A 100 dias, corrida ao Piratini segue indefinida

A 100 dias, corrida ao Piratini segue indefinida

Tendência é de alterações nas próximas semanas, já que o período de articulações, neste ano, tem sido caracterizado por reviravoltas

Flavia Bemfica

Até o momento, 11 partidos ou federações apresentaram pré-candidatos na disputa ao governo do Estado. Porém, negociações permanecem

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Na disputa pelo principal cargo da eleição regional, o de governador, a 100 dias do pleito o cenário segue instável no RS. Por enquanto, 11 partidos ou federações têm pré-candidatos na corrida. Mas a tendência é de alterações nas próximas semanas, já que o período de articulações, neste ano, em especial, vem sendo caracterizado por uma sucessão de reviravoltas.

Uma delas foi a que sacramentou a pré-candidatura do ex-governador Eduardo Leite (PSDB), anunciada no último dia 13. Na tentativa de entrar na eleição presidencial, Leite chegou a flertar com o PSD e renunciou ao cargo de governador no final de março, deixando no posto o vice, Ranolfo Vieira Júnior (PSDB), que era apresentado como o candidato do partido ao Piratini. Sem conseguir viabilizar a pré-candidatura nacional, contudo, o ex-governador voltou para o jogo local, cabendo a Ranolfo apenas terminar o mandato.

A mudança impactou a pré-candidatura do MDB, a do deputado estadual Gabriel Souza. Gabriel havia obtido a indicação interna em um processo desgastante, e com o argumento de que só com ele o MDB receberia o apoio de Leite e do PSDB. O tucano, por sua vez, havia, nos acordos que selaram o ingresso do MDB em sua base, garantido que não concorreria à reeleição, e que trabalharia pela aliança entre as duas siglas, com o MDB na cabeça de chapa. De público, em diferentes ocasiões, externou sua preferência por Gabriel.

Após o retorno ao jogo, Leite e o PSDB ofereceram ao MDB a vaga de vice, a ser ocupada por Gabriel. O movimento, justificado por uma suposta pressão das direções nacionais partidárias, aumentou ainda mais a aversão de alas do MDB que já se opunham à aproximação da sigla com o tucano, e intensificou as brigas internas. A hipótese de que, além de Gabriel, o ex-governador Germano Rigotto (MDB), defensor de uma união, ficasse com a vaga do Senado na chapa de Leite, só fez piorar a situação. Ela irritou integrantes do grupo do ex-governador José Sartori, sempre lembrado para o Senado, e contrário ao apoio a Leite, com quem disputou, e perdeu, a eleição de 2018.

A tensão escalou a tal ponto que Sartori fez uma rara manifestação pública. Usou o twitter para cobrar a manutenção da candidatura própria. Os atritos acabaram paralisando temporariamente as negociações do partido. Mas, agora, a sigla se esforça para fechar uma chapa com o PSD, que tem como pré-candidata ao Senado a ex-secretária Ana Amélia Lemos (além de tempo de TV e recursos), de forma a manter a pré-candidatura de Gabriel.

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Frente ampla em descompasso

A confusão não é exclusividade do chamado centro político. Do centro para a esquerda o cenário segue oficialmente indefinido. O retorno de Leite também atrapalhou o pré-candidato do PSB, o ex-deputado Beto Albuquerque. Desde que se lançou na disputa, e durante todas as tratativas com os demais partidos à esquerda, Beto se apresentou como o postulante com o maior potencial para avançar ao centro. Com a presença do tucano, este avanço fica mais difícil. O PSB gaúcho enfrenta ainda pressão da direção nacional para que chegue a um entendimento no RS com a federação formada pelo PT/PCdoB/PV, de modo a que exista apenas uma chapa majoritária.

O comando nacional também bloqueou as negociações dos gaúchos com o PDT para fazer uma aliança no Estado e dar palanque para o pré-candidato pedetista à presidência, Ciro Gomes, e avisou o comando local que, se mantida, a candidatura no RS provavelmente não será prioridade na distribuição dos recursos financeiros. Internamente, Beto vem alertando que, se não for candidato ao governo em uma composição com a federação, não deverá disputar qualquer outro cargo. No sábado, 25, o diretório estadual do PSB faz uma reunião ampliada na Assembleia Legislativa para debater as eleições. O encontro antecede a reunião da comissão nacional que, no dia 27, vai tratar dos palanques regionais envolvendo o PT e o PSB, de modo a promover um alinhamento e garantir exclusividade para a chapa Lula/Alckmin nos estados.

Se o PSB vê sua pré-candidatura desidratar, a situação do PT está longe de ser confortável. Federado com o PCdoB e o PV, o partido tenta no RS convencer possíveis novos aliados e lideranças nacionais que seu pré-candidato, o deputado estadual Edegar Pretto, tem condições reais de furar a bolha petista, se tornar mais conhecido e crescer nas intenções de voto, o que até agora não apareceu nas sondagens. Na semana passada, ante a insistência das direções nacionais por uma solução, PT e PSB retomaram as negociações no Estado, mas falta ritmo no diálogo. Após uma primeira reunião, os presidentes estaduais ficaram de agendar novo encontro para o início desta semana, com a participação de Beto e Edegar. O encontro não aconteceu e não há previsão de que ocorra. Com isso, a decisão final deverá ficar a cargo das direções nacionais.

Próximo do final de semana, o deputado petista se antecipou, e convidou o socialista para uma conversa, mas também nela não houve avanço. Interlocutores petistas e socialistas admitem que a união pode até sair, mas ninguém arrisca qual será o grau de engajamento do derrotado na disputa entre as legendas pela indicação. O PT trabalha ainda em outra frente. Tenta convencer o Psol, que tem como pré-candidato ao governo o vereador Pedro Ruas, a desistir da candidatura própria e integrar uma aliança, indicando Ruas como vice na chapa de Edegar. Por enquanto, as articulações não tiveram resultado concreto.

Cenário mais estável entre os partidos à direita

O cenário é um pouco mais estável nas pré-candidaturas à direita. Em março, o PL lançou o deputado federal Onyx Lorenzoni para o governo do Estado. Na sequência, como parte também de uma articulação nacional, o partido fechou no RS aliança com o Republicanos, que ficou com a vaga do Senado, ocupada pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão. A vaga de vice segue em aberto para uma composição. Onyx, ex-DEM, tem, no RS, grupos sólidos de admiradores no União Brasil, sigla resultante da fusão do Dem com o PSL. A preferência “na base” é tal que vem influenciando as articulações do comando da sigla e travando avanços do PSDB.

O UB integra o governo tucano no RS e é presidido, no Estado, pelo deputado federal Luiz Carlos Busato, egresso do PTB, e para quem também Leite sinalizou a oferta da vaga de vice. A sigla, apesar de sucessivas reuniões para tratar do tema eleições, não demonstra pressa em decidir e deve se posicionar apenas quando o cenário estiver mais definido. Além do UB, Onyx possui simpatizantes declarados ou discretos em parte do MDB tanto por laços estabelecidos na política regional como por afinidade de emedebistas com o presidente Jair Bolsonaro (PL).

O PP, o primeiro partido a definir o pré-candidato ao governo, o senador Luis Carlos Heinze, também se apresenta como palanque bolsonarista, disputará com o deputado o eleitorado à direita e, assim como ele, também pretende avançar para parte do centro. A corrida para conquistar as mesmas fatias de preferências é acirrada e foi decisiva para a definição do nome da chapa ao Senado, a vereadora Nádia Gerhard (PP). O objetivo é que ela se coloque como alternativa ao nome de Mourão e alcance parcelas da população que se identificam com candidatos militares. Para a vaga de vice o PP fechou com o PTB. A vereadora Tanise Sabino foi a escolhida. O PP e Heinze, que cumpre roteiros intensos pelo Estado há meses, divulgando sua pré-candidatura, têm a expectativa de que a composição da chapa ajude, ainda, a aumentar sua inserção na região Metropolitana.

Nomes completam o panorama

Ainda "à esquerda", o PDT, cobiçado para integrar diferentes alianças, decidiu manter uma pré-candidatura própria mesmo após a desistência do presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Júnior, de concorrer. E apesar do pouco tempo que, se seguir sozinho, terá na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O partido oficializou o nome do ex-deputado Vieira da Cunha para a disputa ao Piratini. O movimento garante palanque no Estado para Ciro Gomes. Na avaliação dos dirigentes pedetistas, também ajuda a reforçar a campanha para a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa, mesmo que a estratégia seja discutível nos casos em que os candidatos da majoritária tenham baixo desempenho.

Completam o quadro das legendas que, por enquanto, estarão na disputa pelo Piratini, o PSC, o Novo e o PSTU. O pré-candidato do PSC é o empresário Roberto Argenta. O Novo lançou para a corrida o nome do advogado Ricardo Jobim. O PSTU tem como pré-candidata a ex-presidente do Cpers, Rejane de Oliveira. Por enquanto, ela é a única mulher a concorrer para o cargo nesta eleição de 2022.



Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895