Adriana Haas

Nem toda coerência significa maturidade

Adriana Haas analisa como a busca por autonomia e crescimento pessoal pode ser confundida com incoerência, mas é um sinal de evolução

Rever escolhas ao longo da vida não é incoerência, mas parte do amadurecimento
Rever escolhas ao longo da vida não é incoerência, mas parte do amadurecimento Foto : Freepik / Divulgação / CP

“Mas você não era assim.” “Você mudou, hein.” Qualquer mulher que tenha ousado se movimentar pela vida de forma diferente provavelmente já escutou ao menos uma dessas frases. Elas aparecem como simples constatações, mas costumam carregar uma crítica, junto com suspeitas de confusão, imaturidade ou falta de direção. Em uma palavra: somos acusadas de incoerência.

A coerência, nessa perspectiva, deixa de ser o alinhamento entre pensamento, discurso e ação para se tornar uma virtude moral. Espera-se que sejamos fiéis às nossas escolhas e opiniões passadas. Quanto mais consolidada está essa narrativa, maior é a pressão para mantê-la.

O problema é que essa fidelidade pode funcionar como aprisionamento, servindo ao passado em vez de responder ao presente. É o que acontece quando seguimos sustentando decisões, posições ou modos de vida que não fazem mais sentido. Mudar agora exigiria enfrentar o desconforto de ser apontada como contraditória, mas, não raro, isso exige trair quem fomos para acolher quem desejamos nos tornar.

A consistência, nesses casos, não revela maturidade, mas dificuldade de reconhecer que a vida humana, assim como o restante da natureza, é cíclica.

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Quando chegamos à meia-idade, já construímos uma narrativa relativamente estável sobre nós mesmas – e, com ela, uma expectativa de continuidade. O olhar do outro reforça essa expectativa, esperando que sigamos sendo reconhecíveis e previsíveis. Assim, a vida adquire uma aparente estabilidade em que, se ninguém muda, permanecer se torna mais confortável para todos. Para ir além, na maturidade, essa revisão não é apenas possibilidade – é quase uma exigência.

Mas há uma diferença importante entre ter uma história e ficar presa a ela. Depois de tantos anos cumprindo papéis, sustentando expectativas externas e respondendo a roteiros que muitas vezes não foram escritos por nós, torna-se inevitável perguntar o que ainda faz sentido manter e o que já pode ser deixado para trás.

Amadurecer não é manter intacta a versão de si mesma construída ao longo dos anos, mas permitir que ela seja atualizada à medida que a vida avança. É reconhecer que consistência não implica rigidez. Mudar de ideia, de caminho ou de forma de estar no mundo não invalida a história anterior, apenas indica que ela já cumpriu seu papel. Em muitos momentos, a instabilidade é o que anuncia um novo movimento na trajetória. Mais do que temê-la, é preciso investigá-la.

Algumas versões precisam ficar para trás quando amadurecemos. Elas seguem conosco como parte do percurso, mas já não determinam as escolhas que fazemos. Se isso significar autonomia, pouco importa que pareça incoerência.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.