Rural

Feiras enfrentam desabastecimento

Causado pelas chuvas e enchentes de maio, problema afeta principalmente os eventos de comercialização de produtos orgânicos

Abastecimento de folhosas nas feiras modelo de Porto Alegre exige grande esforço de comerciantes
Abastecimento de folhosas nas feiras modelo de Porto Alegre exige grande esforço de comerciantes Foto : Poti Silveira Campos / Especial / CP

Produtores e comerciantes das feiras modelo e feiras ecológicas, realizadas semanalmente em Porto Alegre, enfrentam problemas para assegurar o abastecimento de suas bancas. As dificuldades são diferenciadas, variando de acordo com o dano que tenham sofrido com as chuvas e enchentes ocorridas durante o mês de maio. O desabastecimento é mais grave nos eventos de venda de produtos orgânicos e, neste caso, poderá se estender até o início de 2025.

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As oito feiras ecológicas de Porto Alegre atuam praticamente como entreposto de venda direta, do produtor ao consumidor, sem intermediários. Assim, a destruição das lavouras compromete na mesma relação a quantidade e a variedade de artigos oferecidos. A Emater-RS/Ascar calcula que mais de 60% das lavouras da Capital tenham sido arrasadas. A agropecuária foi ainda arruinada em outras cidades da Região Metropolitana, como Eldorado do Sul, no Vale do Taquari e da Serra, áreas importantes para o fornecimento de hortifrutigranjeiros.

“Tem propriedades que sofreram perda de produção. Tem propriedades que tiveram perda de produção e de estruturas. E tem propriedades que tiveram perda total, incluindo residências e equipamentos. Perda todo mundo teve”, diz o assessor de comunicação da Associação Ecológica, Elson Schroeder, descrevendo as adversidades enfrentadas pelos produtores orgânicos. “O quadro do pessoal de Eldorado do Sul é o pior. Ali foi terra arrasada”, acrescenta.

Como consequência para as feiras ecológicas, Schroeder aponta a redução do número de bancas.

“Nem todas têm produtos para participar, neste momento. Os produtos são também mais acanhados. O que costumava encher os olhos enche menos agora. Tanto a variedade quanto a quantidade é muito menor, e isso inclui a agroindústria”, diz Elson Schroeder.

Schroeder prevê que alguns agricultores fiquem impossibilitados de voltar a expor antes dos primeiros meses de 2025. “Terá de haver um processo de recuperação dos solos, para depois começar a botar mudas na terra, esperar a maturação da planta e colher. Será um período longo de recuperação da produção e do sustento das famílias”, explica. Além disso, é preciso considerar as variáveis climáticas. “Sempre existe uma quantidade de perda, todos os anos, por granizo, por exemplo. Como vai se comportar o granizo? Como vai se comportar a geada?”, avalia o assessor.

Problemas de logística

Nas 34 feiras modelos de Porto Alegre, promovidas de terça a domingo, o problema está mais relacionado à logística do que ao desbaratamento das propriedades rurais, como resume Giovani Oliveira, 70 anos, feirante há 40 anos, com a banca repleta de bananas, nas variedades catarina e caturra, na comercialização que ocorre todas as terças no Largo Zumbi dos Palmares, na Cidade Baixa. Oliveira calcula que 10% dos colegas não estão comparecendo aos eventos em razão de terem sido atingidos, de alguma forma, pelo desastre. Para aqueles que tiveram a lavoura perdida, a alternativa é adquirir produtos de terceiros, em geral oriundos de outros Estados.

“Conseguimos manter o abastecimento de tudo que vem pela BR-101, mas isso é válido mais para as frutas”, diz a extensionista da Emater Caroline Kolinski de Lima. “Para percursos mais longos, fica difícil para as folhosas. O déficit é maior”, salienta.

Mesmo que os produtos cheguem à Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa/RS), agora estabelecida em Gravataí, em razão da inundação da sede em Porto Alegre, há uma disputa considerável para adquiri-los. José Ivan Machado Raupp, 55 anos, por exemplo, calcula que precisará de 60 dias até voltar a colher alface, couve, chicória e outras verduras da propriedade em Alvorada. Enquanto isso, a solução é ir a Ceasa. “Estou sem dormir há mais de 48 horas”, disse, enquanto trabalhava na feira da Cidade Baixa. A abstenção de sono, de acordo com Raupp, se dá pela escassez de mercadorias. “Tenho de ficar lá até conseguir abastecer a banca”, diz. Raupp afirma ainda que fica sujeito a pagar preços elevados, cuja diferença de valor não é possível repassar ao consumidor. “As pessoas não compram”, garante.