Adriana Haas

Os tempos que se encontram na maturidade

A colunista Adriana Haas reflete como a fase adulta traz consigo reflexões profundas sobre a finitude e o valor do presente

Adriana Haas diz que precisamos de um tempo em que a lógica da produtividade seja interrompida para nos reconectar
Adriana Haas diz que precisamos de um tempo em que a lógica da produtividade seja interrompida para nos reconectar Foto : Adriana Haas / Arquivo Pessoal / CP

A partir da meia-idade, passamos a nos relacionar de forma diferente com o tempo – seja com T maiúsculo (o tempo da vida, que contrasta com a finitude) ou t minúsculo (o do dia a dia, que aparece na agenda).

Os sinais físicos do envelhecimento, as limitações ou doenças que vão aparecendo, a perda dos pais – que nos leva à posição de geração mais velha – nos colocam frente a frente com a consciência de que o T é finito e está colado em nossos calcanhares. Ao mesmo tempo, qualquer reflexão sobre isso precisa disputar nosso t com todos os outros compromissos diários, que envolvem carreira, trabalho doméstico, cuidado de outras pessoas e vida social. No malabarismo cotidiano com o t, não sobra espaço para o T.

Assim, é muito comum que as pessoas só se reencontrem com T quando já têm pouco t. Na proximidade com a morte, escolhas, relações, desejos e renúncias passam a ser examinados sob outra perspectiva, em uma avaliação que pode ser dolorosa se concluirmos que, no cumprimento de tarefas, os dias se transformaram em anos que passaram voando sem que percebêssemos. A enfermeira australiana Bronnie Ware registrou, em seu livro “Antes de partir”, os cinco arrependimentos que ouviu com mais frequência de pessoas sob cuidados paliativos. O primeiro era: “Eu gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a que os outros esperavam de mim”. É o tipo de reflexão sobre a qual resta pouco a ser feito no fim da velhice, mas pode ser uma revolução pessoal quando temos metade da vida pela frente.

Se a maturidade nos coloca diante da finitude, ela também nos oferece como vantagem uma mudança natural de perspectiva. Na juventude, tendemos a olhar para o futuro como um território quase inesgotável. O presente muitas vezes é colocado a serviço de um depois: estudar para depois trabalhar, trabalhar para depois conquistar, economizar para depois aproveitar. Quando a ilusão da infinitude acaba, o hoje ganha outro valor. Isso não significa abandonar planos ou viver apenas o agora, mas perceber que o presente também precisa conter a vida que queremos.

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É aí que o t encontra o T: no tempo para si. Mas não se trata simplesmente de encontrar “tempo livre”. Uma hora vazia na agenda ainda pode ser preenchida por tarefas ou demandas alheias. O que precisamos é de um tempo em que a lógica da produtividade seja interrompida e possamos voltar a nos perceber no controle de pelo menos uma parte de nossas vidas.

Um tempo para pensar no que queremos, no que estamos fazendo, no que já não faz sentido e no que ainda desejamos experimentar. Um tempo que não precisa produzir nada, porque sua função é nos reconectar com aquilo que dá sentido ao que fazemos com o restante dele.

O T nos lembra que a vida é finita. O t nos oferece a matéria de que ela é feita. A maturidade pode ser o momento de fazer com que os dois voltem a se encontrar enquanto ainda há tempo.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.