal no bairro Menino Deus | Foto: Pedro Piegas

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