Adriana Haas

As mentiras que não resistem à maturidade

A coluna de Adriana Haas reflete sobre as falsas verdades que moldam a vida feminina e como a idade desmistifica essas ilusões

Deslocamentos simples também marcam viradas internas: na maturidade, a liberdade passa a ser uma escolha cotidiana
Deslocamentos simples também marcam viradas internas: na maturidade, a liberdade passa a ser uma escolha cotidiana Foto : Freepik / Divulgação / CP

O primeiro de abril costuma ser associado às pequenas mentiras, às histórias inventadas que enganam por alguns instantes até serem desfeitas com um riso. Mas há mentiras que não se encerram assim. Elas não são reveladas no fim do dia e podem nos manter iludidas por muito tempo. São ideias que atravessam anos, às vezes décadas, sustentadas não por alguém específico, mas por uma lógica que aprendemos a considerar natural.

Crescemos acreditando que a vida segue uma ordem previsível, que existe um tempo certo para cada coisa e que certas escolhas, se feitas corretamente, levam a determinados resultados. Aprendemos que o amor, quando é o “certo”, deve ser sustentado a qualquer preço, que o esforço sempre encontra recompensa, que dar conta de tudo é uma virtude, que desistir significa fracassar, que boas mulheres são dóceis e disponíveis, e que o desejo masculino é o que determina o nosso valor. Acreditamos nessas bobagens por muito tempo porque eram como regras para que fôssemos mulheres bem-sucedidas.

Na maturidade, entretanto, surge uma fricção entre o que nos foi prometido e a realidade. Começamos a perceber que algumas relações não resistem mesmo com o esforço investido, que caminhos considerados seguros podem não ser, que o reconhecimento nem sempre vem, que somos invadidas quando não estabelecemos limites, que desistir, em algumas situações, pode ser a melhor decisão, que precisamos nos colocar no centro de nossas escolhas e que o corpo e os desejos seguem transformações que não estavam previstas em nenhum roteiro. Passamos, então, a questionar todas essas lorotas que nos foram apresentadas como verdades.

Veja Também

É nesse ponto, quando observamos a vida com mais precisão, que paramos de ser bobas. Mas é preciso atenção para não cair no mesmo conto, porque algumas balelas apenas mudam de forma. Em um momento de distração, podemos passar a acreditar que já deveríamos ter resolvido tudo, que agora não há mais tempo, que maturidade é sinônimo de estabilidade permanente ou que, a partir de certa idade, não podemos mais reescrever nossas narrativas. São enganos mais sofisticados e difíceis de reconhecer, porque estão envolvidos no etarismo tão presente em nosso cotidiano.

Esse movimento não é leve. Há um luto implicado nele – não pelo que vivemos, mas pelo que imaginávamos que viveríamos se estivéssemos alinhadas com aquilo que, segundo nos disseram, bastaria fazer para dar certo. Ao mesmo tempo, é nesse ajuste que se abre espaço para escolhas menos automáticas, para relações menos idealizadas e para uma desenvoltura que não depende tanto de validação externa. Apesar da dor, passamos a diferenciar melhor o que merece ser sustentado e o que já não se justifica.

O primeiro de abril termina no mesmo dia – mas certas mentiras não. Algumas permanecem por mais tempo do que gostaríamos, outras se desfazem aos poucos, e há ainda aquelas que insistem em voltar, mesmo quando já sabemos que se tratam de farsas. A diferença é que, na maturidade, torna-se mais difícil fingir que não vemos – e já não somos meninas que se deixam enganar com facilidade.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.