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Menino Deus: as histórias pouco lembradas de um dos bairros mais tradicionais de Porto Alegre

Além do legado geracional, o bairro guarda memórias improváveis como um hipódromo, um zoológico e exposições agropecuárias anteriores à Expointer

A origem do nome remete à devoção ao Menino Deus, trazida por colonos açorianos
A origem do nome remete à devoção ao Menino Deus, trazida por colonos açorianos Foto : CP Memória

Quem é de Porto Alegre conhece o Menino Deus, nem que seja só por ouvir falar. O tradicional bairro gaúcho carrega características que viraram senso comum e, por isso, você pode estar se perguntando: o que há ainda para redescobrir?

Para além da imagem familiar, o bairro é considerado o mais antigo arraial de Porto Alegre, o primeiro território reconhecido enquanto agrupamento semi-independente na cidade. Esse papel faz do Menino Deus uma peça fundamental para compreender a expansão urbana em direção ao sul da Capital e as transformações que o planejamento modificou a paisagem e o cotidiano de seus moradores ao longo de mais de um século.

A origem de seu nome remete à devoção ao Menino Deus, influenciada por colonos açorianos. A capela homônima, inaugurada na noite de Natal de 1853, virou referência do arraial e ponto de encontro da vizinhança. No entanto, a construção originária em estilo gótico foi demolida no início da década de 1970 e substituída por uma igreja de arquitetura moderna, transformando a paisagem de quem passava pela principal travessia do bairro, a Rua dos Coqueiros, atual Getúlio Vargas. A fileira de palmeiras-da-califórnia, no entanto, permanece como marca do lugar.

Avenida 13 de Maio, atual Getúlio Vargas | Foto: CP Memória

Ruas que abriram o bairro

O bairro nasce também pela demanda de abrir caminhos. Em 1844, por exemplo, um pedido de Antônio Bernardino dos Santos Xavier para abrir uma estrada que ligasse o Caminho de Belas à Estrada da Azenha deu origem à Rua de Caxias. Segundo o historiador Sérgio da Costa Franco, ela só foi considerada transitável em 1847, quando barcos ainda atracavam no início da via, junto ao Guaíba, trazendo pessoas e mercadorias.

Em 1848, veio a Rua Santa Teresa, criada para conectar a Rua de Caxias à antiga Rua da Imperatriz, também chamada Rua da Princesa. Foi no encontro dessas duas vias que a capela foi instalada, e desse cruzamento o arraial passou a se organizar.

Crianças na igreja Menino Deus | Foto: Waldomiro Soares / CP Memória

Essas ruas, porém, não mantiveram seus nomes originais. O rebatismo foi elemento constante na história do bairro, refletindo momentos políticos e sociais do país.

A antiga Rua de Caxias virou José de Alencar em 1896, em alusão ao escritor. Já a via hoje conhecida como Avenida Getúlio Vargas passou por uma sequência de transformações: começou como Rua Santa Teresa (1848), virou Rua do Menino Deus (1858), foi rebatizada Rua 13 de Maio após a abolição da escravatura (1888) e, em 1935, recebeu enfim o nome Getúlio Vargas, em homenagem ao então presidente gaúcho.

O curso da água e os contornos da região

A água é elemento fundamental para contar a história do Menino Deus, não só como paisagem, mas como fator que orientou as principais obras e intervenções urbanas do século XX. O Arroio Dilúvio, antigo Riachinho, influenciou intervenções de engenharia na região. Nos anos 1940, sua canalização se consolidou como uma das grandes mudanças físicas do período, adotada para enfrentar enchentes e alagamentos recorrentes.

Depois, a relação com a orla mudou com o aterro da Praia de Belas, iniciado em 1956. A antiga margem foi redesenhada e, quando a Avenida Praia de Belas foi oficializada em 1961, a “praia” passou a existir apenas no nome.

O plano urbano previa grande ocupação residencial no aterro, mas não se concretizou como projetado. Ainda assim, a obra abriu novas conexões, ampliou o acesso à região e viabilizou o prolongamento de eixos viários importantes.

Ao longo dos anos, o próprio contorno oficial do Menino Deus também foi sendo ajustado. Ele mudou em diferentes revisões e, hoje, tem um percurso que começa e termina no encontro da Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto com a Avenida Praia de Belas, passando pela Padre Cacique, Miguel Couto, Corrêa Lima, Mariano de Mattos, José de Alencar e Érico Veríssimo.

Mapa do bairro Menino Deus em 1969 | Foto: CP Memória

“Qualidade de vida”

A intervenção na orla acabou criando uma das rotinas mais típicas do Menino Deus. O Parque Marinha do Brasil, criado por lei em 1963 e inaugurado em 1978, virou parte do dia a dia, seja para caminhar, correr, pedalar ou simplesmente aproveitar uma tarde de domingo.

No entorno, o Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE) e o Grêmio Náutico Gaúcho reforçam essa presença do esporte, lazer e convivência há décadas na rotina dos residentes da região.

A associação do bairro com “qualidade de vida” também passa por uma lógica prática que conta com ruas arborizadas, comércio local forte para quem resolve boa parte da rotina a pé. Mesmo tão perto do Centro, a região costuma manter um ritmo mais calmo, em contraste com a sensação de urgência comum em centros urbanos.

Memórias e pérolas escondidas

Distante dos dias de hoje, em uma versão mais “agitada” do Menino Deus, o bairro já deteve o Prado Rio-Grandense, considerado o segundo hipódromo oficial de Porto Alegre, inaugurado em 1881. As corridas seguiram até 1909, quando a área foi vendida ao governo do Estado e passou a abrigar a Secretaria da Agricultura, que ainda funciona ali. Hoje, o endereço também recebe a Feira Ecológica do bairro aos sábados pela manhã (7h às 12h30), reunindo produtores e moradores.

2ª Exposição Pecuária no Bairro Menino Deus, em 1912 | Foto: CP Memória

No mesmo local, a vocação ligada ao campo também apareceu em grandes mostras agropecuárias que vieram antes da Expointer. Em 1912, o Parque de Exposições do Menino Deus sediou a segunda grande exposição agropecuária do Estado, com máquinas agrícolas e mais de 200 animais.

A partir de 1955, o evento passou a ser exclusivo de Porto Alegre, ganhou maior rigor zootécnico e começou a atrair criadores e observadores de outros estados e do exterior. Com a expansão da cidade e do próprio evento, porém, o espaço ficou pequeno para a demanda.

Parque de Exposições Pecuárias do Bairro Menino Deus, em 1964 | Foto: CP Memória

As transformações do bairro também aparecem em detalhes que se perderam com o tempo, ainda que não tão distantes. Até 1994, por exemplo, onde hoje ficam o prédio comercial e o estacionamento do Shopping Praia de Belas funcionava uma fábrica de refrigerantes da Pepsi. E o nome da avenida, apesar de sugerir uma relação com a beira do rio, não vem da paisagem, mas do antigo proprietário das terras do arraial, Antonio Rodrigues Bellas.

Curiosamente, mesmo que o nome da avenida sugira uma relação com as belezas da beira do rio, sua história retoma ao antigo proprietário das terras do arraial, Antonio Rodrigues Bellas.

Outro capítulo esquecido da história local está na Avenida Ganzo, paralela à Getúlio Vargas. Ali funcionou a Villa Diamela, jardim zoológico criado por Juan Ganzo Fernández e batizado em homenagem à sua filha. Entre 1909 e a década de 1920, o espaço inusitado atraiu visitantes com leões, lobos-marinhos, macacos, avestruzes, entre outros animais.

Público no Jardim Zoológico do bairro, em 1910 | Foto: CP Memória

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Envelhecendo junto com o RS

Predominantemente residencial, o Menino Deus possui cerca de 27 mil habitantes, e se destaca por uma população majoritariamente idosa. Em paralelo, o recorte retrata o envelhecimento observado no Rio Grande do Sul, considerado o estado proporcionalmente mais envelhecido do Brasil de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De geração em geração, morar no Menino Deus é tradição para muitas famílias. Filhos que cresceram ali com os pais, marcados pela presença de avós que também escolheram o bairro como lar. Essa continuidade familiar, porém, convive com um desafio: como manter vivo um bairro que enfrenta uma tendência de queda populacional desde 2010, quando eram 31 mil moradores.

Preservação e a disputa pelo que vem pela frente

O Menino Deus também abriga um marco central da memória negra em Porto Alegre: o Areal da Baronesa, na Avenida Luiz Guaranha, com origens registradas no século XVIII. O nome remete à areia avermelhada comum na antiga beira do Guaíba, antes do aterro. Guardado na lembrança da cidade, sobretudo entre os carnavalescos, o quilombo é associado a um território de vida e cultura.

Hoje, a comunidade reúne cerca de 80 famílias e mantém no carnaval uma de suas expressões mais fortes: foi ali, na década de 1930, que surgiu um dos blocos mais antigos de Porto Alegre. A continuidade dessa história aparece no Bloco Areal do Futuro, criado em 1994 como escola de samba e enraizado nas origens do quilombo.

Quilombo do Areal | Foto: Pedro Piegas

O bairro também foi lar do escritor Caio Fernando Abreu. Em 2022, a demolição da casa onde ele viveu, tratada como um “personagem” em seus textos, intensificou a discussão entre moradores sobre a preservação do terriório.

O tema ganhou ainda mais peso nas conversas sobre a revisão do Plano Diretor de Porto Alegre e sobre os rumos da área conhecida tecnicamente como Cidade Radiofônica, que reúne edificações de valor histórico e arquitetônico, mas vive uma pressão imobiliária crescente.

A partir daí, o território se divide. Há quem defenda a preservação do perfil residencial, do patrimônio e das memórias. Enquanto outros veem na região, bem atendida por infraestrutura e próxima ao Centro, espaço para verticalização e adensamento como forma de atualizar o uso urbano.

Para parte da comunidade, episódios recentes reforçam esse impasse e funcionam como sinal de um processo em que referências afetivas e históricas vêm sendo substituídas por novos empreendimentos.


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