Cara leitora,
Setembro, outro dia reencontrei uma postagem antiga nas minhas redes sociais. Escrita há alguns anos, num dia qualquer, de setembro. "Por fora, moda de viola. Por dentro, pão bolorento." É verso de cantiga de roda. Uma dessas que a gente cantava na infância sem entender direito o que estava cantando.
E ali, guardada num post antigo, ela trouxe de volta a reflexão da época. Quantas vezes por fora estamos bem? Para o mundo, para outros. Mas por dentro, só nós sabemos.
Porque tem gente que é assim. Por fora, um brilho e tanto. Um sorriso largo, uma cara de quem dá conta de tudo. Por dentro, uma coisa bem mais cansada do que aparenta. E o pior é que a gente romantizou tanto essa capacidade de dar conta que esqueceu de perguntar quanto ela está custando.
Conheço gente assim. Talvez você também conheça. Talvez, num dia ruim, você já tenha sido essa pessoa. É quem trabalha muito. Quem resolve tudo. Quem cuida dos outros antes de cuidar de si. Quem faz piada na hora certa. Quem está sempre disponível. Quem corre, produz, entrega, e ainda sobra energia para perguntar como você está.
E quando alguém pergunta de volta, a resposta sai quase automática. Está tudo bem. Com uma convicção quase profissional. Existe uma ideia perigosa por aí. A de que quem está mal necessariamente demonstra. Baixa o ritmo, se isola, muda o jeito de falar. Às vezes é assim mesmo. Mas nem sempre.
Às vezes é o contrário. A pessoa acelera. Enche a agenda. Corre literalmente, corre para o trabalho, corre em casa, corre atrás de mil coisas que não são dela, mas que ela abraça mesmo assim. E o movimento vira uma forma de não parar tempo suficiente para sentir o que precisa ser sentido.
Não vou dizer aqui que correr, trabalhar ou se doar aos outros é sintoma de alguma coisa. Não é bem assim, e simplificar demais um tema sério é um desserviço. O que existe, sim, é uma diferença entre a pessoa que corre porque gosta de correr, e a pessoa que corre porque, quando para alguma coisa dói.
- Rastros que ninguém vê
- Ah, o mar... o lugar aonde o corpo chega na frente
- Por que “ninguém” está satisfeito com o que vê no espelho?
E aí a máscara faz o trabalho dela. Convincente até para quem usa.
O que eu queria propor para você hoje não é o conselho de sempre. Aquele de "procure ajuda", "converse com alguém", "você não está sozinho". É tudo verdade, mas já ouvimos tanto que às vezes deixa de tocar.
Eu queria propor outra coisa. Não procure ajuda. Ofereça.
Porque quase sempre colocamos o peso todo em quem está mal. Fale, peça, procure. E quem está do outro lado? Quem percebe? Quem pergunta de novo quando o "tá tudo bem" vem rápido demais?
Talvez a gente não precise aprender a identificar tristeza ou exaustão no outro com precisão de manual. Talvez precise só aprender a olhar melhor. A notar quando a pessoa que sempre pergunta como estamos nunca fala de como está ela. A notar quando o mais forte da sala parece cansado demais para ser só cansaço.
E às vezes não é preciso ter a pergunta perfeita. Às vezes basta sentar-se perto e dizer: você não precisa resolver nada agora, mas eu estou aqui. Pedir ajuda não deveria ser o último recurso de quem já não aguenta mais. Deveria ser uma possibilidade aberta bem antes disso. Eu não sei quem, na sua vida, anda de moda de viola por fora. Mas será que você já parou para perguntar como ela está por dentro?
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
