Adriana Haas

Quando o medo chega antes da menopausa

A colunista Adriana Haas analisa o que está por trás da preocupação com o período de transição hormonal e mostra que a fase pode ser de descobertas

Receio antecipado está ligado a diferentes razões
Receio antecipado está ligado a diferentes razões Foto : Magnific / Divulgação / CP

Uma mulher que está entrando na perimenopausa contou ter pedido ao seu médico “qualquer coisa que evitasse sentir qualquer sintoma” da transição hormonal que é inevitável, mas cujos efeitos ela ainda desconhece. É evidente que sintomas importantes merecem tratamento quando interferem na qualidade de vida, e a ciência oferece recursos para isso, mas a questão que ficou comigo foi outra: por que queremos tratar um sofrimento que nem sabemos se vai existir? A transição hormonal é um processo extremamente individual e, nesse sentido, se parece com nossa impressão digital: é única. O que você sentirá será diferente do que eu sinto – e não há como prever.

Há algumas possibilidades, entre tantas, que podemos colocar em discussão como origens desse receio antecipado em relação à (peri)menopausa. Uma delas é a temida diminuição na produtividade, consequência da queda de energia percebida por algumas mulheres. Vivemos em uma cultura que transformou produtividade em medida de valor pessoal, na qual a desaceleração é percebida como fracasso. Sob essa lógica, o envelhecimento costuma mesmo trazer alterações, mas será que isso é um problema ou apenas uma mudança – muitas vezes, bem-vinda?

Outro receio que costuma acompanhar a transição hormonal é o de não nos reconhecermos mais. É uma frase tão ouvida, quase sempre sob o viés negativo, que pode se tornar assustadora demais para que desejemos pagar para ver. Mas podemos olhar por outra perspectiva: talvez não estejamos nos reconhecendo porque não somos mais as mesmas. A transformação é natural aos seres humanos, e a meia-idade, com todas as mudanças de vida que acarreta, é um prato cheio para que elas se intensifiquem ou sejam percebidas com mais nitidez. Nesse caso, o que seria mais interessante para o nosso crescimento: investigar esses estranhamentos para ver onde podem nos levar ou anestesiar para seguir sendo o que não somos mais?

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Uma terceira possibilidade é a associação imediata entre a menopausa e o envelhecimento. Eles de fato estão associados, mas isso só se torna um problema diante do olhar etarista de nossa sociedade, que não vê valor em mulheres que envelhecem. Não é difícil entender, então, por que tantas mulheres se apavoram com a menopausa antes mesmo que ela produza qualquer sintoma.

Essas hipóteses vão ao encontro de uma constatação que tenho feito ao longo do trabalho com mulheres que entram na maturidade: o medo não é apenas dos sintomas da menopausa, mas do que ela simboliza. Talvez o que mais nos assuste não seja a possibilidade de ondas de calor ou noites mal dormidas, mas a constatação de que nosso corpo começa a escrever uma nova fase da própria história.

Em uma cultura que glorifica a juventude e transforma desempenho em valor, a menopausa acaba sendo apresentada como uma fonte exclusiva de perdas. Mas ela pode ser, antes de tudo, uma fronteira de transformação, que nos convida menos a resistir a essa travessia do que a descobrir quem podemos nos tornar do outro lado. Quando agimos pelo medo, acabamos perdendo a autonomia – e, sem ela, "qualquer coisa" serve.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.